A manhã chegou devagar,
como quem não queria acordar o mundo
de uma vez.
Primeiro, uma fresta de luz
rasgou o quarto,
depois outra
e, quando percebi,
a noite já não cabia
nas paredes.
Há dias em que a esperança
não chega como tempestade.
Chega pequena,
quase imperceptível,
feito um raio atravessando a cortina
e encontrando o rosto
de quem já tinha esquecido o sol.
Foi assim que você chegou.
Sem prometer eternidades,
sem fazer barulho,
apenas trazendo claridade
para lugares meus
que eu havia deixado no escuro.
E descobri que recomeçar
não é apagar a noite.
É olhar para ela
sem medo de lembrar
que, mesmo depois das horas mais longas,
o céu ainda sabe amanhecer.
Talvez a vida seja isso:
uma sucessão de manhãs
que encontram a gente
quando ainda estamos aprendendo
a abrir os olhos.
E, entre uma sombra e outra,
há sempre alguma luz
procurando por nós.
Hoje eu não peço
que o dia seja eterno.
Só que a sua luz permaneça
tempo suficiente
para eu lembrar
que também sei florescer.
ass: mandrade