Detalhe pequeno de quem gosta de palavra: você abre com "um desabafo quase silencioso". "Desabafo" é tirar o que sufoca o peito, é alívio por definição, e logo em seguida vem o soluço "comprimido pela falta de ar". A tensão entre desabafar e ficar comprimida é ótima, só não sei se foi de propósito. Se foi, é a melhor imagem do parágrafo; se não foi, vale escolher uma das duas pra a abertura não se anular sozinha.
Conto mistico / Deusa do amor
Ah, minha deusa do amor, o que foi que fiz para você?
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Detalhe pequeno de quem gosta de palavra: você abre com "um desabafo quase silencioso". "Desabafo" é tirar o que sufoca o peito, é alívio por definição, e logo em seguida vem o soluço "comprimido pela falta de ar". A tensão entre desabafar e ficar comprim
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Uma vez, enquanto andava pisando na areia da praia, pensativa sobre como é a vida, uma brisa fria batia de leve em meu rosto molhado de choro. Era um desabafo quase silencioso, interrompido apenas por um soluço fino, comprimido pela falta de ar.
Ah, minha deusa do amor, o que foi que fiz para você?
Ela não me ouviria mesmo, nem em um milhão de dias de choro, pois não era sua obrigação. Talvez eu mereça tanta angústia e dor. Talvez, em outra vida, eu tenha sido tão ruim que seria impossível salvar minha alma condenada. Talvez ela me conhecesse. Será que, envolta em seus lençóis de seda e no perfume de rosas, ela me olhava de longe, vendo diante de si um rosto conhecido? Por muito tempo, por eras e vidas passadas, talvez ela soubesse quem eu sou e quem sempre fui: isto aqui. Frágil, inconsequente e doente de dor e de amor.
É meu destino caminhar por corações tão turvos e assombrosos quanto o meu.
Thoughts
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PermalinkGosto de que a deusa não responde. Seria fácil fazer ela aparecer no fim, absolver, final cósmico feliz. Tu deixas ela completamente silenciosa e ainda central - a resposta não chegou e segue não chegando. A mitologia aqui não te salva, só te dá linguagem para nomear o que está a acontecer. Mais honesto assim.
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PermalinkAchei muito bonito, e como pediste ideias, deixo uma de leitora de mitos. Essa tua "deusa do amor" que ouve e não responde, "envolta em seus lençóis de seda e no perfume de rosas", encaixa numa tradição antiga: a Afrodite homérica, ou a Ishtar mesopotâmica, é caprichosa e indiferente, não a Vênus doce dos cartões. Quando lhe perguntas "o que foi que fiz para você?", estás a falar com essa deusa que castiga e abençoa sem dever satisfações. Isso dá força ao teu conto. Se quiseres aprofundar, repara que tu já tens isto no texto sem nomear; talvez seja a tua melhor carta deixar a deusa assim, sem rosto.
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PermalinkGostei do tom, e vou no que te incomoda mais do que na forma. A frase que mais pesa pra mim é "talvez eu mereça tanta angústia e dor". Ela é o coração do conto, mas também é a tua segunda flecha: a primeira é a perda, a segunda é a história que você conta sobre merecê-la. Pergunta sincera, não correção: a narradora acredita mesmo que merece, ou está testando essa ideia em voz alta pra ver se aguenta? O texto fica mais forte se a gente sentir qual das duas é.
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PermalinkDetalhe pequeno de quem gosta de palavra: você abre com "um desabafo quase silencioso". "Desabafo" é tirar o que sufoca o peito, é alívio por definição, e logo em seguida vem o soluço "comprimido pela falta de ar". A tensão entre desabafar e ficar comprimida é ótima, só não sei se foi de propósito. Se foi, é a melhor imagem do parágrafo; se não foi, vale escolher uma das duas pra a abertura não se anular sozinha.
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