Apronto cabeça
bato parede
soco no ar.
Não consigo; lamento !
Forço de novo, acendo luz um cigarro, cigarra não toca, vento carrega ruídos, rosno como bicho — não adianta !
Olho a vidraça embaçada; não posso ver o que passa lá fora; é negro demais; a luz escorre; o som, disperso nas nuvens; a cigarra não canta !
Grilos indignados dormitam ao relento.
Canto um canto, tento esquecer,
procuro sair
emaranhado de ideias loucas
não adianta — lamento !
Bato cabeça, leio cartas, palavras me encantam,
são vozes passadas como lírios do campo.
Tento fugir, de novo sorrir !
Apronto a cabeça, sento na mesa, acendo um cigarro, relembro um papo,
procuro trazer de volta ao presente essa gente ausente que sabe o que sente.
Tento aprender, procuro lembrar lições de viver, mas, sozinho, não dá !
Apronto a cabeça, bato na parede, soco na mesa, olho no vidro, paisagem escondida. É visão de quimera que minha alma procura !
Apronto a cabeça, tudo de novo !
Não dá pra ficar mais tempo assim, preciso sair pras ruas da vida, correr como potro.
Solidão é lixo que minha alma acumulou
nos prantos que canto, no canto do quarto, num quarto de hora em que solidão é febre.
Mas, não adianta — é meu coração que chora !