CAPÍTULO 15 — AURORA
Aurora aprendeu muito cedo que algumas pessoas conseguem transformar uma casa em um lugar onde ninguém se sente em casa.
Naquela manhã, ela acordou antes do despertador.
O quarto estava silencioso.
A luz do amanhecer atravessava as cortinas vermelhas.
Por alguns segundos, ficou olhando para o teto.
Então ouviu três batidas na porta.
Ela já sabia quem era.
— Aurora?
Dominic.
Ela fechou os olhos.
— Entra.
A porta abriu.
Dominic apareceu usando uma camisa branca perfeitamente passada.
O cabelo estava arrumado.
O perfume preenchia o quarto.
Tudo nele parecia controlado.
Menos os olhos.
— Você não respondeu minhas mensagens.
Aurora sentou na cama.
— Eu estava dormindo.
— Dormindo por três horas?
— Sim.
Ele colocou o celular sobre a mesa.
— Você visualizou.
Aurora respirou fundo.
— Dominic...
— Quem era o cara?
Ela franziu a testa.
— Que cara?
— O que estava com você ontem.
— Noah.
O maxilar de Dominic endureceu.
— Então você sabe o nome dele.
— Porque ele se apresentou.
— Onde você conheceu?
— No hospital.
— Por quê?
Aurora levantou.
— Porque eu estava lá.
— E ele?
— Trabalha lá.
Dominic ficou em silêncio.
Aurora já conhecia aquele silêncio.
Era o momento antes da discussão.
— Você está com ciúmes.
— Não.
— Está.
— Eu só quero saber quem está perto da minha namorada.
Ela cruzou os braços.
— Você não precisa saber tudo.
Dominic deu um passo.
— Preciso.
— Por quê?
Ele demorou.
— Porque você é importante para mim.
Aurora sentiu uma tristeza estranha.
Era sempre assim.
Ele usava amor para justificar controle.
Mas ela já começava a perceber que, por trás daquele controle, havia alguma coisa muito mais antiga.
Algo que Dominic nunca contava.
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A FAMÍLIA
Dominic cresceu em uma casa enorme.
Piscina.
Jardim.
Carros.
Funcionários.
Tudo que uma criança poderia querer.
Exceto liberdade.
Seu pai controlava horários.
Notas.
Amizades.
Roupas.
Até a maneira como Dominic se sentava à mesa.
— Ombros para trás.
— Sim, pai.
— Não fale de boca cheia.
— Sim, pai.
— Não chore.
Dominic tinha sete anos.
Estava com os olhos cheios de lágrimas.
Sua mãe estava internada.
Ele não sabia exatamente o que estava acontecendo.
Só sabia que ela não voltava para casa.
Naquela noite, perguntou:
— Ela vai morrer?
O pai continuou olhando para o jornal.
— Não diga coisas assim.
— Mas ela está doente.
— Ela vai ficar bem.
— Promete?
O pai baixou o jornal.
— Eu não faço promessas.
Dominic ficou quieto.
— Pessoas fracas precisam de alguém forte para protegê-las.
— Eu posso proteger ela?
O pai sorriu.
— Quando crescer.
Dominic guardou aquela frase.
Anos depois, ela se transformaria em uma crença perigosa.
Se eu controlar tudo, ninguém vai embora.
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A MÃE
A mãe de Dominic morreu quando ele tinha dez anos.
Depois do funeral, o pai entrou no quarto.
Dominic estava sentado no chão.
Segurava uma fotografia.
— Ela me deixou.
O pai respondeu:
— Não.
— Então por que foi embora?
— Porque algumas pessoas não têm força para ficar.
Dominic apertou a fotografia.
— Eu teria ficado.
O pai se ajoelhou.
— É por isso que você precisa ser diferente dela.
— Como?
— Nunca dependa de ninguém.
Dominic olhou para ele.
— Mas eu amo ela.
O pai respondeu:
— Amor é fraqueza quando você entrega o controle.
A frase ficou.
Dominic cresceu acreditando que amar significava proteger.
Proteger significava controlar.
Controlar significava não permitir que a pessoa tivesse motivos para partir.
E assim nasceu o homem que Aurora conhecia.
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A PRIMEIRA VEZ
Dominic conheceu Aurora aos dezessete anos.
Ela estava em uma festa.
Era popular.
Ruiva.
Confiante.
Todo mundo queria falar com ela.
Dominic também.
Mas, diferente dos outros, ele não tentou impressioná-la.
Apenas perguntou:
— Você quer ir embora daqui?
Aurora riu.
— Por quê?
— Porque você está fingindo que está se divertindo.
Ela ficou surpresa.
— Como sabe?
— Porque eu faço a mesma coisa.
Foi assim que começou.
Aurora gostou dele.
Ele parecia entendê-la.
Dominic prestava atenção.
Lembrava das pequenas coisas.
A música favorita.
O café que ela gostava.
O jeito que ela prendia o cabelo quando estava irritada.
Ele parecia perfeito.
Até começar a querer saber onde ela estava.
Com quem.
