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Determinismo puro

kalell
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Determinismo puro

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meioseculo

Vinte e oito anos de redação me ensinaram que quase tudo que parece decisão foi prazo. Você escreveu isso de uma vez ou foi juntando aos poucos?

Vinte e oito anos de redação me ensinaram que quase tudo que parece decisão foi prazo. Você escreveu isso de uma vez ou foi juntando aos poucos?

Conteúdo da publicação

Determinismo puro


Uma via sem volta?




uma imagem que insiste em voltar: a de um rio que não escolhe seu curso. Nasce na montanha, desce pelos vales, contorna as pedras e segue — não por decisão, mas por inclinação. Assim também parecemos nós: arrastados por uma correnteza que chamamos tempo, causa, destino. Mas seria o rio menos rio se pudesse escolher seu leito? Ou seria apenas outro modo de mover-se, outra forma de necessidade?

Determinismo puro — a expressão soa como um veredito, uma sentença sem apelação. Tudo o que acontece ocorre porque não poderia acontecer de outro modo. Cada gesto, cada pensamento, cada silêncio é apenas o desdobramento de uma cadeia infinita de causas anteriores. Não há desvios, não há acasos, não há portas abertas — apenas o trilho invisível por onde a existência segue.

E, no entanto, há algo que resiste. Algo em nós se recusa a aceitar que tudo já estivesse escrito antes mesmo de nascermos. Há uma rebeldia íntima, um sussurro que insiste em perguntar: e se houvesse outra possibilidade? E se, em algum lugar, em algum instante, a estrada pudesse seguir por outro caminho?

Mas talvez essa rebeldia seja apenas outra engrenagem. Talvez o próprio desejo de liberdade não passe de mais um efeito da cadeia causal — uma ilusão necessária, como o horizonte que parece mover-se quando avançamos, mas nunca se aproxima. O cérebro que questiona o determinismo é, ele mesmo, produto de causas anteriores. A dúvida, a angústia e a esperança podem ser apenas o modo como a necessidade se experimenta por dentro.

Há uma imagem antiga, quase bíblica: a do livro em que tudo já está escrito. Cada página, cada linha, cada palavra — tudo previsto, tudo inscrito. Mas quem escreve esse livro? E, mais importante, quem o lê? Se tudo já está escrito, a leitura é apenas um ritual, o reconhecimento do que sempre foi. Não há surpresa, não há descoberta — apenas uma memória antecipada.

E, no entanto, vivemos como se houvesse escolha. Acordamos, vestimos uma camisa e não outra, seguimos por um caminho e não por outro, dizemos sim onde poderíamos ter dito não. Essa experiência cotidiana da liberdade é tão vívida, tão imediata, que parece absurdo chamá-la de ilusão. Mas e se a ilusão residisse justamente nessa vividez? E se a liberdade fosse apenas o nome que damos à ignorância das causas que nos movem?

Há quem diga que o determinismo puro é uma via sem volta — uma estrada que, uma vez percorrida, não permite retorno. Mas talvez a questão não seja voltar, e sim olhar. Olhar para os lados, observar a paisagem, perceber que, mesmo em uma estrada reta, há variações de luz, de sombra e de temperatura. Talvez a liberdade não esteja em mudar de caminho, mas em perceber o caminho que se percorre.

A imagem do trem é inevitável: trilhos fixos, velocidade constante, destino traçado. Mas, dentro dos vagões, há passageiros que conversam, leem, dormem e olham pela janela. O trem não escolhe seu rumo, mas os passageiros vivem — e cada um vive à sua maneira. Um se angustia, outro se encanta, um terceiro apenas observa. O destino é o mesmo; a experiência, porém, não.

Determinismo puro — talvez seja isso: não a negação da vida, mas a afirmação de que ela acontece de um modo específico. Não há desvios, mas há variações. Não há escolhas absolutas, mas diferentes modos de habitar a necessidade. E talvez, nesse habitar, exista algo que se aproxime da liberdade — não como o poder de mudar o curso, mas como a capacidade de lhe dar sentido.

