Amanheceu.
Antes mesmo de abrir completamente os olhos, ele já estava ali. Foi o primeiro pensamento do dia.
Ela imaginou que, naquela hora, ele provavelmente já estivesse no trabalho. Talvez sentado diante de uma mesa, distraído entre uma tarefa e outra, tomando seu café como fazia todas as manhãs. Ela o imaginou por alguns segundos, tão nitidamente que pareceu estar perto.
E veio seu primeiro sorriso do dia.
Depois, começou a rotina.
Ela levantou, arrumou a casa, organizou as coisas e saiu para a calçada. Uma brisa atravessou seu corpo e fez sua pele se arrepiar.
Ela parou.
Aquele arrepio trouxe outro arrepio.
Lembrou-se de um beijo no pescoço. Um beijo que já havia acontecido há tanto tempo, mas que o corpo parecia não ter esquecido. Por um instante, a memória foi mais presente que o próprio vento.
Ela sorriu novamente.
Era curioso como ele conseguia aparecer sem ser chamado.
Na hora do almoço, enquanto preparava sua comida, outra pergunta surgiu:
— Será que ele já comeu?
Ela imaginou o que ele estaria fazendo naquele momento e lembrou que ele gostava de se aventurar na cozinha. Talvez estivesse preparando alguma coisa, inventando uma receita, misturando ingredientes sem saber muito bem onde aquilo terminaria.
Ela sorriu mais uma vez.
Seu dia parecia cheio de pequenas visitas dele.
Chegou a tarde.
Era hora da soneca.
Ela se deitou e pensou nele novamente. Sabia que ele ansiava por aquele momento quase todos os dias. A soneca era uma espécie de pequeno refúgio, uma pausa no mundo.
Exceto quando ele sacrificava aquele descanso para ir encontrá-la.
Essa lembrança fez o coração dela aquecer.
Porque havia algo bonito em saber que, entre tantas coisas que ele poderia escolher, algumas vezes ele escolhia estar com ela.
O fim da tarde chegou.
Era a hora de puxar assunto.
Ela pegou o celular, pensou em uma mensagem e sorriu antes mesmo de enviá-la. Não queria apenas conversar.
Queria provocar.
Queria despertar nele aquela vontade de vê-la. Queria fazer com que, entre uma mensagem e outra, ele começasse a imaginar um encontro.
Ela conhecia aquele jogo delicado: uma palavra aqui, uma provocação ali, uma lembrança escondida no meio da conversa.
Talvez ele entendesse.
Talvez fingisse não entender.
Mas ela queria fazê-lo ir ao encontro dela.
E então chegou a noite.
O assunto continuou.
A conversa já não precisava de motivo. Era apenas um intervalo suspenso no tempo, feito de alegria, saudade e nostalgia. Falavam do presente, esbarravam no passado e, vez ou outra, deixavam escapar alguma esperança de futuro.
Ela gostava daquele horário.
Gostava da sensação de que, apesar de toda a distância entre suas vidas, naquele momento os dois estavam no mesmo lugar: uma conversa.
Até que chegou a hora de dormir.
— Boa noite.
Um beijo.
E a conversa acabou.
Ela colocou o celular de lado, fechou os olhos e deixou o silêncio ocupar o quarto.
Mas ele continuou ali.
No pensamento.
Na lembrança do beijo.
No sorriso da manhã.
Na pergunta sobre o almoço.
Na soneca que ele às vezes sacrificava.
Nas mensagens do fim da tarde.
Na conversa da noite.
Ela dormiu pensando nele, como quem encerra o dia sem realmente se despedir.
Ele era o primeiro e o último pensamento do dia.
F.G🖤💚