Por quanto tempo.
Por quê.
No começo parecia carinho.
Depois virou vigilância.
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O PRIMEIRO LIMITE
Aurora estava diante do espelho.
Dominic apareceu atrás dela.
— Você vai usar isso?
Ela olhou para o vestido.
— Sim.
— É muito curto.
— Eu gostei.
— Troca.
Ela virou.
— Não.
Dominic ficou parado.
— Aurora.
— Não.
Era a primeira vez que ela dizia aquilo.
Dominic respirou fundo.
— Você sabe que eu só quero proteger você.
Ela respondeu:
— Então confia em mim.
Ele não respondeu.
Porque confiar nunca havia sido ensinado a ele.
Controle, sim.
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NOAH
Naquela tarde, Aurora voltou ao hospital.
Não porque estivesse doente.
Tinha esquecido um documento.
Noah estava no corredor.
Quando a viu, sorriu.
— Você voltou.
— Esqueci uma coisa.
— Achei que tinha gostado daqui.
Aurora riu.
— Não gosto de hospitais.
— Então por que está sorrindo?
Ela parou.
Percebeu que estava.
— Não sei.
Noah colocou as mãos nos bolsos.
— Você sempre responde assim?
— Assim como?
— "Não sei."
Ela sorriu.
— Talvez.
— Então vou tentar descobrir.
Aurora ficou olhando para ele.
Não havia pressão.
Não havia cobrança.
Noah não perguntou onde ela estivera.
Não perguntou com quem.
Não perguntou por que estava sorrindo.
Ele apenas estava ali.
E aquilo era estranho.
Porque Aurora percebeu que não lembrava da última vez que alguém havia deixado espaço para ela respirar.
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A CONVERSA
— Você está feliz? — Noah perguntou.
Aurora ficou séria.
— Por que pergunta?
— Porque parece que você está sempre esperando alguma coisa acontecer.
Ela desviou o olhar.
— Eu namoro.
— Eu sei.
— Então...
— Eu não perguntei se você ama alguém.
Ela o encarou.
— O que perguntou?
— Se você está feliz.
Aurora não conseguiu responder.
Noah percebeu.
— Tudo bem.
— Não está.
Ele não insistiu.
— Você não precisa falar.
Ela sentou.
— Às vezes eu acho que nem sei mais quem eu sou.
Noah sentou ao lado.
— Então talvez esteja na hora de descobrir.
Aurora olhou para ele.
— Você fala como se fosse fácil.
— Não é.
— Então por que diz?
— Porque ninguém deveria precisar desaparecer dentro de outra pessoa para ser amado.
Aurora sentiu os olhos encherem.
Ela virou o rosto.
— Não fala assim.
— Assim como?
— Como se soubesse exatamente o que eu estou vivendo.
Noah ficou em silêncio.
— Talvez eu saiba.
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A FERIDA DE AURORA
Aurora nunca contou a ninguém que tinha medo de ficar sozinha.
Quando criança, seus pais viajavam constantemente.
Hotéis.
Aeroportos.
Jantares.
Eventos.
Ela tinha tudo.
Exceto presença.
Uma babá cuidava dela.
Outra pessoa levava à escola.
Outra preparava sua comida.
Quando fazia aniversário, os pais apareciam.
Tiravam fotografias.
Sorriam.
Depois viajavam novamente.
Aurora aprendeu a ser interessante.
Engraçada.
Bonita.
Popular.
Ela descobriu que, quando todos olhavam para ela, pelo menos alguém estava olhando.
A popularidade virou sua armadura.
A beleza virou sua moeda.
O sorriso virou máscara.
Ela não queria apenas ser admirada.
Queria ser escolhida.
Por isso, quando Dominic a escolheu, ela acreditou que finalmente alguém ficaria.
Não percebeu que havia trocado uma forma de abandono por outra.
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A DISCUSSÃO
Naquela noite, Dominic esperava por ela.
Aurora entrou.
Ele estava sentado na sala.
— Onde você estava?
— No hospital.
— Por quê?
— Eu já falei.
— E Noah estava lá?
Aurora parou.
— Sim.
Dominic levantou.
— Você está gostando dele?
— Não é assim.
— Então como é?
— É uma conversa.
— Você não conversa assim com homens.
— Como você sabe?
Dominic ficou em silêncio.
— Porque eu conheço você.
Aurora riu.
— Não.
Ele franziu a testa.
— O quê?
— Você conhece a versão de mim que você criou.
Dominic ficou imóvel.
— Eu não criei você.
— Criou sim.
Ela começou a chorar.
— Você escolhe minhas roupas.
— Porque me preocupo.
— Você escolhe com quem eu saio.
— Porque alguns homens só querem uma coisa.
— Você olha meu celular.
— Porque não tenho nada a esconder.
— Você não tem nada a esconder porque é você quem invade a minha privacidade!
Silêncio.
Dominic não respondeu.
Aurora respirava rapidamente.
— Eu estou cansada.
Ele deu um passo.
— Aurora...
— Não.
Ela levantou a mão.
— Não tenta me convencer.
