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ENTRE SOMBRAS E PECADOS

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CAPÍTULO 17 — VALENTINA DESCOBRE

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CAPÍTULO 17 — VALENTINA DESCOBRE

Valentina nunca gostou de cidades pequenas.

Não porque fossem tranquilas.

Mas porque, em cidades pequenas, todo mundo parecia saber alguma coisa sobre todo mundo.

E quando alguém chegava de fora...

as pessoas percebiam.

Blackwood havia feito isso com ela desde o primeiro dia.

Ela chegou com duas malas.

Um celular antigo.

Pouco dinheiro.

E uma fotografia da mãe.

Nada além disso.

Não conhecia ninguém.

Não tinha amigos.

Não tinha emprego.

E não pretendia permanecer ali por muito tempo.

Seu plano era simples.

Conseguir um trabalho.

Alugar um lugar.

Juntar dinheiro.

E começar uma vida que não tivesse nenhuma relação com o passado.

Mas Blackwood parecia ter outros planos.

Naquela manhã, Valentina estava sentada em uma cafeteria próxima à universidade.

O notebook estava aberto.

Na tela havia uma sequência de documentos.

Nomes.

Empresas.

Datas.

Endereços.

Ela estava pesquisando a antiga empresa ligada à família Blackwood.

Quanto mais procurava, mais perguntas apareciam.

— Isso não pode ser coincidência.

Ela ampliou uma página.

BLACKWOOD HOLDINGS — ENCERRAMENTO ADMINISTRATIVO

A empresa havia sido encerrada oficialmente quinze anos atrás.

Mas havia movimentações financeiras registradas durante anos depois.

Valentina franziu a testa.

— Empresa encerrada não movimenta dinheiro.

Ela abriu outro arquivo.

As transações estavam espalhadas por várias contas.

Algumas pertenciam a empresas diferentes.

Mas havia um padrão.

Todas passavam pelo mesmo banco.

Ela anotou o número da instituição.

Depois percebeu outra coisa.

Uma das contas estava registrada em nome de uma pessoa que oficialmente havia morrido.

Valentina recostou-se na cadeira.

— Quem é você?

---

A GAROTA QUE VEIO DE LONGE

Valentina cresceu aprendendo que dinheiro não era uma coisa garantida.

Na casa onde morava quando criança, faltava quase tudo.

Às vezes faltava comida.

Às vezes energia.

Às vezes esperança.

Sua mãe fazia o possível.

Trabalhava em dois empregos.

Chegava em casa cansada.

Ainda assim, perguntava:

— Você comeu?

Valentina sempre respondia:

— Sim.

Mesmo quando não tinha comido.

Não queria preocupar a mãe.

Foi assim que aprendeu a esconder necessidades.

Se estava com medo, dizia que estava bem.

Se estava triste, sorria.

Se precisava de ajuda, tentava resolver sozinha.

Aos dezesseis anos, começou a trabalhar.

Aos dezoito, saiu de casa.

Aos vinte e dois, chegou a Blackwood.

Ela não queria depender de ninguém.

Talvez por isso tivesse dificuldade em confiar.

Talvez por isso gostasse de investigar.

Informação era a única coisa que ninguém conseguia tirar dela.

---

O NOME

Valentina pesquisou o nome encontrado nos documentos.

Victor Hale.

Ela parou.

O nome não aparecia apenas na empresa.

Aparecia em registros imobiliários.

Doações.

Processos antigos.

Fundos de investimento.

E, principalmente...

Projeto Blackwood.

Valentina abriu o documento.

A página estava parcialmente corrompida.

Mas uma linha permanecia legível:

PROJETO M-04 — ARQUIVO RESTRITO.

Ela sentiu um arrepio.

— M-04.

Pegou o celular.

Abriu a fotografia que havia recebido anteriormente.

A chave.

A etiqueta.

M-04.

Não era coincidência.

Alguém havia escondido alguma coisa.

E alguém não queria que ela encontrasse.

