Onze internados, um crítico e o responsável sem dar sinal de vida. Aquilo foi escala montada contando que você ia segurar o plantão. Aposto que ninguém anotou em lugar nenhum que segurou.
Dia 06 - A mediocridade espera da porta pra fora
Depois de um plantão razoavelmente traumático e de uma sequência absurda de eventos canônicos, decidi mudar de vida. Amo a enfermagem veterinária e tudo o que a compõe. Infelizmente, perante a lei,…
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Onze internados, um crítico e o responsável sem dar sinal de vida. Aquilo foi escala montada contando que você ia segurar o plantão. Aposto que ninguém anotou em lugar nenhum que segurou.
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Depois de um plantão razoavelmente traumático e de uma sequência absurda de eventos canônicos, decidi mudar de vida. Amo a enfermagem veterinária e tudo o que a compõe. Infelizmente, perante a lei, é uma profissão que não existe, mas isso não impede que seja uma profissão que carrega um crescimento exponencial, apesar do sucateamento e da falta de direitos. Por muito tempo imaginei e declarei a todos que me perguntavam em qual semestre da faculdade de medicina veterinária eu estava que nunca mais pisaria na faculdade e que o topo da minha carreira seria ser enfermeira-chefe de uma grande franquia.
Mas então chegou o dia 19/09 e me arrancou dos meus sonhos tal como o Billie Joe com o início de outubro. Foi um plantão caótico sem motivo. Tínhamos 11 animais internados, entre eles 1 crítico que precisava de acompanhamento ativo; no entanto, os outros 10 precisavam também ser acompanhados e medicados. É uma questão de fácil resolução: como dentro da veterinária não existe uma divisão clara entre o que é trabalho do auxiliar/enfermeiro e o que é trabalho do veterinário, meu coleguinha formado (veterinário júnior) cuidaria do paciente crítico, enquanto nós correríamos com os demais para termos tempo hábil para dedicar ao paciente grave.
Mas não foi isso o que aconteceu. Fiquei presa com o paciente grave, enquanto minha dupla (também enfermeira, mas que precisava de direcionamento) ficou com os outros 10. Pronto, o inferno estava instaurado. Não só não consegui direcioná-la, como não pude sair de perto do paciente grave e ainda tinha que sair das minhas atribuições (que já eram muitas) para direcionar meu colega formado — que, portanto, deveria me direcionar e direcionar minha colega enfermeira —, enquanto o veterinário responsável pelo plantão não dava nem sinal de vida. Sabendo — porque ele foi avisado assim que esse paciente se mostrou mais grave do que esperávamos no início do plantão — que estávamos afogados e que um par de mãos seria essencial, ou seja, o veterinário responsável TAMBÉM PRECISAVA DE DIRECIONAMENTO E ESPERAVA QUE EU DIRECIONASSE A EQUIPE INTEIRA — de 4 pessoas, duas delas que deveriam ser a cabeça da equipe e não os dedos mindinhos deformados de uma bailarina medíocre —, SENDO QUE DIRECIONAR E SUPERVISIONAR É TRABALHO DELE.
Não é raro isso acontecer. Já existiram outros momentos em que presenciavei situações nas quais fui a pessoa mais capacitada para tocar o plantão, mesmo sem ter 1/3 do conhecimento da pessoa que deveria me direcionar. Isso não é um autoelogio, e sim uma constatação, uma vez que a equipe clínica de outros lugares onde trabalhei me dizia que sabia que os animais estavam sendo bem cuidados por ser o meu plantão. Por muito tempo esse reconhecimento foi o suficiente: eu seguiria sendo a subordinada estrela e recebendo um salário adequado para a minha posição, enquanto direcionaria quem fosse para a entrega do plantão para a equipe posterior ser sem pendências.
Mas não sei se com a idade, o cansaço ou a morte da minha gata idosa, trouxe-me uma raiva que me queima o peito, coisa que não sinto há muito tempo e que nunca é sinal de coisa boa. Depois de esbravejar, decidi que nunca mais iria aceitar a mediocridade e a inaptidão dos outros, só a minha própria. Eu vou me tornar a veterinária que os outros estão me empurrando para ser. Não quero mais ser uma veterinária sem diploma. Fazer parte de uma profissão que não existe no Brasil quer dizer que, se eu quiser fazer uma faculdade de enfermagem veterinária, tenho que ir para Portugal? Cara, essa é uma das medidas passíveis, mas mesmo que eu saia do país, estude e volte — até porque prefiro 100% o meu país falho a sofrer discriminação, racismo e qualquer outra coisa evitável numa pátria estranha (e de quem inclusive tenho um ranço absurdo. OBS: FAZER O FAVOR DE DEVOLVER NOSSO OURO) —, acabaria na mesma situação: capacitada demais para uma profissão que exige apenas um curso técnico de 6 meses.
Mas, infelizmente, como uma filha da pátria não tão gentil que está louquinha para fugir da luta, simplesmente entrar em uma universidade é impossível. O histórico nós já sabemos: filha de proletariados do chão de fábrica, com nenhuma base estável ou saúde financeira. A saída é estudar para o ENEM, coisa da qual fugi a minha vida inteira por acreditar que não tenho capacidade alguma e que a universidade não é a única saída. Mas o fato é: tive o azar de escolher a única profissão em que, sem um diploma na mão, você não vai muito longe. Não importa o tamanho do reconhecimento, ainda assim não é nada.
Fiz todo o planejamento, fiz pesquisas, fiz o cronograma, separei os cadernos e, desde então, sigo um sono que não cabe dentro das 24 horas do dia. Tenho dormido todos os dias o dia inteiro. Não é só preguiça, tem algo mais... não sei bem o que é. Tudo está pronto — claro, preciso de uma escrivaninha, pois estudar sentada na cama não me parece uma boa ideia —, mas não consigo dar o primeiro passo.
Talvez por medo de fracassar, medo de desistir no meio do caminho e me frustrar sem nem chegar a prestar a prova. No final das contas, meu sistema nervoso se sobrecarregou com as micropossibilidades e tem fugido dos estudos tal qual um macaquinho fugiria de uma onça-pintada na Amazônia — exceto que a Amazônia em questão é a minha vida, o macaquinho sou eu, e a onça é o ENEM e o futuro que ele provavelmente me desbloquearia. Mas pode ser falta de ferro também; às vezes o que preciso é parar de pensar de um jeito tão ridiculamente profundo e marcar um clínico.
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