— Eu amo você.
Ela fechou os olhos.
— Eu sei.
— Então fica.
Uma lágrima caiu.
— Esse é o problema.
Dominic ficou confuso.
— Qual?
— Você acha que amor é motivo suficiente para eu ficar.
Ela pegou a bolsa.
— Mas não é.
E saiu.
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O ESPELHO
Dominic permaneceu sozinho.
Foi até o espelho.
Observou seu próprio rosto.
Por alguns segundos, viu o pai.
A mesma postura.
O mesmo olhar.
A mesma necessidade de controlar.
Ele ouviu uma voz antiga.
"Amor é fraqueza quando você entrega o controle."
Dominic fechou os olhos.
— Eu não sou você.
Mas a própria voz não pareceu acreditar.
Ele socou o espelho.
O vidro rachou.
O corte apareceu na mão.
Dominic olhou para o sangue.
Então percebeu algo.
Ele estava fazendo exatamente o que o pai fazia.
Transformando medo em violência.
A diferença era que agora ninguém estava obrigando-o.
Era escolha dele.
E isso era muito mais assustador.
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O TELEFONE
O celular de Aurora vibrou.
Mensagem de Noah.
"Você chegou bem?"
Ela ficou olhando.
Não respondeu imediatamente.
Depois:
"Cheguei."
Outra mensagem.
"Está tudo bem?"
Aurora digitou:
"Não."
Parou.
Apagou.
Digitou novamente:
"Agora está."
Noah respondeu:
"Então boa noite, Aurora."
Ela sorriu.
Não havia cobrança.
Não havia perguntas.
Apenas respeito.
E aquilo fez seu coração bater de uma maneira que ela não sentia havia muito tempo.
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A PISTA
No dia seguinte, Aurora recebeu uma ligação.
Número desconhecido.
— Alô?
Silêncio.
— Quem é?
Uma voz feminina respondeu:
— Você conhece Dominic melhor do que imagina.
Aurora franziu a testa.
— Quem está falando?
— Pergunte a ele sobre a mãe.
A ligação caiu.
Aurora ficou imóvel.
A mãe de Dominic.
Ela sabia pouco sobre ela.
Dominic quase nunca falava.
Aurora tentou lembrar das poucas vezes em que havia perguntado.
Sempre recebia a mesma resposta.
"Ela morreu quando eu era criança."
Nada além disso.
Aurora abriu o celular.
Digitou o nome da família de Dominic.
Começou a pesquisar.
Encontrou notícias antigas.
Fotografias.
Eventos.
Doações.
Mas uma notícia chamou sua atenção.
"Família Hale encerra investigação após desaparecimento de documentos do Projeto Blackwood."
Aurora arregalou os olhos.
Hale.
O mesmo sobrenome encontrado nas fotografias.
O mesmo nome que aparecia ligado à antiga empresa.
Ela salvou a página.
Então percebeu algo ainda mais estranho.
A notícia tinha sido publicada quinze anos atrás.
No mesmo ano em que Liam e Yasmin haviam sido observados.
Aurora sentiu um arrepio.
Talvez Dominic não fosse apenas um homem traumatizado.
Talvez sua família também estivesse ligada àquela história.
E talvez alguém tivesse acabado de colocá-la no meio dela.
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A ÚLTIMA LIGAÇÃO
Aurora recebeu outra mensagem.
Dessa vez, apenas uma fotografia.
Ela abriu.
Era uma imagem antiga.
Dominic criança.
Seu pai.
Sua mãe.
E, atrás deles...
Liam.
Yasmin.
Gabriel.
Todos crianças.
Aurora ficou sem respirar.
No verso havia uma frase:
"Eles cresceram juntos. Agora é hora de lembrar por quê."
Ela olhou para a fotografia novamente.
Então percebeu um detalhe.
Dominic estava segurando alguma coisa.
Uma pequena chave.
A mesma chave que Liam havia encontrado.
A etiqueta dizia:
M-04.
Aurora sentiu o coração acelerar.
Pegou o celular.
Pensou em ligar para Dominic.
Não ligou.
Pensou em ligar para Liam.
Também não.
Em vez disso, guardou a fotografia.
Porque, pela primeira vez, Aurora percebeu que talvez tivesse algo que ninguém mais sabia.
E uma pergunta começou a crescer dentro dela:
O que Dominic estava fazendo naquela estação quando era criança?
Enquanto isso, em outro lugar da cidade, Dominic estava diante de uma fotografia antiga.
A mesma fotografia.
Ele passou o dedo sobre a imagem.
E sussurrou:
— Eu lembro.
Mas não contou a ninguém.
Porque a lembrança que acabara de voltar...
era exatamente aquela que ele havia passado a vida inteira tentando esquecer.
Uma porta.
Um quarto.
Sua mãe chorando.
Liam gritando.
Yasmin escondida.
E seu pai dizendo:
— Se alguma dessas crianças lembrar, todos nós estamos acabados.
Dominic abriu os olhos.
E percebeu que o passado estava começando a voltar para todos eles.