---

A MENSAGEM

O computador travou.

Valentina esperou.

Nada.

Tentou novamente.

A tela ficou preta.

Depois apareceu uma única frase:

VOCÊ ESTÁ CHEGANDO PERTO DEMAIS.

Ela ficou olhando.

Não piscou.

Não respirou direito.

Depois outra mensagem apareceu.

SAIA DE BLACKWOOD.

Valentina fechou o notebook.

Pegou suas coisas.

Levantou.

Então parou.

Olhou para a tela novamente.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Agora eu definitivamente não vou embora.

---

LIAM

Valentina encontrou Liam naquela tarde.

Ele estava sentado sozinho em um banco próximo à universidade.

— Preciso falar com você.

Liam levantou os olhos.

— Sobre o quê?

Ela colocou uma pasta sobre o banco.

— Projeto Blackwood.

O rosto dele mudou.

— Onde conseguiu isso?

— Pesquisando.

— Valentina...

— Antes que você diga para eu ficar longe, saiba que já tentei.

Liam ficou em silêncio.

— E?

— Não funcionou.

Ele pegou a pasta.

Abriu.

Fotografias.

Documentos.

Números.

Nomes.

— Você encontrou Victor Hale.

Valentina assentiu.

— E encontrei M-04.

Liam ficou imóvel.

— Onde?

— Em documentos antigos.

— Você tem certeza?

— Tenho.

Liam fechou a pasta.

— Ninguém deveria conseguir acessar isso.

— Alguém acessou.

— Quem?

Valentina o encarou.

— Eu.

Liam quase sorriu.

— Você é corajosa.

— Não.

Ela se aproximou.

— Eu só não gosto que mandem em mim.

Liam percebeu algo nela.

A mesma resistência que via em Yasmin.

Mas diferente.

Valentina não parecia procurar proteção.

Ela parecia procurar respostas.

— O que você quer? — perguntou ele.

— A verdade.

— A verdade pode destruir você.

— Então ela combina com essa cidade.

---

O ARQUIVO M-04

Valentina abriu o notebook novamente.

Dessa vez, Liam estava ao lado.

— Olha isso.

Na tela havia uma sequência de códigos.

M-01.

M-02.

M-03.

M-04.

M-05.

Liam franziu a testa.

— Isso não são documentos.

— O que são?

— Pessoas.

Valentina o encarou.

— Como sabe?

— Porque já vi essa classificação antes.

— Onde?

Liam não respondeu.

Ela percebeu.

— Você fazia parte disso.

— Não.

— Então por que sabe?

Liam respirou fundo.

— Porque quando eu era criança, meu pai tinha documentos com esses códigos.

Valentina ficou séria.

— Você era um deles?

— Não sei.

— Como assim?

— Eu não lembro.

Valentina fechou o notebook.

— Então precisamos descobrir.

---

YASMIN

Yasmin chegou alguns minutos depois.

— Valentina?

— Aqui.

Ela encontrou os dois.

— O que está acontecendo?

Valentina mostrou a tela.

Yasmin leu.

M-04.

Seu rosto mudou.

— Eu vi isso.

Liam olhou para ela.

— Onde?

— Na casa azul.

— Tem certeza?

— A fotografia da criança.

Valentina olhou para os dois.

— Criança?

Yasmin explicou.

A fotografia.

A casa.

A fita.

A voz da mãe de Liam.

Valentina ouviu tudo.

Depois perguntou:

— E vocês lembram de uma menina?

Yasmin respondeu:

— Não.

— Mas alguém disse que ela existia?

Liam assentiu.

— Eu ouvi quando era criança.

Valentina ficou pensativa.

— Então talvez M-04 não seja um lugar.

— O que você está pensando? — perguntou Yasmin.

— Talvez seja uma pessoa.

O silêncio caiu.

Liam olhou para ela.

— E se for?

Valentina respondeu:

— Então precisamos descobrir quem era M-04.

