Introdução
Algumas histórias de amor começam com um beijo.
Outras, com um olhar.
A nossa começou com uma bola perdida no quintal de uma menina recém-chegada e uma pequena árvore que mal alcançava a altura de duas crianças de oito anos.
Naquele dia, ninguém poderia imaginar que aquela árvore cresceria junto conosco, testemunhando risos, segredos, despedidas, reencontros e promessas que nem o tempo seria capaz de apagar.
Esta não é apenas uma história sobre romance.
É uma história sobre amizade. Sobre crescer. Sobre descobrir quem somos. Sobre escolhas que nos transformam e sobre pessoas que continuam morando em nosso coração, mesmo quando a vida insiste em levá-las para longe.
Às vezes, amar alguém significa deixá-lo partir.
Às vezes, significa esperar.
E, às vezes, a vida concede uma última oportunidade para dizer tudo aquilo que ficou preso no silêncio durante décadas.
Se, ao terminar estas páginas, você sentir vontade de abraçar alguém que ama, de pedir perdão, de agradecer por uma amizade ou simplesmente de acreditar que alguns sentimentos nunca morrem, então esta história terá cumprido seu propósito.
Antes de tudo...
éramos nós.
Antes de tudo éramos nós.
Capítulo 1 – A menina do caminhão de mudança
Lucas um menino tem 8 anos. Está brincando na calçada quando um caminhão de mudança para em frente à casa ao lado. Ele observa curioso. No meio das caixas aparece uma menina da mesma idade, emburrada por ter deixado a cidade onde morava. Eles se olham. Ela não fala nada.
No fim da tarde, uma bola cai no quintal dela em uma em uma pequena arvore plantada ali, É a primeira conversa entre os dois...
Dali nasce uma amizade ou lado da quela pequena arvore que tem a mesma altura .
A parti desse dia, ele sempre ser encontrava na quela mesma arvore, dali ele saiam para...
andar de bicicleta, corre na rua e ficavam sempre juntos.
no fim da tarde sempre ai para casa fazer dever de casa juntos;
na escolar eles ser defendia um ao outro como unha e carne ;
passar aniversários juntos as festas de aniversario, esses momentos era sempre marcados por aventuras e travessuras.
Criavam piadas que só eles entendiam. Para toda a vizinhança, eram inseparáveis. Todos diziam a mesma coisa: — Parecem irmãos.
É aí que Bella começa a descobrir sua atração por meninas. Lucas percebe que alguma coisa mudou, mas nunca pergunta. A amizade continua, porém já não é igual. Eles se veem menos, mas quando se encontram, parece que o tempo nunca passou.
Os anos passaram sem pedir licença. Cada um seguiu seu caminho, mas havia amizades que o tempo não conseguia apagar. A nossa era uma delas.
Capítulo 2
Ninguém no mundo tinha uma amizade igual à nossa. Crescemos lado a lado, dividindo segredos, risadas até doer a barriga e aqueles momentos em que só precisávamos ficar em silêncio, sentados um ao lado do outro, e já estava tudo bem.
Com o tempo, Bella começou a descobrir sentimentos por meninas. Nossa amizade ficou um pouco mais distante, mas nunca deixou de existir. A vida mudou nossos caminhos, porém sempre encontrávamos um jeito de voltar um para o outro.
Em uma tarde, nos encontramos debaixo da velha árvore onde tudo havia começado. Lucas sorriu, passou a mão pelo tronco e disse:
— Olha, Bella... como ela ficou grande. Lembra? Foi aqui que a gente se conheceu.
Bella sorriu, emocionada.
— Parece que foi ontem.
Os dois olharam para o tronco. Ainda estavam lá as letras "L" e "B", gravadas quando eram crianças. A madeira havia crescido ao redor delas, mas a pequena frase continuava legível:
"Sempre nós."
Por alguns instantes, nenhum dos dois disse uma palavra. Não era necessário. Aquela árvore tinha acompanhado a infância, as promessas, as brigas, os reencontros e o tempo que insistia em passar. Era como se guardasse, em silêncio, a história dos dois.
Dias depois, Lucas estava na sala da casa de Bella. Era uma noite comum. Beberam um pouco de vinho, assistiram televisão e jogaram algumas partidas de videogame. Entre uma risada e outra, o silêncio tomou conta da sala.
