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Epílogo -

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Pesada é a cabeça que carrega a coroa.

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Pensamento

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versoAlheio

Terminei com a impressão de que o rapaz do labirinto nem é humano. Tem gente que vai ler aquela dança no jardim como cena de amor. Pra mim ele já sabia desde a primeira noite o que ia tirar dela.

Terminei com a impressão de que o rapaz do labirinto nem é humano. Tem gente que vai ler aquela dança no jardim como cena de amor. Pra mim ele já sabia desde a primeira noite o que ia tirar dela.

Conteúdo da publicação

Pesada é a cabeça que carrega a coroa.

Aras aprendeu isso cedo demais: todos os seus quatro irmãos mais velhos desistiram do trono antes mesmo de chegar à idade de tomá-lo.

Elfi — o primogênito — queria viver. Queria conhecer o mundo além das fronteiras do reino de seus pais.

Ser o filho bastardo tornava tudo simples. Ele não se importava em deixar a família para trás e se juntar a piratas.

O banimento, porém, deixou uma ferida aberta em seu peito — principalmente quando sua mãe, a rainha Ena, não interveio em seu favor diante da decisão de seu pai por criação, o rei Orian.

Odlan — o segundo mais velho — parecia apto e determinado a seguir os passos do pai. Infelizmente, era facilmente encantado por um rabo de saia.

Apaixonou-se por uma dama da nobreza, depois por uma das damas de companhia de sua irmã mais nova, por uma sereia, por uma plebeia… até finalmente ser capturado por uma bruxa.

Felizmente, a rainha Ena o libertou de sua cegueira infinita. Ainda assim, o destino do jovem príncipe foi se apaixonar por uma mulher que abandonara o marido.

Ele abriu mão do trono para estar com ela.

O rei e a rainha aceitaram sua decisão,  lhe concederam apenas um título menor — muito abaixo daquele ao qual havia nascido.

Leil — o terceiro na linha de sucessão — desde sempre demonstrou desinteresse pela monarquia. Preferia passar seus dias entre os ferreiros do palácio, observando o fogo das forjas e o som dos martelos contra o metal.

Foi o único que quase sentiu o gosto do poder, pois seus pais tornaram-se imperador e imperatriz de uma grande província, e precisaram deixar o antigo reino por um tempo.

O peso da responsabilidade, porém, foi demais para ele.

O jovem príncipe tentou acabar com a própria vida, mas foi impedido por uma jovem empregada do castelo. Deste encontro nasceu um romance inesperado.

Foi por ela que Leil pediu aos pais que o deixassem livre para viver seus próprios sonhos.

A rainha desaprovou completamente aquele amor. O rei, por sua vez, permitiu que o filho partisse.

Assim como Odlan, Leil teve seu título reduzido, deixando de lado a posição que um dia forá sido sua por direito.

Enaira — a quarta filha — foi enviada, junto com Aras, a caçula, para o reino natal de sua mãe. Lá, ambas deveriam estudar.

Enaira para se tornar uma grande rainha e atrair um bom casamento.

Aras, por sua vez, estudaria apenas para ser uma boa princesa — e, assim como a irmã, encontrar um marido digno do título. Ou melhor ainda, conquistar um título tão prestigioso quanto o de Enaira.

Mas o destino, outra vez, achou de bom tom estragar os planos de Orian e Ena.

Sua filha, uma jovem excepcional, também tinha desejos — assim como os três mais velhos.

Ela queria ser uma general. Queria estar à frente das batalhas, em vez de permanecer no castelo rezando para que seu rei voltasse vivo.

Desejava caçar com seus cães, sonhava com a adrenalina e com a chance de provar seu valor, mesmo que isso lhe custasse a própria vida.

E havia também uma mulher.

Uma mulher bela, culta, paciente e destemida — a professora de esgrima do castelo. Uma guerreira que derrotara muitos para conquistar aquele posto, pois certamente os novos imperadores não escolheriam qualquer pessoa para ensinar suas filhas.

Inevitavelmente, Enaira se apaixonou por ela.

E já estava pronta para, em voz alta, renunciar ao seu destino.

Antes disso, porém, fez questão de preparar sua irmãzinha para tomar o seu lugar.

Aras via a irmã mais velha como uma segunda mãe.

E, assim como faria qualquer coisa para ver seus pais felizes, satisfeitos e orgulhosos, ela aceitou que não havia sonhos, sentimentos, desejos ou ambições para si.

Para Aras, existia apenas a coroa.

E, consequentemente, um casamento.

Todavia, meu adorável leitor, Aras guardava, naqueles últimos anos, um segredo.

Todas as noites, após suas damas de companhia a prepararem para descansar, a jovem princesa escapava de seus aposentos. Apaixonada pelo castelo — e graças à biblioteca, conhecendo cada passagem escondida — ela fugia até o labirinto do jardim.

Lá, em meio às cercas vivas, sob a luz da lua, das estrelas e na companhia de alguns pequenos animais noturnos, a filha mais nova do reino encontrava-se com um garoto distinto.

Sua pele parecia cintilar sob a luz noturna. Seus cabelos tinham uma cor difícil de nomear. E seus olhos… ah, os olhos.

Castanho era uma cor comum.

