Aluno que não pode ser corrigido pode transformar-se em um adulto que não aceita ser contrariado
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
Vivemos um período em que a palavra “correção" parece, em alguns contextos, ter adquirido uma conotação negativa. Corrigir uma criança ou um adolescente passou, algumas vezes, a ser confundido com humilhar, perseguir, constranger ou punir. Evidentemente, nenhuma dessas práticas deve ser aceita no ambiente escolar. Entretanto, é igualmente perigoso cair no extremo oposto: acreditar que o estudante não pode ser contrariado, advertido ou responsabilizado por suas atitudes.
Educar também significa corrigir.
A correção pedagógica, quando realizada com respeito, equilíbrio, diálogo e finalidade educativa, não é uma forma de violência. É uma ferramenta para ajudar o estudante a compreender limites, reconhecer consequências, respeitar o outro e desenvolver responsabilidade.
A escola não existe apenas para transmitir conteúdos. Ela também prepara o indivíduo para viver em sociedade. E a sociedade, gostemos ou não, é constituída de regras, limites, responsabilidades, direitos, deveres, diferenças de opinião, frustrações e consequências.
Por isso, a pergunta precisa ser feita:
O que pode acontecer quando uma criança cresce acreditando que ninguém pode contrariá-la?
Corrigir não é humilhar
É necessário estabelecer, desde o início, uma diferença fundamental.
Corrigir não é humilhar.
Humilhar é atacar a dignidade do estudante, expô-lo ao ridículo, utilizar palavras ofensivas, ameaçá-lo ou constrangê-lo publicamente.
Corrigir é mostrar que determinado comportamento não é adequado, explicar o motivo, estabelecer limites e ajudar o estudante a compreender como pode agir de maneira diferente.
Uma escola verdadeiramente educativa não precisa escolher entre autoridade e respeito.
Pode ter os dois.
Paulo Freire escreveu:
“Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos.”
Respeitar o estudante, entretanto, não significa aceitar qualquer comportamento.
O aluno merece respeito.
O professor também.
O estudante possui direitos.
O professor também.
A criança precisa ser ouvida.
Mas também precisa aprender a ouvir.
Quando o “não” desaparece da educação
Uma das primeiras palavras que uma criança precisa aprender é “não”.
Não porque os adultos devam ser autoritários, mas porque o “não” faz parte da vida.
Não podemos ter tudo.
Não podemos fazer tudo.
Não podemos falar o tempo inteiro.
Não podemos desrespeitar as pessoas.
Não podemos chegar sempre atrasados.
Não podemos quebrar regras sem consequências.
Não podemos exigir privilégios que não são concedidos aos demais.
Aprender a lidar com essas limitações faz parte do desenvolvimento.
Quando a criança ouve “não” em um ambiente seguro, aprende progressivamente que frustração não significa falta de amor.
Esse aprendizado é essencial.
Porque o mundo adulto também dirá muitos “nãos”.
A escola precisa ensinar consequências
Imagine um estudante que desrespeita repetidamente as regras de convivência e, sempre que recebe uma consequência pedagógica, alguém aparece para impedir que ela seja aplicada.
O que essa criança pode aprender?
Pode aprender que regras são negociáveis.
Pode aprender que sempre haverá alguém para defendê-la das consequências.
Pode aprender que a autoridade pode ser desafiada sem maiores implicações.
Pode aprender que assumir responsabilidades é tarefa dos outros.
E isso representa um problema educativo.
A escola não deve punir por vingança.
Deve educar por meio de limites e consequências coerentes.
Uma consequência educativa não deve buscar fazer o estudante sofrer. Deve ajudá-lo a compreender a relação entre comportamento e responsabilidade.
O papel da família
A família exerce papel decisivo nesse processo.
Quando o filho chega em casa dizendo:
“O professor me corrigiu.”
A primeira reação de alguns responsáveis pode ser:
“Vou à escola saber o que esse professor fez com você!”
Antes de tomar qualquer atitude, talvez seja necessário fazer outra pergunta:
“O que aconteceu? O que você fez? O que o professor explicou?”
Essa pequena mudança pode representar uma grande diferença.
Defender o filho é uma responsabilidade dos pais.
Mas defender o filho de qualquer consequência, inclusive quando ele está errado, pode prejudicar sua formação.
A família precisa ensinar que autoridade também merece respeito.
Isso não significa acreditar cegamente em tudo que a escola diz. Significa investigar antes de julgar, ouvir os diferentes lados e trabalhar conjuntamente pela formação da criança.
Quando o aluno não aceita nenhuma correção
Uma criança que não consegue aceitar qualquer correção pode apresentar dificuldades em situações futuras.