Bella parecia inquieta. Mexia no celular o tempo todo, como se criasse coragem para fazer alguma coisa.
De repente, o telefone de Lucas vibrou.
Ele olhou para a tela.
Era Bella.
Mesmo sentada ao seu lado, ela havia enviado algumas fotos sugestivas.
— Ei, só queria te mandar essas fotos porque estava pensando em nós — disse ela, parando por um instante e olhando para ele, pensativa. — Posso te perguntar uma coisa? Só não deixa estranho, tá?
— Pode sim — respondeu ele, com aquele tom suave de sempre, sem saber que aquela pergunta iria mudar tudo.
Ela ficou nervosa, as bochechas coradas, misturando curiosidade e insegurança.
— É que... eu nunca fiquei com um homem. Você poderia... me ensinar algumas coisas?
— Qual é a sua dúvida exatamente? — perguntou ele, já desconfiado, com a expressão mudando de repente.
Ela baixou a voz, como se estivesse compartilhando um segredo:
— Tipo... como é beijar um cara? Como é o toque deles? Tudo é diferente? — Seus olhos esperavam ansiosos pela resposta.
Ele ficou meio sem entender, mas mesmo confuso, disse:
— Você já ficou com mulheres, né? É a mesma coisa. A diferença é que ele vai dominar a maior parte do momento. — Tentou falar com naturalidade, mas a voz embargada entregou o quanto estava abalado.
Bella ficou paralisada com aquela ideia, o rosto todo vermelho.
— "Dominar?" Interessante... — Pegou o copo de vinho e tomou um gole, pensativa. — Então é mais... intenso? Mais forte? Sabe que sou eu quem sempre manda nas mulheres, né?
Mesmo desconfortável, ele respondeu:
— Então você já tem uma noção. É exatamente a mesma coisa. A diferença é que o toque do homem costuma ser mais firme, mais dominante — do mesmo jeito que você faz, mas com o seu jeito de cuidar.
Ela sorriu de lado, ajeitando-se no sofá para ficar mais perto dele.
— Mais forte... mais mandão. E se eu gostar disso? Da força masculina? — Provocou, com um sorriso malicioso, sem saber o quanto aquilo mexia com ele.
— Bem, se você gostar, não tem problema — disse ele, logo emendando com seriedade: — Mas é bom que seja com alguém especial. Então eu pergunto: você tem uma pessoa em mente?
Ele olhou para ela, com medo e esperança misturados. Ela piscou devagar, o sorriso se transformando em algo enigmático. Apoiou-se no sofá e disse:
— Talvez eu esteja... pensando sim em alguém específico. — Olhou diretamente nos olhos dele, deixando claro quem era.
O ar pareceu pesar entre nós. Lucas, com a voz já trêmula, continuou:
— Então você já tem meio caminho andado. Sabe como ele vai te tocar. Agora precisa saber quem ele é: existem homens com pegada mais forte, outros mais suaves, uns que mandam, outros que gostam de ser guiados. Entendeu? Se já tem alguém em vista, estude esse homem. E quando chegar a hora, veja se vai gostar.
Ela ouviu com atenção, os olhos brilhando de determinação.
— Estudar... entendi. E se eu... quiser estudar esse alguém específico agora? — A pergunta saiu suave, mas cheia de intenção. Inclinou a cabeça, esperando.
Ele deu uma risada leve, brincalhão:
— Pode estudar ele agora, mas para isso ele precisaria estar aqui na sua frente... ou será que sou eu? — Riu, sem perceber a verdade.
Bella sorriu suavemente, achando que ele tinha entendido. Levantou-se devagar e parou bem na sua frente.
— Então... você seria o meu primeiro "estudo"? — Cruzou os braços, misturando nervosismo e animação.
Lucas sentiu o suor frio na testa, e agora falou com toda a seriedade:
— Olha, meu amor... como é a sua primeira vez, seria muito bom que fosse com essa pessoa especial que você falou. Para ficar marcado como o desejo mais bonito que você já teve. E se der tudo certo, fica com ele para sempre. Se não der... eu continuo aqui, do seu lado, sempre.
Ao ouvir "meu amor", o coração dela amoleceu. Suspirou, pensativa.
