Um velho muito velho, sentado sob o puxado de taipa e barro, vigiava o forno e eram seus olhos que mantinham a chama acesa. Sua respiração ofegava depois de horas reparando as telhas sobre o forno e colocando barro úmido nas brechas entre os caibros e a chaminé para evitar que a chuva que vinha maculasse a chama.
Conhecia bem a paisagem ao redor, vivia alí há tantos anos que sabia o humor do solo, das formigas e do céu. Daria tempo do barro secar com o calor do forno.
No princípio, os anos de trabalho eram longos, mas, quanto mais dominava a técnica, mais se encurtava o tempo e ficava impossível de contar.
A chuva veio no dia seguinte e o encontrou no mesmo lugar, esperando por ela. Era o sinal. Alimentou o caldeirão que fervia com a água que caía do beiral e não fez questão de esperar, apenas ficou absorto no petricor que exalava o chão recém atingido pela precipitação.
Algo dentro de si disse é hora, e ele se levantou com cuidado, olhou para a bola de vidro que estava no alto de uma estrutura de arames ligada a um duto transparente que parecia sair direto do forno e dava voltas por um aparato de aparelhos transluzentes. Ele viu, encantado como uma criança de interior que vê um avião pela primeira vez, a luz lilás tomar conta daquele ovo transparente e sentiu a mesma luz tomar conta de todo seu ser. E viu as estrelas e o universo, Orion e a nebulosa de Andrômeda, a Via-Láctea, agora tão longe, e o coração do fogo na fornalha. Quando voltou, o mundo estava escuro por fora e laranja por dentro da latada, e com os olhos reavivou o fogo, agora pra se aquecer. Pegou aquela bola de vidro com carinho, agora transmutada numa gema preciosíssima, e a levou para dentro de casa.
Procurou sem muita pressa uma caixinha embaixo de sua cama e a colocou do lado das outras mais antigas. Depois foi dormir.
Amanhã começaria tudo de novo, mas, por ora, precisava descansar.