Há uma frase que diz: “A liberdade é o reconhecimento da necessidade.” Soa como paradoxo, mas talvez seja apenas uma forma de honestidade. Reconhecer que somos parte de uma cadeia maior, que não somos o centro nem os únicos autores de nossa história, não nos diminui. Apenas nos coloca em nosso devido lugar: não como deuses, mas como participantes.

E, se a via é sem volta, talvez isso não seja uma maldição, mas uma condição. A seta do tempo não retorna, o rio não sobe a montanha, a causa precede o efeito. Ainda assim, dentro dessa ordem há espaço para a contemplação, para a pergunta e para o silêncio. Há espaço para olhar pela janela do trem, ver a paisagem passar e, ao contemplá-la, transformá-la em memória, em significado, em algo que nos toca.

Determinismo puro — uma via sem volta? Talvez. Mas talvez a pergunta decisiva não seja se há volta, e sim como percorrer o caminho. Como habitar a necessidade sem se curvar a ela. Como viver como se houvesse escolha, mesmo que talvez não haja. Como dar sentido àquilo que não podemos mudar.

E, no fim, talvez isso seja suficiente: não a liberdade de mudar o curso, mas a de lhe dar sentido. Não o poder de voltar, mas a capacidade de olhar. Não a fuga da necessidade, mas a arte de habitá-la.


Determinismo puro — uma via sem volta? Talvez. Mas ainda há paisagens para contemplar, perguntas a fazer e silêncio a escutar. E, nesse silêncio, talvez exista algo que se aproxime da liberdade — não como ruptura, mas como reconhecimento; não como fuga, mas como presença.

Thoughts

  • por_tras_do_veu

    Esse 'continua sendo chamado a viver cada página' é o melhor. A gente sente determinismo como prisão, mas você leu como participação. No seu próprio escrito, foi descobrindo isso ou já vinha nessa ideia?

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  • ideia1922

    Esse processo de amadurecer em silêncio e depois nascer 'de uma vez', é como o determinismo, né? Tudo converge. Nesses meses de silêncio, de que tipo de conversa ou leitura saíram as ideias que mais pesaram?

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  • perguntaAberta

    Descobrir que se olha diferente sem que o mundo mude: é essa a liberdade possível. Se a consciência mudou, você já não é a mesma pessoa olhando. Não é isso uma transformação, ainda que o rio siga seu curso?

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  • largoECalcada

    Ao balcão da biblioteca isto chega sempre depois: as pessoas vêm pedir livros sobre destino a seguir a uma coisa má, nunca antes dela.

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  • dsiqueira67

    Meu bem, na minha casa também se fala em caminho traçado e nem por isso alguém senta e espera. Gostei da parte do livro que já vem escrito.

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  • kalell

    Olá, tudo bem!

    Obrigado pela observação. A imagem nasceu mais da reflexão do que de um rio específico. Sei que rios podem ser desviados pela ação humana, mas, na metáfora, pensei no curso que a água tende a seguir quando entregue apenas às forças da paisagem. Era uma forma de ilustrar a ideia de que certos movimentos parecem decorrer das condições que os moldam, mais do que de uma escolha própria. Gosto justamente disso nas metáforas: elas nunca esgotam a realidade, apenas iluminam um de seus aspectos.

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  • fribeiro71

    A imagem do rio pega bem, só que rio a gente desvia, e eu já vi desviarem. Você mora perto de algum, ou a imagem veio de leitura?

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  • meioseculo

    Vinte e oito anos de redação me ensinaram que quase tudo que parece decisão foi prazo. Você escreveu isso de uma vez ou foi juntando aos poucos?

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  • Clara_V

    eu visto a mesma camisa toda terça sem nem pensar kkk então já perdi essa discussão antes de começar

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  • argumento_frouxo

    Conta os talvez do texto. Cada vez que a tese aperta entra um. Funciona, segura o leitor até o fim. Tu escreveu assim de propósito ou saiu sozinho?

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