— Você tem razão. Quero que seja especial. Com alguém que valha a pena. — Hesitou por um instante, antes de completar baixinho: — Mas eu confio em você. Com você é seguro.
Os olhos de Lucas encheram de lágrimas. Ele finalmente disse a verdade:
— Então você está pedindo que eu seja o primeiro homem a tocar o seu corpo? Isso não pode... não vai funcionar. Porque eu já sou apaixonado por você. E você é o meu ponto fraco — vou acabar me apaixonando ainda mais.
Bella ficou em silêncio, processando tudo. A surpresa misturou-se com culpa.
— Lucas... você tem sentimentos por mim? — Sentou-se de novo, perto mas com cuidado. — Eu não quero te machucar. Não quero ser o motivo da sua dor.
Ele sentiu o chão sumir:
— É exatamente por isso que eu não posso. Mas... posso te apresentar um amigo. — Seu coração doía, torcendo para que ela mudasse de ideia.
Ela franziu a testa, dividida. Passou a mão pelo rosto, frustrada.
— Um amigo? Mas eu não conheço nenhum homem assim... não de verdade. E se eu acabar gostando mesmo de você? Como vou saber quem é certo se for com outro? — Olhou para ele, procurando uma saída que não o magoasse.
— Nesse caso não existe certo ou errado — disse ele, com a voz quebrada, mas tentando fortalecê-la. — É apenas experimentar algo novo.
Um pequeno sorriso voltou aos lábios dela.
— Experimentar algo novo... como uma aventura, então. Mas você vai estar comigo, certo? Como meu guia? Para me ajudar a entender o que eu realmente quero? — Havia animação, mas também receio.
Lucas ficou chocado.
— Isso vai ser complicado, Bella. Eu não vou aguentar ver você nos braços de outro homem. Isso vai partir meu coração ao meio.
A dor foi tanta que ele quase desabou. Ela tocou seu braço, suavemente.
— Eu não quero te ver sofrer. Mas também não quero passar a vida sem saber como é. — Suspirou profundamente. — Talvez... talvez eu precise fazer isso sozinha. Sem você por perto.
— Talvez sim — disse ele, baixo. — Desculpa por não poder ser quem você precisa agora.
Ela afastou a mão, tomando uma decisão difícil.
— Vou fazer assim: vou sair com esse cara, e depois te conto tudo. Sem detalhes íntimos, prometo. Só o que for importante. — Tentou parecer tranquila, mas a tristeza era clara.
— Não precisa me contar nada — respondeu ele. — Só quero que você fique bem e encontre o seu lugar.
Bella sorriu com tristeza.
— Vou contar só o necessário. Prometo. — Aproximou-se para se despedir. — Cuida bem de você, tá? Não quero que fique realmente triste.
Antes de sair, ela o abraçou forte, apertado — um abraço de despedida.
— Te amo, Lucas. Como amigo... e talvez um pouco mais. — Sussurrou no ouvido dele, antes de se afastar, com lágrimas nos olhos. — Vou ligar quando estiver pronta. Ou talvez não. Depende de como for.
Ela olhou para ele uma última vez e saiu, deixando-o sozinho com o coração partido.
Os dias passaram. Uma semana inteira sem notícias. Ele nunca teve coragem de sair do apartamento, mantendo tudo exatamente como estava naquela noite. Até que uma noite, o telefone tocou. Era ela.
— Oi, Lucas. Posso passar aí? Preciso conversar. — A voz dela estava diferente: mais séria, mais madura.
Ele olhou ao redor, viu seu reflexo no espelho e pensou: não quero que ela me veja assim.
— Desculpa, estou muito ocupado e não estou em casa. Deixa para outro dia. — Era mentira; ele não saía de casa há muito tempo.
— Tá. Ok. Quando você puder, então. Mas é importante. — Ela desligou, deixando-o ainda mais preocupado.
Três dias depois, ele resolveu ligar. Ela atendeu na segunda chamada, com a voz cansada.
— Ei... Desculpa por antes. Eu estava... processando coisas.
— Me conta o que aconteceu — pediu ele, tentando parecer firme, embora estivesse abalado.
Ela demorou a responder:
— Eu... fiz o que combinamos. Saí com aquele cara. E foi... intenso. — Havia surpresa, e algo mais profundo, na voz dela.
— Você queria mesmo me dizer isso? Então foi... normal?