---

O SEGREDO DA MÃE

Naquela noite, Valentina voltou para o pequeno apartamento onde morava.

Era simples.

Uma cama.

Uma mesa.

Um armário.

Poucas coisas.

Na parede havia uma fotografia da mãe.

Valentina parou diante dela.

— Você sabia?

Não houve resposta.

Ela pegou uma caixa guardada embaixo da cama.

Dentro havia documentos antigos.

Passaporte.

Certidões.

Fotografias.

E uma carta.

A carta que sua mãe entregara antes de Valentina partir.

Ela nunca tinha aberto.

Talvez porque tivesse medo do que encontraria.

Naquela noite, abriu.

A letra era tremida.

"Valentina, se um dia você encontrar alguém falando sobre Blackwood, não confie em ninguém."

Ela continuou lendo.

"Principalmente nos homens que carregam o sobrenome Hale."

Valentina congelou.

Virou a página.

Havia apenas mais uma frase:

"Eu tentei tirar você de perto deles."

Ela sentou na cama.

O coração acelerou.

— Mãe...

A carta continuava.

"Se você chegou até aqui, significa que eu falhei."

Valentina sentiu lágrimas nos olhos.

Durante toda a vida, acreditara que sua mãe simplesmente queria que ela tivesse uma vida melhor.

Agora descobria que talvez sua mudança para Blackwood não tivesse sido tão simples.

---

O HOMEM NA PORTA

Valentina ouviu uma batida.

Uma.

Duas.

Três.

Ela guardou a carta.

— Quem é?

Silêncio.

Ela se aproximou da porta.

Olhou pelo olho mágico.

Ninguém.

Valentina abriu apenas alguns centímetros.

O corredor estava vazio.

No chão havia um envelope.

Ela pegou.

Fechou a porta.

Abriu.

Dentro havia uma fotografia.

Era sua mãe.

Muito mais jovem.

Ao lado de outra mulher.

Valentina reconheceu a segunda imediatamente.

A mãe de Liam.

No verso:

"Sua mãe tentou salvar as crianças."

Valentina sentiu o sangue gelar.

Então outra frase apareceu.

"Ela não conseguiu salvar todas."

O celular vibrou.

Número desconhecido.

Valentina atendeu.

— Alô?

Uma voz masculina respondeu:

— Você deveria ter deixado o passado enterrado.

— Quem é você?

— Alguém que sabe exatamente por que sua mãe mandou você para longe.

Valentina ficou em silêncio.

— O que você quer?

— Que pare de procurar.

— Não.

A voz soltou uma risada baixa.

— Você realmente se parece com ela.

A ligação caiu.

---

A NOITE DE LIAM

Naquela mesma noite, Liam estava sentado no quarto.

A fotografia da criança estava sobre a mesa.

Ele olhava para ela há quase uma hora.

Yasmin estava ao seu lado.

— Você lembra de alguma coisa?

— Não o suficiente.

— Tenta.

Ele fechou os olhos.

Uma voz.

Uma porta.

Choro.

O cheiro de fumaça.

Uma menina.

Ele abriu os olhos.

— Espera.

Yasmin se aproximou.

— O quê?

— Eu lembro do cabelo dela.

— Como era?

— Escuro.

— Mais alguma coisa?

Liam respirou fundo.

— Ela estava usando uma fita.

— Que cor?

Ele apertou os olhos.

— Vermelha.

Yasmin ficou imóvel.

— Eu tinha uma fita vermelha naquela noite.

Liam abriu os olhos.

Os dois se encararam.

— Você?

— Não sei.

— Você usava?

— Minha mãe costumava colocar uma fita vermelha no meu cabelo.

Liam ficou em silêncio.

Yasmin tocou a própria cabeça.

— Mas eu não lembro daquela noite.

Ele segurou a mão dela.

— Talvez você seja M-04.

Yasmin ficou pálida.

— Não.

— Não estou dizendo que é.

— Mas e se for?

Liam olhou para ela.