Mas nele…

Aras se perguntava que tom de castanho era aquele. Como poderia uma cor tão simples parecer um abismo que a observava de volta?

Quanto mais ela olhava, mais difícil era se afastar da presença daquele jovem.

Eles conversavam, cantavam, dançavam — e sentiam algo maior do que paixão ou amor. Era uma conexão genuína, como se ambos tivessem sido criados do mesmo material espiritual.

“Almas gêmeas” não descrevia aquela relação.

Nada que já tivesse sido nomeado parecia descrevê-los.

Mesmo assim, Aras estava decidida a abrir mão de tudo — até mesmo dele.

Contudo… quem disse que o rapaz seria cortês o bastante para deixá-la seguir seu caminho?

Não.

Ele era egoísta demais para abandoná-la completamente, mesmo que fosse para que ela tivesse uma vida melhor.

Por isso, durante o baile de boas-vindas — a mesma noite em que Enaira anunciaria sua renúncia à coroa — o jovem conseguiu atrair Aras novamente ao labirinto.

Ali, sob a lua, ele contou seus planos: fugir. Criar juntos, uma vida mágica e feliz.

Claro que a jovem princesa recusou.

O rapaz então tomou sua mão e fez um último pedido.

Que ao menos pudessem dançar mais uma vez.

Que aproveitassem a luz da lua para se verem verdadeiramente… talvez pela última vez.

Ele a guiava pela grama. Uma de suas mãos segurava gentilmente a cintura da princesa, enquanto a outra entrelaçava os dedos nos dela — de forma quase possessiva.

Os olhos permaneciam fixos um no outro.

Aras nem sabia como estavam dançando tão bem, pois era como se não tocassem o chão.

Ela o amava.

Ou talvez fosse algo ainda maior que isso.

Mesmo assim, amor parecia a palavra mais próxima do que sentia. E ela sabia que não poderia seguir em frente antes de dizer aquilo. Antes de fazê-lo entender que ele era — e sempre seria — o único dono de seu coração.

Sua ingenuidade, porém, custou caro.

Assim que seus lábios se tocaram, a sensação foi totalmente diferente de tudo o que Aras havia lido nos livros de romance.

A princesa sentiu.

Sentiu o momento exato em que o jovem arrancou dela tudo que estava ligado à afeição.

Ele sugou suas fantasias.

Sugou suas tolas esperanças.

Roubou cada centelha de amor que vivia dentro dela.

E, por fim…

roubou para si, ela.

Devastada, angustiada e sentindo-se traída, a princesa o questionou:

— Como pôde fazer isso? Por quê? Por que comigo?

As lágrimas que escorriam por seu rosto não alteraram em nada a expressão do moreno à sua frente.

Ele segurou, entre o polegar e o indicador, o delicado queixo da princesa.

Forçou-a a continuar olhando para os abismos que eram seus olhos. E, com aquela mesma voz que tantas vezes cantara ao lado dela — a mesma que contara histórias e despertara mil fascínios — respondeu como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo:

— Você é minha.— Ele inclinou levemente o rosto, observando-a como quem contempla o amanhecer — Não importa o quanto deseje… não importa o quanto outra pessoa possa merecer você. — Seus dedos ainda seguravam o rosto dela com firmeza.— Você é o meu destino.— A voz saiu calma. Quase gentil.— E eu garanti que seus sentimentos nunca fossem manchados por ninguém além de mim.

Ele aproximou o rosto do dela, sussurrando como se fosse uma promessa inevitável:

— Estou apenas assegurando que, independentemente do que aconteça, você sempre será minha.— Uma pausa.

Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios. — Minha prisão.

Soluços escapavam de seus lábios inchados. O moreno deu um último selar de lábios e a pobre garota não teve força para negar.

Ele se afastou, depois de deixar a jovem sem ar pelos quinze minutos consecutivos que se beijaram.

— Aproveite esse epílogo alteza. — Falou de maneira zombeteira, exagerando em sua reverência. — Aproveite, pois quando eu voltar, então finalmente nossa história começará é será exatamente o que vêm após o felizes para sempre.

Ele sumiu na penumbra do labirinto, e assim como ele foi, uma névoa branca tomou todo o local, do absoluto nada.

Thoughts

  • AlmaTavares

    Gostei muito da Enaira a preparar a irmã mais nova para ocupar o lugar dela antes de renunciar. É a coisa mais triste do texto e passa quase sem barulho.

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  • versoAlheio

    Terminei com a impressão de que o rapaz do labirinto nem é humano. Tem gente que vai ler aquela dança no jardim como cena de amor. Pra mim ele já sabia desde a primeira noite o que ia tirar dela.

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  • Ovid

    Que história boa! Fiquei pensando nos quatro irmãos: cada um abriu mão da coroa por um motivo diferente e sobrou tudo para a caçula, a única que nunca pediu nada para si. O que ele tira dela no fim, pra mim, dói mais do que o trono inteiro. Ele prometeu voltar, então essa história vai ter parte 2?

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  • tintaDeTerca

    Li de uma sentada. Fiquei parada na hora em que a Aras aceita que para ela não sobrava sonho nenhum, só a coroa e um casamento. Sou a caçula lá de casa, meus irmãos foram saindo cada um pro seu lado e a conta ficou comigo. Reino eu não tenho, mas esse peso eu conheço bem.

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