— Não sei — respondeu ela, com uma risada sem alegria. — Foi diferente. E não parava de pensar em você. Eu não entendo!
— Você acha mesmo que eu quero ouvir isso? — disse ele, chegando ao limite.
Bella ficou em silêncio.
— Não. Você não quer. Mas eu preciso falar com alguém. E você é a única pessoa que realmente me conhece. — A voz dela tremeu.
— Desculpa... eu preciso desligar.
— Espera! Por favor, não desliga! — Pediu depressa. — Eu estou confusa. E com medo.
— Por que está assim, Bella?
— Porque... eu gostei. Gostei muito. Mais do que devia. E isso faz eu questionar tudo o que sou. — Um soluço escapou.
— Você é uma mulher linda, maravilhosa — disse ele, com todo o carinho. — Qualquer homem ou qualquer mulher teria sorte em ter você. O caminho está nas suas mãos. Não se arrependa de nada: aprenda com os erros, celebre os acertos. E saiba: seu amigo sempre estará aqui.
Ela chorou abertamente.
— Mas e se eu quiser os dois? Como faço isso sem perder quem sou?
— Bela, você sabe o quanto eu sou apaixonado por você — respondeu ele, com dor. — Essas perguntas não deviam vir para mim agora. Cada palavra é como uma facada no meu peito. Hoje eu não consigo ser um bom amigo. Não tenho muito para te oferecer.
— Eu sei — disse ela, limpando as lágrimas. — Mas você é o único homem que eu tenho. E eu não sei mais o que pensar. Eu te machuquei. Machuquei a nossa amizade.
— Não machucou não — disse ele, suavemente. — Só quero que você seja feliz. Se você for feliz, eu também serei.
— Jamais iria querer te ferir — disse ela, com a voz quebrada. — Mas também não consigo mentir para você. Vou me afastar um pouco. Para não piorar. Para te dar espaço para se curar.
— Obrigado — foi tudo o que ele conseguiu dizer.
— Eu estarei aqui. Quando você estiver pronto, ou quando eu me entender. — Ela hesitou, antes de completar: — Cuide-se, Lucas. E por favor... saia desse apartamento. Não é culpa sua.
Desligou. Poucos instantes depois, chegou uma mensagem:
"Me odeie se precisar. Mas te amo demais para te ver destruído. Por favor, saia de casa."
As semanas passaram. Ele recebeu poucas notícias, apenas fotos distantes dela. Ela cumpriu o combinado: manteve distância. Até que um dia, abrindo o e-mail, ele encontrou algo diferente. Não uma foto. Uma carta. Um texto longo.
O texto começa assim: "Querido Lucas, escrevo isto porque não sei como te dizer pessoalmente. Tenho estado com uma terapeuta. Estou aprendendo a lidar com essa bissexualidade que descobri. E está sendo difícil sem você. Mas necessário."
"Não sou mais a mesma. Estou mais confusa, mais vulnerável. Mas também mais honesta comigo mesma. sempre caminho ao redor da nossa arvore, procurando por você mais não lhe achei, Foi ali que percebi que, sem querer, usei você como um escudo. Enquanto você estava ao meu lado, eu não precisava enfrentar essa parte de mim. Tinha medo de me descobrir... e, principalmente, medo de perder você. No fim, foi exatamente isso que aconteceu.
Há uma foto anexada - ela com lágrimas, mas sorrindo levemente.
Na foto, ela está em um parque, olhando para o horizonte. A legenda diz: "Estou aprendendo a voar sozinha agora sem você ao meu lado. Mas guardo seu coração comigo, como prometi."O texto continua abaixo:"Vou sempre te amar como meu melhor amigo. Mas talvez nunca possamos voltar a ser como antes. E isso me mata por dentro."*
Ela enviou mais uma foto, desta vez com um papel onde escreveu:"Estou escrevendo um livro. Sobre nós. Sobre esse amor platônico que tivemos. Para tentar entender e aceitar. E para te dar uma explicação final."
O livro existe mesmo. Ele será publicado em seis meses.
Passou-se um ano.
Bella continuou escrevendo. Voltou, com carinho, às próprias raízes, à infância, às lembranças que guardava com tanto cuidado. Reviveu cada sorriso, cada silêncio, cada despedida. Transformou tudo em palavras.