— Então vou descobrir.

---

A FOTOGRAFIA

Na manhã seguinte, Valentina encontrou Alice.

Alice estava editando fotografias quando Valentina colocou a imagem sobre a mesa.

— Você já viu isso?

Alice pegou.

Seu rosto mudou.

— Onde conseguiu?

— Não importa.

— Valentina...

— Alice.

Ela apontou para a fotografia.

— Quero saber quem são essas pessoas.

Alice observou.

— Essa é a mãe de Liam.

— E a outra?

Alice ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu já vi esse rosto.

— Onde?

— Nos arquivos da antiga mansão.

Valentina respirou fundo.

— Quem é ela?

Alice respondeu:

— A mãe de alguém.

— De quem?

Alice olhou novamente para a fotografia.

— Ainda não sei.

Valentina percebeu outra coisa.

No canto da imagem havia uma criança.

Apenas parte do rosto.

Ela ampliou.

— Alice.

— O quê?

— Essa criança.

Alice aproximou a fotografia.

As duas ficaram em silêncio.

Era uma menina.

Cabelo escuro.

Uma fita vermelha.

E no pulso...

uma pequena pulseira em forma de estrela.

Valentina sentiu o coração parar por um instante.

— Essa pulseira...

Alice olhou para ela.

— O que tem?

— Eu já vi.

— Onde?

Valentina respondeu:

— Com Yasmin.

---

O ARQUIVO DESAPARECIDO

Naquela tarde, Valentina voltou ao computador.

Tentou acessar novamente os arquivos.

Nada.

Tudo havia desaparecido.

M-01.

M-02.

M-03.

M-04.

M-05.

Todos apagados.

Ela procurou o nome Victor Hale.

Também desapareceu.

Ela bateu a mão na mesa.

— Não...

Então percebeu uma pasta escondida.

M-04_FINAL.

Valentina abriu.

Havia apenas um arquivo.

Um vídeo.

Ela clicou.

A gravação começou.

Uma sala escura.

Uma câmera antiga.

Cinco crianças estavam sentadas em cadeiras.

Liam.

Yasmin.

Dominic.

E duas crianças que ela não conhecia.

Valentina ficou sem respirar.

Uma voz masculina surgiu atrás da câmera.

— Vamos começar novamente.

A gravação chiou.

A voz continuou:

— Se vocês lembrarem disso quando crescerem...

Pausa.

— O Projeto Blackwood estará perdido.

A câmera se aproximou de Liam.

Ele estava chorando.

Yasmin segurava sua mão.

Dominic olhava para o chão.

Então uma mulher entrou na sala.

Valentina reconheceu.

Era sua mãe.

Ela olhou diretamente para a câmera.

E disse:

— Tirem as crianças daqui.

O vídeo terminou.

Valentina ficou imóvel.

Não sabia o que doía mais.

Descobrir que sua mãe conhecia Liam e Yasmin...

ou perceber que ela havia passado a vida inteira sem saber que sua própria família fazia parte daquela história.

A tela ficou preta.

Então uma última mensagem apareceu:

M-04 — NÃO É YASMIN.

Valentina congelou.

Abaixo apareceu outra frase:

M-04 AINDA ESTÁ VIVA.

Ela levantou da cadeira.

— Meu Deus...

Seu celular vibrou.

Uma mensagem.

"Agora você sabe."

Valentina olhou para a janela.

Do outro lado da rua, um carro preto estava parado.

Os faróis apagados.

Alguém estava dentro.

Observando.

Valentina fechou a cortina.

Pegou o celular.

E, pela primeira vez desde que chegara a Blackwood, sentiu algo que não sentia desde criança.

Medo.

Mas não o medo de estar em perigo.

O medo de descobrir que sua própria história talvez nunca tivesse sido realmente sua.

E, em algum lugar da cidade, uma pessoa observava a mesma fotografia.

A fotografia de cinco crianças.

E murmurou:

— Eles estão lembrando rápido demais.

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