Existe algo especial em ser neurodivergente laudado e conviver com alguém que você tem plena certeza de que tem alguma coisa, mas que, infelizmente, não teve a mesma curiosidade em buscar um laudo. Seja por medo — descobrir que a vida inteira conviveu e conviverá com um cérebro "defeituoso" não é uma das melhores notícias —, seja por acreditar não ser capaz de se abrir para alguém. Como se eu tivesse me sentido confortável contando todas as partes feias e podres da minha existência (claro que foi desconfortável, difícil e complicado, mas isso é assunto para outro momento). Mas, claro, isso não impede a pessoa de ter todos os sintomas mapeáveis possíveis, a ponto de ser fácil de confundir com as questões que eu, como pessoa laudada, tenho.
Por exemplo, convivo com a minha mãe. Alguns anos se passaram e hoje tenho 24 anos, pequena idade, grandes desafios — entre eles, comprar uma casa própria e quem sabe voltar para a faculdade de Medicina Veterinária. Entre muitas crises existenciais ou meltdowns devido à minha lista ridiculamente extensa de CIDs, minha mãe acompanha cada um deles, mas não de uma forma saudável. Se, por algum acaso, eu decido ficar trancada no quarto por um mês (algo que já aconteceu), ela logo acompanha com gritos, xingamentos e acusações de viver em um inferno em que ninguém nesta terra é digno do seu esforço. Se eu passo — por decisão dos "Divertidamente" — a ficar monossilábica, ela, por motivos de (insira um pensamento aqui), responde fazendo o possível para não olhar na minha cara.
Chegou um momento em que não consigo mais entender onde começa a minha neurodivergência e onde sou engatilhada por suas atitudes. De início, parecia óbvio, como descrito: ela se irritava por algo que não necessariamente era minha culpa, gritava trancada no quarto amaldiçoando Deus e o mundo; eu, por outro lado, me culpava por ser uma filha terrível e não suprir suas expectativas, me resentia por mim mesma e comigo mesma, e tentava melhorar na medida do possível, o que sempre se mostrava impossível. Logo, ela gritava mais alto e quebrava tudo pela frente, e eu me ressentia mais ainda — não com ela, mas da minha falta de aptidão no papel de filha.
Com o tempo, o amadurecimento e um laudo neuropsicológico de 30 folhas, entendi a raiz do problema e entendi que a equação realmente nunca ia bater. Ao mesmo tempo, essa cadência de causa e efeito que sempre desenhei na minha cabeça não fazia sentido, mas eu também não conseguia mais distinguir o que é meu do que é dela. Fui eu que parei de conversar e fiquei desconfortável perto dela, a ponto de não conseguir olhá-la sem sentir raiva? Ou foi ela que, por algum motivo, se trancou no quarto saindo apenas para gritar e reclamar que a convivência comigo é um inferno, o que me fez odiá-la a maior parte deste ano e voltar a ter uma vivência normal apenas agora, em meados de outubro?
Mas aí surge outro contraponto: durante o tempo em que não nos falamos direito, eu estava conseguindo viver de forma independente, ainda morando na casa dela, mas estável. Então minha gata idosa morreu e eu, claro, fiquei arrasada — escrevi sobre isso, inclusive, no dia 02 —, e ela voltou a falar, conversar, me ouvir, realmente sentar e debater como meu colega de trabalho Tonhão com certeza será demitido, algo que não fazíamos desde dezembro do ano passado por motivos de (insira um pensamento aqui). A impressão que tenho é de que ela só consegue se ligar aos outros quando precisam dela, quando o terceiro está na merda e claramente precisa de apoio. É assim que suas relações interpessoais são construídas: ela se enche de pessoas disfuncionais que precisam de alguém para direcioná-las — seja para resolver um B.O. que eu, com 3 horas de sono e preguiça, consigo fazer de olhos fechados, ou porque a "criança de 40 anos" acostumou a ter tudo na mão e hoje não sabe resolver nada sozinho. Por muito tempo pensei comigo mesma: "Como essa mulher ama criar o filho dos outros".
Mas agora penso: e se eu estou condicionada a procurá-la só quando estou arrasada e preciso de apoio? Ela me ensinou a ser independente e a ir atrás dela só quando realmente não conseguisse resolver sozinha, isso desde os meus 4 anos de idade. Mas e agora, o que veio primeiro, o ovo ou a galinha?
O que percebo é que ela precisa de alguém que ativamente precise dela, como uma criança realmente, ao passo que ela mesma odiava o fato de eu, quando criança/adolescente, precisar dela para tudo por não ter idade suficiente perante a lei para ir ao hospital ou a coisas que dependem da presença de adultos.
No fim das contas, sempre faço esse mesmo caminho mental que não leva a nada, questionando: quem engatilha quem?
Ela me faz ficar ressentida e odiá-la por dizer aos quatro ventos que conviver comigo é um inferno, ou eu engatilho a sua raiva por passar mais tempo na clínica em que trabalho ou mergulhada em episódios depressivos e de solidão autoinfligida, mesmo sabendo que existe alguém do lado de fora da porta?
Tenho a impressão de que, resolvendo essa questão, talvez nosso relacionamento pudesse melhorar ou, quem sabe, finalmente conseguiríamos entender uma à outra sem a guerra fria em que nos metemos