Até que, um dia, o livro foi publicado.
Chamava-se Entre Amigos.
Era um relato autobiográfico. Uma jornada de autodescoberta e de um amor que, por mais verdadeiro que fosse, parecia destinado a nunca acontecer.
Em poucos meses, tornou-se o livro mais vendido do ano.
Alguns dias depois, um exemplar chegou à casa de Lucas.
Não havia bilhete. Apenas uma dedicatória escrita à mão na primeira página.
"Para meu melhor amor, que nunca foi meu."
Lucas segurou o livro entre as mãos por alguns segundos.
Então desabou.
Chorou como não chorava havia anos.
À medida que avançava pelas páginas, reencontrava a própria vida. Cada conversa, cada lembrança, cada detalhe que somente os dois conheciam. Ali estava toda a jornada de Bella até aprender a aceitar quem realmente era.
Ela nunca escreveu seu nome.
Mas qualquer pessoa que conhecesse os dois saberia de quem aquelas páginas falavam.
Na última folha, encontrou a despedida.
"Obrigada por me amar incondicionalmente, mesmo quando eu não podia te dar o mesmo.
Espero que um dia você encontre alguém que faça o seu coração inteiro feliz... exatamente como você sempre fez com o meu."
O livro foi falado por meses a fio. Havia quem chorasse ao ler, quem se reconhecesse em cada página. Recebeu prêmios literários e foi lido por milhares de pessoas. E Lucas, sozinho em seu apartamento, lia e relia, relembrando cada momento que viveram juntos.
Em uma entrevista, perguntaram-lhe sobre a obra. Bella disse com suavidade:
— Este livro é uma carta de despedida. Um adeus à minha identidade antiga. E também um agradecimento a alguém que eu jamais esquecerei.
Seguiram-se os anos. Bella continuou sua carreira de escritora, agora aberta e verdadeira com quem era. Alguns anos depois, casou-se com uma mulher. Mandou um convite para Lucas — sabia que ele não viria, mas era um gesto simbólico, uma forma de finalmente fechar aquele ciclo.
Ele recebeu o convite, leu, e o guardou com cuidado numa gaveta. Ali ficou, junto com as lembranças e aquele pedaço do seu coração que, ele sabia, pertenceria a ela para sempre.
Os anos passaram. Lucas envelheceu. E numa tarde chuvosa, alguém bateu à sua porta. Havia um pacote sem remetente, escrito apenas com o seu nome e endereço.
Dentro, uma caixinha e um envelope. Na caixa, uma única fotografia antiga: os dois, ainda crianças, no dia do aniversário de Lucas, em pé ao lado daquela pequena árvore — naquela época em que nada ainda havia mudado entre eles.
No envelope, uma carta escrita à mão. A caligrafia era dela, inconfundível, mesmo depois de tantos anos. E a data, no alto da página, era de hoje.
Significando que ela estava perto.
"Querido Lucas,
Se você está lendo isto, significa que ainda não me esqueceu completamente. E eu espero, de todo o coração, que não tenha sofrido demais por minha causa. Mesmo sem poder sair de casa, precisei vir até aí. Mas não tive coragem de bater à sua porta."
"Enviei esta fotografia como uma lembrança feliz. Quero que você veja: podemos ter amado de formas diferentes, mas aquele nosso amor era real. E verdadeiro. Mesmo quando eu negava a mim mesma que o amava — não apenas como amiga."
Havia uma mancha de lágrima borrada sobre aquelas linhas, provando que ela chorava enquanto escrevia.
"Estou velha agora. Minha esposa faleceu no ano passado. E sinto que não me resta muito tempo. Por isso, resolvi escrever esta última carta. Só para você."
E ela continuou escrevendo por mais duas páginas inteiras. Ali, compartilhou memórias que só os dois entendiam, pediu perdão pelos erros, falou dos arrependimentos e, ao final, fez um pedido final — o único que lhe restava fazer.
Lucas não chegou a ler as últimas linhas. Ao ler aquela frase final, ele parou. Deixou o papel sobre a mesa. E sem continuar a ler, pegou papel e caneta. Escreveu com mãos que tremiam, poucas e simples palavras, diretas do coração:
"Também estou velho. E não posso partir sem te ver uma última vez."
