Sol foi com certeza meu primeiro amor, este não era seu nome, mas seu apelido, Girassol , esse sim, seu nome de batismo, cabia-lhe perfeitamente. Ela amava estar em meio a natureza com a face sempre voltada ao sol como se só correr em meio as plantas e perseguir borboletas não fosse o suficiente, ela precisava sentir a energia dos astros banhando seu interior enquanto mantinha seus olhos azuis céu, porque claro, ela podia achar que era um ser eterio, mas ainda sim o sol, a estrela cósmica no céu neste caso, podia machucar suas iris tão delicadas.
Infelizmente a vida mudou, novos ares, e o quintal com folhas secas de todo tipo e a bananeira que Girassol costumava descansar ficou para trás.
Se passaram alguns anos e parecia que nem ela mesmo se lembrava mais do seu mundo, se adaptou muito bem a dormir nos vasos de planta e tomar sol na janela; as idades foram passando e começamos a perceber o reflexo disso em sua tez, com pelos frisados, jeito ofegante e exames que não escondiam o que os próximos 8 anos nos mostrariam, a vida estava minguado, os rins e a osteoartrose não mentiam, mas ela ao contrário do que pensamos, agarrou a vida obcecadamente sol amava viver e viveria até os 50 tal como um humano ou até mesmo aos 100 anos, seria a primeira gata centenária, pulava e corria como um filhote de meses de vida, cada ano ficando mais jovem a medida que a idade evoluía.
Eu, acompanhei isso acontecendo de perto minha filhote mais amada com dificuldade de reconhecer os cômodos da casa, e se alegrando sempre que a chamava pois sabia que a mimaria a até o final, doces que antes eram proibidos, comidas temperadas que nunca pensou em provar, sachês, um peito de frango inteiro se fosse o caso....
Não me enteda mal, eu sei mais do que ninguém que animais não devem comer comida humana e que certos alimentos são ridiculamente tóxicos, mas como eu, a vendo no fim da vida negaria uma mortadela com requeijão? Jamais!
Sardinha enlatada ao molho de tomate?
Quantas já dividimos no lanche madrugada?
Já perdi a conta.
Mas então ela se foi, depois de 16 anos, o primeiro amor da minha vida foi...
Se foi lutando até o final, resistiu até onde pode, mesmo em um estado que eu mesma como alguém da área, nunca vi até um momento um paciente no estado em que ela estava resistir por tanto tempo, lutou bravamente pelos seus futuros raios de sol e cochilos no vaso de capim santo ( sua erva favorita)... Mas infelizmente o corpo nem sempre acompanha os desejos da alma e depois de dispensar meus colegas de trabalho dizendo " ela não vai mais voltar, podem parar" para que abandonassem o RPC, me despedi pela última vez, no dia seguinte a entreguei para o crematório, mais lágrimas, escolhi sua plaquinha de memória, borboletas azuis com sua foto no dia mais quente tomando sol debaixo de sua bananeira, assim posso cumprir o desejo de sua alma, o que o corpo não conseguiu cumprir...
Viver eternamente, porque enquanto eu respirar vou me lembrar de você