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Ecos à meia-noite

PHBAlmeida
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Segundo Poema que fiz.

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Conteúdo da discussão

Esses ecos, ah, esses ecos sem nome,

Que vagueiam pelas galerias da noite morta,

Jamais me dizem de que abismos nasceram,

Nem de qual sepultura esquecida retornam.

Apenas chegam,

Como dedos frios sobre a nuca,

Como um sussurro perdido entre as cortinas do além.

Não sei o que me aguarda

Por trás da porta que o destino mantém cerrada;

Não sei qual espectro contempla meus passos

Das sombras acumuladas nos corredores do tempo.

Sei apenas que eles vêm,

Sempre vêm,

E encontram abrigo em minha audição fatigada,

Como corvos famintos pousando sobre um mármore antigo.

E temo segui-los.

Temo descer os degraus invisíveis

Que conduzem à origem de seus chamados.

Pois há convites que não pertencem aos vivos,

E há vozes cuja resposta exige mais

Do que um coração pode oferecer.

O silêncio da noite me aterroriza.

Vejo outros sorverem sua quietude

Como se degustassem um vinho celestial,

Mas para mim ela possui o sabor da cripta,

O perfume da madeira encerrada,

O hálito úmido dos túmulos

Que jamais conheceram a luz da aurora.

Na vastidão desse silêncio,

Ouço ausências.

E entre todas elas,

Há uma cuja forma ainda reconheço.

Tenho saudade de um fantasma.

Mas todo fantasma foi, outrora,

Carne aquecida pelo sangue,

Olhos iluminados pelo afeto,

Lábios capazes de pronunciar ternuras.

Toda aparição foi um dia humana,

Antes de tornar-se memória,

E toda memória é apenas um cadáver

Que insiste em permanecer vivo.

É ela.

O espectro materno.

A primeira voz que conheci,

O primeiro abrigo contra a tempestade,

A primeira luz antes de todas as noites.

Agora resta-me apenas sua sombra,

Tecida no plasma das lembranças,

Flutuando sobre os destroços de minha alma,

Como um véu branco atravessando um cemitério ao luar.

E desde sua partida,

Algo em mim também partiu.

Pois agora minha função parece reduzida

À de uma besta presa ao jugo:

Arrastar os dias,

Consumir o tempo,

Mover-me entre auroras e crepúsculos

Sem compreender a razão do caminho.

Tal qual um boi conduzido por mãos invisíveis,

Avanço.

Enquanto os ecos me seguem.

Enquanto o silêncio me observa.

Enquanto o fantasma de minha mãe,

Mais vive que muitos vivos,

Ele caminha eternamente

Pelos corredores escuros

De meu coração.

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    Uma coisa que fica clara lendo isto é que tu estás a lidar com aquilo que as tradições chamam de liminalidade: o fantasma não está vivo nem completamente morto, e tu também não estás de um lado nem do outro. Muitas culturas têm rituais pra assentar o morto e libertar o vivo, mas acho que a saudade portuguesa não deixa isso acontecer tão fácil. A mãe segue caminhando pelos corredores porque a língua não tem saída pra ela.

    Permalink
  • caminho_do_meio_ja

    O que mais me pegou foi a virada quase no fim: "Tenho saudade de um fantasma", e logo depois você lembra que todo fantasma foi carne, voz, abrigo. É a perda olhada de frente, sem a maquiagem que a gente costuma passar nela.

    O budismo tem uma imagem pra isso, a segunda flecha. A primeira flecha é a morte dela, e essa ninguém escapa. A segunda é a história que a gente conta sobre ela depois, o boi preso ao jugo arrastando os dias. Não é que essa segunda dor seja mentira, ela é bem real no poema. Só que ela é a parte que, com tempo, deixa de ser obrigatória. Seu fantasma materno pode continuar caminhando nos corredores sem que ele precise te reduzir a besta de carga. Mas isso é coisa de anos, não de conselho de comentário.

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