Ela recebeu a carta no dia seguinte. Suas mãos tremiam ao abrir o envelope. Ao ler aquelas linhas, chorou por horas. Depois, secou o rosto, pegou o telefone e discou um número que não tocava há décadas.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. Até que, finalmente, ele atendeu.
Ela respirou fundo, e sua voz, rouca e frágil, soou baixinho:
— Lucas? Sou eu. Bella.
Lucas, com a voz que pesou de emoção:
— Bela... não era bem uma ligação que eu esperava. Mas eu quero você aqui perto de mim. Não tenho muito tempo de vida, e não quero perder a última chance que tenho de estar com você.
Ele olha de relance para a mesa ao lado. Lá está a carta dela, aberta, com o pedido que ele não precisou ler até o fim: "Vem me ver."
Ela soluça baixinho, a voz quebrada como quem finalmente deixa o tempo vencer:
— Eu também estou doente. Câncer. Estágio final. Mas eu consigo... eu vou até você. Preciso te ver uma última vez.
Lucas respira fundo e suaviza a voz, para não preocupá-la:
— Então é uma boa hora para eu sair um pouco de casa. Estou trancado aqui há décadas. Será uma chance de ver como o mundo ficou... e de buscar aquela que eu sempre amei.
Ela ri entre as lágrimas, um som misturando saudade e felicidade:
— Então vamos sair juntos. Como nos velhos tempos. Só que desta vez... sem segredos.
Ela Deu-lhe o endereço. Era a mesma casa de sempre, a casa onde ainda permanecia de pé a árvore que os viu crescer. Uma pequena mansão debruçada sobre o mar.
— Te espero às 14h. Por favor... não me deixe esperando.
— Não deixarei — respondeu ele, com a voz suave. — Já espero por isso há décadas.
Às 14h em ponto, Lucas chegou. Ela estava sentada na varanda, os cabelos todos brancos agora, mas com aquele mesmo brilho nos olhos verdes que ele jamais esqueceu. Ao vê-lo, sorriu e levantou-se com dificuldade.
— Meu amor... finalmente.
Ele parou ao pé daquela árvore, agora imensa, com as iniciais gravadas no tronco. E com um sorriso nos lábios, disse:
Ele para por alguns segundos se olhando nos olhos agora cansados então lucas...
— Eu vim buscar a minha rainha do baile
Ela desceu os degraus com cuidado, apoiada na bengala. Os olhos brilharam ao ouvir aquelas palavras. E ao chegar perto dele, respondeu baixinho:
— Serei sua rainha em qualquer vida, Lucas. Sempre fui.
Ele entrelaça os dedos nos dela e aperta a mão com carinho:
— Vamos caminhar. Quero saber tudo de você. O que fez, o que aprontou, e até o que deixou de fazer.
Ela o olha sorrindo, mas sente algo diferente naquele olhar — algo que não reconhece no garoto que ela conhecia. O sorriso dela se desfaz devagar.
— Lucas... o que você tem?
Ele respira fundo, olhando para o mar, e diz com voz calma e firme:
— Tenho um tumor no cérebro. Sei que me restam cerca de seis meses de vida.
ele para por um instante, ela sente uma dor profunda dor e com lágrimas nos olhos ela escuta, ele depois completa...
E confesso... já esqueci muita coisa ao longo dos anos. Muitos nomes, muitos rostos, muitos dias. Mas de uma coisa eu nunca consegui me esquecer. foi de você.
Ela se apoia em seu braço enquanto caminham pela praia. O mar está calmo hoje.
Eu escrevi livros, casei, tive uma família... mas nunca te esqueci um dia. Cada livro era para você. Cada história de amor, inspirada em nós.
Ele diz, "Então foi assim que você encontrou a sua felicidade?"
Ela olha para o horizonte, pensativa.
"Sim. Mas foi também minha descoberta de que podia amar duas pessoas diferentes. Minha esposa me ensinou a aceitar esse amor mais leve, enquanto você me ensinou o amor profundo e incondicional. Dois tipos de amor que não sabia que existiam."
— Você acha... que naquele tempo, quando me pediu para lhe mostrar como era, se eu tivesse ido e ensinado você... será que teríamos ficado juntos? Teríamos casado? Me perdoa por não ter conseguido te ajudar naquela hora.