No trabalho, receberá avaliações.
Na universidade, receberá críticas.
Na vida profissional, terá supervisores.
Na convivência social, ouvirá opiniões diferentes.
Nos relacionamentos, será contrariada.
Na vida adulta, terá que lidar com erros, perdas, rejeições e consequências.
Se nunca aprendeu a ouvir um “não”, poderá interpretar qualquer discordância como uma agressão pessoal.
Se nunca aprendeu a reconhecer erros, poderá transferir constantemente a responsabilidade para os outros.
Se nunca aprendeu a lidar com frustrações, poderá reagir de maneira desproporcional diante de pequenas contrariedades.
A educação precisa preparar para a realidade, e não para uma realidade imaginária na qual todos concordam conosco.
A frustração também educa
É importante não confundir frustração educativa com sofrimento deliberadamente provocado.
Nenhum adulto deve humilhar uma criança para “ensiná-la a ser forte”.
Mas também não devemos retirar dela toda oportunidade de experimentar pequenas frustrações.
Perder um jogo.
Esperar sua vez.
Refazer uma atividade.
Receber uma nota abaixo da esperada.
Ouvir uma crítica construtiva.
Aceitar uma regra.
Não ser escolhido para determinada função.
Ter que pedir desculpas.
Tudo isso pode fazer parte de experiências educativas.
A psicóloga Carol Dweck, ao discutir a chamada mentalidade de crescimento, destaca a importância de compreender o erro como parte do processo de aprendizagem.
A ideia pode ser resumida na seguinte perspectiva:
“O fracasso não é uma condição permanente; é uma informação sobre aquilo que precisa ser aprendido.”
Quando ensinamos uma criança a enfrentar erros, estamos oferecendo ferramentas para a vida.
Autoridade não é autoritarismo
Esse talvez seja o ponto central do debate.
Algumas pessoas acreditam que, para recuperar a autoridade do professor, seria necessário voltar a práticas extremamente rígidas.
Não.
Autoridade não significa autoritarismo.
Autoritarismo é imposição sem diálogo, sem respeito e sem espaço para participação.
Autoridade pedagógica é diferente.
Ela se constrói pelo conhecimento, pela coerência, pela responsabilidade, pelo exemplo e pela capacidade de estabelecer limites.
Um professor pode dizer:
“Não vou permitir que você desrespeite seu colega.”
Isso não é autoritarismo.
Pode dizer:
“Você precisa refazer a atividade porque não cumpriu o que foi solicitado.”
Isso não é humilhação.
Pode dizer:
“Vamos conversar sobre o que aconteceu e pensar em uma forma de reparar o erro.”
Isso é educação.
O professor não pode ter medo de corrigir
Quando o professor começa a ter medo de corrigir o aluno por receio de reclamações, ameaças, exposição em redes sociais ou conflitos com famílias, ocorre uma inversão perigosa.
A autoridade pedagógica começa a ser enfraquecida.
E quem perde não é apenas o professor.
A turma inteira perde.
Imagine uma sala em que um aluno interrompe constantemente a aula e ninguém pode intervir.
Outro agride verbalmente os colegas.
Outro utiliza o celular durante toda a explicação.
Outro se recusa a realizar atividades.
Se nenhuma intervenção for possível, qual será a mensagem transmitida aos demais?
Que a regra não vale para todos.
E uma escola que ensina que as regras não precisam ser cumpridas terá dificuldade para ensinar cidadania.
O direito à aprendizagem também precisa ser protegido
Existe uma questão que frequentemente fica esquecida:
o direito de um estudante não pode destruir o direito dos demais.
Se um aluno interrompe continuamente a aula, prejudica dezenas de colegas.
Se um estudante pratica bullying, afeta a saúde emocional de outro.
Se alguém agride um professor, compromete o ambiente de aprendizagem.
Portanto, estabelecer limites também significa proteger o coletivo.
A escola precisa equilibrar direitos individuais e direitos coletivos.
Corrigir é ensinar responsabilidade
A correção pedagógica deve conduzir o estudante a três perguntas:
O que eu fiz?
Quem foi afetado pelo que fiz?
O que posso fazer para reparar ou melhorar?
Essas perguntas são muito mais educativas do que simplesmente:
“Quem está errado?”
A criança precisa aprender que suas ações produzem consequências.
Se machucou alguém, precisa aprender a reparar.
Se desrespeitou, precisa aprender a pedir desculpas.
Se descumpriu uma regra, precisa compreender por que a regra existe.
Se errou uma atividade, precisa ter oportunidade de corrigir.
Esse processo constrói responsabilidade.
