A água corre dentro de mim,
mas não encontra margens.
É um rio aprisionado,
um movimento que se repete sem destino.
Cada gota carrega um peso invisível,
um pensamento que afunda,
um desejo que se dissolve
antes de tocar a superfície.
A pedra, imóvel,
ergue-se como muralha dentro do peito.
Não se move, não se quebra,
apenas sustenta o silêncio pesado
que me prende ao fundo.
O fluxo insiste,
bate, retorna, se desfaz.
Mas a resistência é dura,
um cárcere sem portas,
um eco que não responde.
E eu, suspenso nesse embate,
sou rio que se esgota em si mesmo,
sou pedra que não cede ao tempo,
sou vida que se arrasta entre correntes e muros.
Às vezes penso:
se a água desistir, restará apenas a rocha,
fria, solitária, sem canto.
Mas se a pedra ceder,
o rio encontrará passagem,
e talvez eu respire outra vez.
Entre o fluxo e a resistência,
a depressão se revela:
não como ausência de vida,
mas como luta incessante
entre o que deseja seguir
e o que insiste em permanecer.