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Conto: Meu pai

sabrinalu
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Das poucas coisas de que me recordo da infância — a mobília dos anos 90, Lulu, a cadela que quase não andava porque tinha as patas traseiras deficientes, a iluminação pública e os orelhões —, nada disso me marcou tanto quanto algo que, para mim, nunca foi tangível: as ásperas mãos do meu pai.

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RenataAlmeida

Essa imagem das mãos ásperas que nunca batem mas também nunca afagam, ela fica de jeito que dói. Você acha que ele sabia o quanto isso marcava você?

Essa imagem das mãos ásperas que nunca batem mas também nunca afagam, ela fica de jeito que dói. Você acha que ele sabia o quanto isso marcava você?

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Conto: Meu pai

Das poucas coisas de que me recordo da infância — a mobília dos anos 90, Lulu, a cadela que quase não andava porque tinha as patas traseiras deficientes, a iluminação pública e os orelhões —, nada disso me marcou tanto quanto algo que, para mim, nunca foi tangível: as ásperas mãos do meu pai.

Eram nas mãos rugosas de meu pai que eu pensava quando não conseguia dormir, aquelas mãos que sempre me negaram afago, um afeto que eu pedia silenciosamente, sem nem ao menos saber que o pedia. Meu pai era um homem sério. Nunca o vi chorar; acho que nunca chorou. Até duvido que tenha lágrimas.

Nas manhãs dos meus anos de menina, ele saía cedo para trabalhar no comércio. Erguia e desempacotava caixas o dia inteiro, trazendo-as de cima para baixo, com as mãos desgastadas. Porém, a rugosidade era de natureza; eu suspeitava que tivesse vindo da minha avó, mas nunca cheguei a conhecê-la, não de verdade. Ela morreu enquanto eu ainda era bebê. Diversas pessoas morreram enquanto eu sequer tinha consciência de que existia um mundo além do colo da minha mãe (nunca do meu pai). Freddie Mercury agonizava enquanto eu aprendia a andar. Tantas pessoas que foram e vieram, e tudo continua. Esse tipo de pensamento me atormenta.

Algumas vezes, meu pai me buscava na escola, sempre quando chovia, porque o ponto de ônibus era longe de casa. Às vezes, ele me levava para almoçar. Íamos mudos o caminho todo, ouvindo Radiohead. Ele nunca me perguntou se eu gostava; eu nunca soube se ele gostava também, se achava que eu gostava ou se apenas queria disfarçar o silêncio, que se tornava ainda mais ardente conforme nossas respirações oscilavam. Vez ou outra, eu o pegava olhando para as pessoas, para o movimento lá fora quando o carro parava em um semáforo ou em um trecho engarrafado. Encarava tudo com uma profundidade nunca vista, senão naqueles raros momentos. Acho que meu pai queria ser outra pessoa, ou ter outra vida. Quando o sinal abria ou o tráfego melhorava, ele voltava a atenção à estrada; era como se os minutos anteriores nunca tivessem existido de fato.

Meu pai nunca me bateu, nunca senti suas mãos ásperas. Meu pai não falava muito. Não sei no que pensava. Quase sinto como se nunca o tivesse conhecido, como se ele também tivesse morrido quando eu era somente um bebê, como se alguém sempre ocupasse a sua cadeira, mas não fosse meu pai; fosse um homem com mãos cheias de calos, que não ousava reclamar de nada, não argumentava e apenas sobrevivia.

Eu mesma nunca argumentei nada. Não fui a oradora da turma; outra pessoa foi. Nunca reclamei dos atrasos do meu pai para me buscar na escola, que eram constantes. Nunca mudei de escola, nunca senti a necessidade de mudar radicalmente o cabelo, nunca terminei meus namoros, nem mesmo os comecei. Passei a vida inteira dirigindo um carro invisível que tocava Radiohead bem alto; assim, eu nunca escutava meus próprios pensamentos, nunca escutava as notícias vindas do mundo real, as guerras e o desmatamento. Eu seguia uma estrada quase impenetrável, longe de qualquer calor humano, que já era ameaça suficiente para minha pele fria.

A vida é, para mim, algo como as mãos do meu pai: ásperas, rugosas, engrossando a cada vez que tentava chegar perto, rejeitando minhas tentativas de aproximação. Nunca fui nada e tenho sido boa nisso. A vida me encara como meu pai na sua cadeira, quase como um constante aviso, um sussurro que não se cala, mas que se torna usual. A vida nunca me deu nada, mas também nunca me tirou coisa alguma. Como uma mão áspera que nunca te bate, mas também nunca te afaga.

Thoughts

  • soleioanoite

    Que Radiohead alto pra disfarçar o silêncio... isso é tão real. E aquela cena dele olhando os semáforos como se quisesse ter sido outra vida inteira.

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  • RenataAlmeida

    Essa imagem das mãos ásperas que nunca batem mas também nunca afagam, ela fica de jeito que dói. Você acha que ele sabia o quanto isso marcava você?

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