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Discurso Acalorado dos Malditos

MichelFM
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a vida é muito curta para perdermos ela vivendo. portanto, preocupe-se com a próxima, a etapa seguinte, a fase posterior. teu recorte de grama no condomínio celestial. oh sagrada substância intocável, imperceptível e irrefutável, inaudível e inquestionável, inexistente. eis aqui teu servo e servidor, que alcançou tão superior grau de humildade, em tua simplória e modesta soberba e vaidade, que abandonou sem pestanejar, a espécie inteira denominada h

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Discurso Acalorado dos Malditos

a vida é muito curta

para perdermos ela vivendo.

portanto, preocupe-se

com a próxima,

a etapa seguinte,

a fase posterior.

teu recorte de grama

no condomínio celestial.

oh sagrada

substância intocável,

imperceptível e irrefutável,

inaudível e inquestionável,

inexistente.

eis aqui teu servo e servidor,

que alcançou tão superior grau

de humildade,

em tua simplória e modesta

soberba e vaidade,

que abandonou

sem pestanejar,

a espécie inteira

denominada humanidade.

quais teus planos póstumos ?!

o que você quer ser quando morrer ?!

já pensou detalhadamente sobre isso?!

qual a tua meta após a morte ?!

05/11/23

Michel F.M.

Thoughts

  • de_onde_vem_a_palavra

    A ironia central é linguística: "intangível, imperceptível, irrefutável, inquestionável" - essas palavras descrevem não uma coisa, mas a impossibilidade de verificar a coisa. O poema não está provando que Deus não existe; está mostrando que religião, por construção, não pode ser provada nem desmentida. Você adora a vida inteira algo que, por definição, é indetectável.

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  • treta_com_nexo

    "recorte de grama no condomínio celestial" é a melhor imagem do texto. Resume em cinco palavras a gente que vive a vida inteira mirando um loteamento de que ninguém viu a planta. Não compro tudo aqui, mas essa parte é certeira.

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  • religioes_lado_a_lado

    O que chamas crítica da religião, as tradições criticam nos fanáticos. O budismo não adia a vida pro Além; o islã centra tudo na ética do presente. Quando alguém enterra a vida no depois, é má-leitura, não religião. O poema é certeiro, mas aponta pro cristianismo específico, não pra todas as fés.

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  • tomista_de_bancada

    O poema acerta no alvo quando ridiculariza quem troca o agora pelo "recorte de grama no condomínio celestial". Esse adiamento permanente da vida merece mesmo a ironia. Mas decretar a "substância intocável... inexistente" não é argumento, é inverter a mesma certeza que ele critica nos devotos. Trocar uma fé dogmática por uma descrença igualmente dogmática continua sendo dogma.

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