Ela suspira profundamente e aperta o braço dele com mais força, como se não quisesse mais soltá-lo.
— Talvez. Talvez tivéssemos sido muito felizes juntos. Ou talvez teríamos nos destruído um ao outro. Nunca saberemos, não é mesmo?
Ele a olha com suavidade e responde:
— É verdade. Nunca saberemos. Sei que já não sou o mesmo de antes. Sou apenas um velho, doente e frágil. Mas de uma coisa eu tenho certeza: nunca te esqueci. E o meu amor por você nunca se apagou. Não podemos voltar ao passado e descobrir o que poderia ter sido. Mas podemos escrever uma nova história... a partir daqui. Até os últimos dias que me restam.
Ela sorri com ternura, os olhos brilhando de saudade e carinho, e diz:
— Então vamos escrever uma linda história. De dois velhos amigos que se reencontraram. E que vão aproveitar cada momento que ainda nos resta.
Pararam por um instante e deixaram vir à tona tudo o que viveram. Sorriram e choraram juntos. Então Lucas olhou nos olhos dela e perguntou, com toda a seriedade:
— Então... vamos nos casar?
Os olhos de Bella se arregalaram de choque e emoção. Ela parou de andar, fixando o olhar nele.
— Lucas... você está falando sério?
— Estou sim, Bela. Disse que iria esperar por você. E se Deus me concede esta oportunidade agora, é porque isto deveria ter acontecido há décadas. Desde o dia em que você partiu, eu nunca fiquei com ninguém. Nunca sequer saí do meu apartamento. Mas agora... agora quero sair para a vida. E quero ir com você.
Uma lágrima escorreu pela bochecha enrugada dela. Ela tocou o rosto dele com as mãos trêmulas.
— Eu também nunca amei ninguém como te amei. Não me casei de novo porque... era você quem eu estava esperando. Sempre foi você.
— Então, Bela... o que me diz? Aceita se casar com este velho doente?
Ela riu entre soluços, chorando de felicidade.
— Sim. Sim, aceito me casar com você, meu velho doente. Vamos nos casar agora mesmo, se possível.
— Agora mesmo... mas acho que pode esperar mais um pouquinho. Primeiro, deixe eu lhe dar um beijo.
Ela inclinou a cabeça, oferecendo os lábios. Os olhos verdes brilharam, banhados em lágrimas e numa esperança que parecia ter renascido.
— Esperei décadas por este beijo, meu amor. Posso esperar mais alguns minutos.
Ele se aproximou devagar, com esforço, e a beijou com toda a intensidade que guardou a vida inteira — como se estivesse relembrando, com cada toque, o quanto a amava.
O beijo era doce e salgado, salgado pelas lágrimas. Ela correspondeu com toda a paixão acumulada ao longo dos anos, as mãos apertando a camisa dele como se temesse que ele desaparecesse de novo.
Depois de um tempo que pareceu não ter fim, ela se afastou o suficiente para falar, com a voz ainda embargada:
— Nossa... eu sabia. Eu sempre soube que você beijava como o homem mais apaixonado do mundo.
— Então vamos providenciar o nosso casamento. Vamos nos mudar para a minha chácara. Lá é tranquilo, suave... perfeito para a gente aproveitar cada momento que a vida nos deixou para trás.
Ela sorriu de um jeito largo e feliz, e a ideia pareceu iluminar todo o seu rosto já cansado.
— Uma chácara? Adoro. Sem pressa, sem barulho da cidade. Só nós, o céu e a natureza.
Casaram-se numa cerimônia simples, bem ao pé daquela árvore. Sim, aquela mesma árvore que os viu se conhecer crianças e que, silenciosa, testemunhou tudo o que viveram. Apenas alguns amigos íntimos estavam presentes. Ela usava um vestido branco, leve e bonito. Ele, um terno um pouco desgastado pelo tempo, mas impecável — digno de quem finalmente encontrou a sua felicidade.
Os anos passaram. A história deles passou a ser contada como uma lenda: o casal que esperou a vida inteira e, quando já estavam velhos, finalmente se encontrou e se casou. Quando partiram, suas cinzas foram espalhadas ao pé daquela árvore — o lugar onde se viram pela primeira vez, onde cresceram juntos, onde se casaram e onde permanecem, unidos para sempre.
"Sempre nós."