O perigo de transformar todo limite em “trauma”
Existe atualmente uma preocupação legítima com a saúde emocional das crianças. Entretanto, é necessário cuidado para que qualquer frustração não seja automaticamente classificada como trauma.
Uma criança ser contrariada não significa necessariamente que sofreu violência.
Receber uma regra não significa ser oprimida.
Ser corrigida com respeito não significa ser humilhada.
Ouvir “não” não significa ser rejeitada.
Nem toda frustração é trauma; algumas frustrações são experiências necessárias de desenvolvimento.
O problema está na forma como o limite é estabelecido.
Limite acompanhado de respeito educa.
Humilhação destrói.
A criança precisa aprender a discordar sem desrespeitar
Outro objetivo importante da educação é ensinar que discordar faz parte da convivência democrática.
O aluno pode discordar do professor.
Pode questionar uma regra.
Pode apresentar argumentos.
Pode pedir esclarecimentos.
Pode defender sua opinião.
Mas precisa aprender a fazer isso respeitosamente.
Da mesma maneira, o professor também pode reconhecer quando o aluno possui razão.
Autoridade não significa nunca admitir erros.
Pelo contrário: um professor que reconhece seu próprio erro ensina uma das mais importantes lições sobre responsabilidade.
O adulto que não aceita ser contrariado
A educação infantil e escolar não determina mecanicamente quem uma pessoa será na vida adulta. Seria simplista afirmar que toda criança que não aceita correção necessariamente se tornará um adulto intolerante.
Entretanto, há comportamentos e padrões educativos que podem favorecer ou dificultar o desenvolvimento da tolerância à frustração, da responsabilidade e da capacidade de lidar com críticas.
Um adulto que não consegue ouvir uma opinião diferente.
Que interpreta qualquer crítica como ataque.
Que nunca admite erros.
Que culpa os outros por tudo.
Que acredita que suas vontades devem prevalecer.
Que reage agressivamente quando contrariado.
Pode estar demonstrando dificuldades que precisam ser compreendidas e trabalhadas.
A educação não deve produzir esse tipo de adulto.
Deve preparar pessoas capazes de conviver com diferenças.
Educar para a vida
A escola não pode preparar o estudante apenas para responder questões de uma prova.
Precisa prepará-lo para a vida.
E a vida exige:
responsabilidade, disciplina, empatia, resiliência, autocontrole, capacidade de ouvir, respeito às regras, capacidade de argumentar e disposição para reconhecer erros.
Paulo Freire afirma:
“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem.”
E talvez seja justamente necessária coragem para corrigir.
Coragem para dizer “não”.
Coragem para estabelecer limites.
Coragem para não transformar toda reclamação em perseguição.
Coragem para conversar com a família.
Coragem para defender o direito coletivo à aprendizagem.
Coragem para reconhecer quando o estudante está certo.
E coragem também para reconhecer quando ele precisa ser orientado.
Conclusão
Aluno não precisa de uma escola que o humilhe. Mas também não precisa de uma escola que tenha medo de corrigi-lo.
Precisa de uma escola que o respeite o suficiente para dizer a verdade.
Precisa de professores que saibam estabelecer limites sem violência.
Precisa de famílias que protejam sem encobrir erros.
Precisa de adultos que ensinem que liberdade vem acompanhada de responsabilidade.
A criança precisa saber que será amada mesmo quando errar.
Mas também precisa saber que ser amada não significa estar sempre certa.
Precisa aprender que pedir desculpas não diminui ninguém.
Que receber uma crítica pode ajudar a crescer.
Que perder faz parte da vida.
Que ouvir “não” não significa deixar de ser amado.
Que regras existem para organizar a convivência.
Que direitos vêm acompanhados de deveres.
E que ninguém tem o direito de transformar sua vontade pessoal em obrigação para todos os outros.
Como escreveu Paulo Freire:
“Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte.”
Essa construção também passa pela capacidade de enfrentar limites, corrigir erros e aprender com as próprias experiências.
Portanto, corrigir um aluno não é destruir sua autoestima; quando feito com respeito, pode justamente ajudá-lo a construir uma autoestima mais madura, baseada na capacidade de reconhecer erros, superar dificuldades e melhorar.
A verdadeira educação não cria pessoas que nunca são contrariadas.
Cria pessoas capazes de serem contrariadas sem perder o respeito, a razão, o equilíbrio e a humanidade.
E talvez esse seja um dos maiores presentes que escola e família podem oferecer às novas gerações: não uma vida sem “nãos”, mas a capacidade de ouvir um “não” e continuar crescendo.
Referências bibliográficas
DWECK, Carol S. Mindset: a nova psicologia do sucesso.São Paulo: Objetiva, 2017.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.
WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes.