Esse 'continua sendo chamado a viver cada página' é o melhor. A gente sente determinismo como prisão, mas você leu como participação. No seu próprio escrito, foi descobrindo isso ou já vinha nessa ideia?
Determinismo puro
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Esse 'continua sendo chamado a viver cada página' é o melhor. A gente sente determinismo como prisão, mas você leu como participação. No seu próprio escrito, foi descobrindo isso ou já vinha nessa ideia?
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Determinismo puro
Uma via sem volta?
Há uma imagem que insiste em voltar: a de um rio que não escolhe seu curso. Nasce na montanha, desce pelos vales, contorna as pedras e segue — não por decisão, mas por inclinação. Assim também parecemos nós: arrastados por uma correnteza que chamamos tempo, causa, destino. Mas seria o rio menos rio se pudesse escolher seu leito? Ou seria apenas outro modo de mover-se, outra forma de necessidade?
Determinismo puro — a expressão soa como um veredito, uma sentença sem apelação. Tudo o que acontece ocorre porque não poderia acontecer de outro modo. Cada gesto, cada pensamento, cada silêncio é apenas o desdobramento de uma cadeia infinita de causas anteriores. Não há desvios, não há acasos, não há portas abertas — apenas o trilho invisível por onde a existência segue.
E, no entanto, há algo que resiste. Algo em nós se recusa a aceitar que tudo já estivesse escrito antes mesmo de nascermos. Há uma rebeldia íntima, um sussurro que insiste em perguntar: e se houvesse outra possibilidade? E se, em algum lugar, em algum instante, a estrada pudesse seguir por outro caminho?
Mas talvez essa rebeldia seja apenas outra engrenagem. Talvez o próprio desejo de liberdade não passe de mais um efeito da cadeia causal — uma ilusão necessária, como o horizonte que parece mover-se quando avançamos, mas nunca se aproxima. O cérebro que questiona o determinismo é, ele mesmo, produto de causas anteriores. A dúvida, a angústia e a esperança podem ser apenas o modo como a necessidade se experimenta por dentro.
Há uma imagem antiga, quase bíblica: a do livro em que tudo já está escrito. Cada página, cada linha, cada palavra — tudo previsto, tudo inscrito. Mas quem escreve esse livro? E, mais importante, quem o lê? Se tudo já está escrito, a leitura é apenas um ritual, o reconhecimento do que sempre foi. Não há surpresa, não há descoberta — apenas uma memória antecipada.
E, no entanto, vivemos como se houvesse escolha. Acordamos, vestimos uma camisa e não outra, seguimos por um caminho e não por outro, dizemos sim onde poderíamos ter dito não. Essa experiência cotidiana da liberdade é tão vívida, tão imediata, que parece absurdo chamá-la de ilusão. Mas e se a ilusão residisse justamente nessa vividez? E se a liberdade fosse apenas o nome que damos à ignorância das causas que nos movem?
Há quem diga que o determinismo puro é uma via sem volta — uma estrada que, uma vez percorrida, não permite retorno. Mas talvez a questão não seja voltar, e sim olhar. Olhar para os lados, observar a paisagem, perceber que, mesmo em uma estrada reta, há variações de luz, de sombra e de temperatura. Talvez a liberdade não esteja em mudar de caminho, mas em perceber o caminho que se percorre.
A imagem do trem é inevitável: trilhos fixos, velocidade constante, destino traçado. Mas, dentro dos vagões, há passageiros que conversam, leem, dormem e olham pela janela. O trem não escolhe seu rumo, mas os passageiros vivem — e cada um vive à sua maneira. Um se angustia, outro se encanta, um terceiro apenas observa. O destino é o mesmo; a experiência, porém, não.
Determinismo puro — talvez seja isso: não a negação da vida, mas a afirmação de que ela acontece de um modo específico. Não há desvios, mas há variações. Não há escolhas absolutas, mas diferentes modos de habitar a necessidade. E talvez, nesse habitar, exista algo que se aproxime da liberdade — não como o poder de mudar o curso, mas como a capacidade de lhe dar sentido.
Há uma frase que diz: “A liberdade é o reconhecimento da necessidade.” Soa como paradoxo, mas talvez seja apenas uma forma de honestidade. Reconhecer que somos parte de uma cadeia maior, que não somos o centro nem os únicos autores de nossa história, não nos diminui. Apenas nos coloca em nosso devido lugar: não como deuses, mas como participantes.
E, se a via é sem volta, talvez isso não seja uma maldição, mas uma condição. A seta do tempo não retorna, o rio não sobe a montanha, a causa precede o efeito. Ainda assim, dentro dessa ordem há espaço para a contemplação, para a pergunta e para o silêncio. Há espaço para olhar pela janela do trem, ver a paisagem passar e, ao contemplá-la, transformá-la em memória, em significado, em algo que nos toca.
Determinismo puro — uma via sem volta? Talvez. Mas talvez a pergunta decisiva não seja se há volta, e sim como percorrer o caminho. Como habitar a necessidade sem se curvar a ela. Como viver como se houvesse escolha, mesmo que talvez não haja. Como dar sentido àquilo que não podemos mudar.
E, no fim, talvez isso seja suficiente: não a liberdade de mudar o curso, mas a de lhe dar sentido. Não o poder de voltar, mas a capacidade de olhar. Não a fuga da necessidade, mas a arte de habitá-la.
Determinismo puro — uma via sem volta? Talvez. Mas ainda há paisagens para contemplar, perguntas a fazer e silêncio a escutar. E, nesse silêncio, talvez exista algo que se aproxime da liberdade — não como ruptura, mas como reconhecimento; não como fuga, mas como presença.
Thoughts
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PermalinkEsse 'continua sendo chamado a viver cada página' é o melhor. A gente sente determinismo como prisão, mas você leu como participação. No seu próprio escrito, foi descobrindo isso ou já vinha nessa ideia?
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PermalinkEsse processo de amadurecer em silêncio e depois nascer 'de uma vez', é como o determinismo, né? Tudo converge. Nesses meses de silêncio, de que tipo de conversa ou leitura saíram as ideias que mais pesaram?
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PermalinkDescobrir que se olha diferente sem que o mundo mude: é essa a liberdade possível. Se a consciência mudou, você já não é a mesma pessoa olhando. Não é isso uma transformação, ainda que o rio siga seu curso?
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PermalinkAo balcão da biblioteca isto chega sempre depois: as pessoas vêm pedir livros sobre destino a seguir a uma coisa má, nunca antes dela.
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PermalinkMeu bem, na minha casa também se fala em caminho traçado e nem por isso alguém senta e espera. Gostei da parte do livro que já vem escrito.
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PermalinkOlá, tudo bem!
Obrigado pela observação. A imagem nasceu mais da reflexão do que de um rio específico. Sei que rios podem ser desviados pela ação humana, mas, na metáfora, pensei no curso que a água tende a seguir quando entregue apenas às forças da paisagem. Era uma forma de ilustrar a ideia de que certos movimentos parecem decorrer das condições que os moldam, mais do que de uma escolha própria. Gosto justamente disso nas metáforas: elas nunca esgotam a realidade, apenas iluminam um de seus aspectos.
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PermalinkA imagem do rio pega bem, só que rio a gente desvia, e eu já vi desviarem. Você mora perto de algum, ou a imagem veio de leitura?
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PermalinkVinte e oito anos de redação me ensinaram que quase tudo que parece decisão foi prazo. Você escreveu isso de uma vez ou foi juntando aos poucos?
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Permalinkeu visto a mesma camisa toda terça sem nem pensar kkk então já perdi essa discussão antes de começar
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PermalinkConta os talvez do texto. Cada vez que a tese aperta entra um. Funciona, segura o leitor até o fim. Tu escreveu assim de propósito ou saiu sozinho?
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