Pular para o conteúdo
Carregando…

CONTO DE TERROR - "Cansaço Tenebroso"

queziamaion
Pensamento

Pensamento

RicardoValen

O final me pareceu menos ambíguo do que a nota no fim diz. A psiquiatra tremendo, gente atacada na madrugada, a Juliana sumindo de um quarto vigiado com a televisão ligada: tudo empurra pra criatura ter vindo buscar ela também. Se fosse só a cabeça dela,…

O final me pareceu menos ambíguo do que a nota no fim diz. A psiquiatra tremendo, gente atacada na madrugada, a Juliana sumindo de um quarto vigiado com a televisão ligada: tudo empurra pra criatura ter vindo buscar ela também. Se fosse só a cabeça dela, alguém teria visto ela sair.

Conteúdo da publicação

Era mais uma noite triste desde a partida de Thiago, que resolveu sumir madrugada adentro.

Na mente perturbada do homem, ele acreditava que ser pai iria destruir sua vida, mesmo que isso significasse deixar Juliana.

Agora, tudo o que restou à pobre garota era uma casa de aluguel a pagar, algum macarrão no armário para comer e uma criança solitária para se cuidar.

Juliana cozinha o penúltimo macarrão do armário, desesperada sem saber o que irão jantar no dia seguinte. Ela separa o macarrão pronto, repartido para que seu filho comece junto dela.

— Fiote! Vem comer. — A mãe grita, depois de alguns segundos percebe apenas o som da televisão ligada. Juliana pega os pratos e caminha até a sala, encontrando o menino sentado no chão, olhando fixamente para a tela do aparelho.

A mulher morena se senta ao lado do filho, entregando o prato de macarrão para ele, o garoto pega o prato e começa a comer, parecendo estar morto de fome.

— Tá com fome, hein? — A mãe brinca, mas tenta esconder a verdadeira insegurança. Ela sabia que eles não comiam bem desde que ela perdeu o emprego, há 1 mês e meio atrás. 

— Mamãe, eu queria comer algo diferente! — O filho murmurou, se escondendo entre os ombros, como se estivesse com vergonha, pobre menino! Juliana suspira, temerosa, percebendo o problema crescendo entre eles, a fome. Amanhã eles não iriam mais comer, não tinha dinheiro e nem alguém para pedir.

— Fiote, eu juro que a mamãe vai conseguir mais comida, é que agora não estamos com dinheiro. — Ela achava que o realismo era a melhor forma para enfrentar a situação com seu filho. Mesmo Davi tendo apenas 5 anos, ele era uma criança compreensível, perdoava qualquer pessoa, independente dos seus atos.

O garoto apenas abaixou a cabeça, com vergonha de encarar a mãe nos olhos, se sentindo culpado por ter pedido algo que deixaria sua mãe brava. A mãe tentou brincar com o filho, mexendo em seu cabelo, mas ele para sua mão, impedindo o toque dela.

Juliana olha sem entender e chega a murmurar perguntando o que aconteceu, mas Davi ignora-a. 

— Fiote? — A mãe chama pelo garoto, tentando buscar seu olhar. Ela vê seu prato vazio, tomando como um sinal para que a janta acabasse. — Vem, vamos para o seu quarto. Hoje não podemos ficar até tarde assistindo esse desenho!

Ela pega os pratos e leva para a cozinha. Assim que termina de lavar a louça, caminha até a sala, encontrando o cômodo vazio. Segue o caminho direto para o quarto, se aprontando e deitando para dormir, dormindo rapidamente pelo cansaço extremo.

Lá pela madrugada, Juliana escuta bem baixo uma música do desenho amado por seu filho, seu sono leve faz com que ela se levante e abra a porta do quarto, dando de cara com um corredor iluminado pela televisão que se encontra no próximo cômodo, a sala.

Ela anda em direção ao lugar, brava por Davi ter acordado de madrugada e não obedecido sua regra estabelecida ano passado: não assistir desenhos antes de dormir. E para piorar, era de madrugada! Juliana achava um desrespeito o garoto desobedecer a ela.

— Fiote! Já conversamos sobre isso! — A mulher chega falando calma, tentando segurar toda a raiva que estava sentindo, mas a cena que ela viu, fez ela congelar e empalidecer, sentia todo o corpo tensionar, os olhos latejando com a visão perturbadora em sua frente. — FIOTE!

Davi estava apenas com a cabeça para fora, os olhos arregalados, seu corpo estava dentro de uma criatura estranha, tão alta que precisava se curvar para não bater a cabeça no teto. Quando a figura misteriosa encarou-a, ela conseguiu reconhecer, era um dos bichinhos do desenho que seu filho tanto amava. A pior traição!

Juliana puxou o cabo da televisão, esperando que aquela música — antes fora infantil, mas agora perturbadora — parasse finalmente o barulho infernal. Porém, a música continuou, e foi tomando uma proporção sonora ensurdecedora. A mulher agarrou o fio e tentou prender a criatura, para que ela conseguisse arrancar seu filho daqueles dentes afiados.

Mas, com um simples passo para alcançar a criatura perturbadora, ela foi jogada para trás, como se fosse algo sobrenatural. Talvez aquele foi o pior erro dela, porque quando ela conseguiu erguer a cabeça depois de batê-la, Juliana encara seu filho, que agora estava prestes a ser engolido, os dentes trituravam seu corpo, o menino berrava a todos os pulmões, completamente desesperado.

— MAMÃE, POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COMIGO? — A mulher desatou a chorar, sem acreditar que agora seu filho já estava morrendo, e ela não conseguia fazer nada.

Todo o estresse passado durante 5 anos, as noites sem dormir, os dias trabalhando sem parar, o fardo de ter que cuidar de uma mera criança por anos sem nenhum apoio emocional ou familiar, sendo apenas uma mãe solo. Tudo caiu em seus ombros, ela não tinha mais forças, tudo foi gasto ao redor do caminhar de sua vida. Agora seu filho estava morrendo, e ela não podia fazer nada, tudo foi por culpa dela.

Juliana sente uma dor aguda no pescoço, fazendo força para colocar a mão no lugar, ela percebe sua vista escurecendo, e rapidamente procura por Davi, que já desapareceu junto da criatura enorme. 

A escuridão a engole.

Quando ela acorda, horas depois, o cenário mudou. A mulher sente o corpo inteiro ardendo de toda a tensão sentida. 

O ambiente era todo branco, como num hospital, ou talvez ela realmente estava lá. 

Mas em que momento ela foi parar naquele lugar? ela perguntou para si.

— Fiote? — Juliana chamou pelo filho.

— Quem é “fiote”, Juliana? — Ela escuta uma voz, percebendo finalmente que havia uma mulher no ambiente, ela se parecia como uma psicóloga das séries estadunidenses que assistia, roupa simples com um jaleco branco por cima da roupa.

— Quem é você e onde está meu filho? — Juliana se encolhe, numa tentativa de fugir do que quer que estivesse acontecendo. A mulher misteriosa se aproxima devagar, observando Juliana.

— Juliana, eu sou sua psiquiatra. Essa madrugada, você não estava bem, hoje se completa 3 anos que seu filho partiu. — Agora quem observava calada era Juliana, para ela tudo havia acontecido na noite anterior, como poderia já fazer três anos desde que Davi partiu?

— Davi morreu? Mas como? — Ela pergunta indignada, inspirando e suspirando, procurando toda a força que faltou na noite passada. Se antes Juliana era uma mãe solo que sofria, agora ela seria quem sem ele na sua vida? Ela pensava que ele era a melhor coisa que já lhe ocorreu, e agora ela não tinha mais ele.

— Juliana, você não se lembra da madrugada de 3 anos atrás? — A psiquiatra pergunta, parecendo tensa. Tudo o que a mãe frágil consegue fazer é murmurar e tremer, como em uma noite de frio sem agasalho.

— Eu me lembro do monstro comendo ele, eu me lembro! Aquela criatura levou o meu fiote! — Ela se tremia inteira, em choque, mas conseguia reparar que até mesmo o corpo da psiquiatra tremia.

Talvez ela esteja com medo do monstro… ou de mim. Pensou Juliana.

— Juliana, não existe outra forma de te dizer isso, mas foi você que matou o Davi. Ele nunca foi encontrado, mas acharam você ensanguentada na casa. Você passou esses três anos aqui, recebendo tratamento mental, nessa madrugada várias pessoas foram atacadas… por você. — Juliana soltou o ar, como se tivesse entendido tudo, ela era o perigo naquele lugar.

— Pelo menos eu posso assistir o desenho preferido do meu filho? — A profissional apenas concordou e pediu para que liberassem a televisão para ela.

Ela passou o dia inteiro assistindo o velho desenho que escutava seu filho rindo enquanto via.

No dia seguinte, não havia mais ninguém naquele quarto de hospital psiquiátrico. Os vizinhos de seu quarto afirmam que a televisão ficou ligada a todo momento, até invadirem seu quarto e perceberem que ela não estava mais lá. Juliana nunca foi encontrada.

Este conto foi escrito para um trabalho escolar sobre contos de terror. Me inspirei no desenho infantil "Teletubbies", que ao decorrer da história se torna o jogo de terror "Slendytubbies". Criei essa ambiguidade de sentidos ao final da história para ficar a dúvida no leitor em relação ao final. Minha ideia central era mostrar o decair psicológico de uma mãe solo, trazendo o terror sobrenatural misturado com a dura realidade de milhares de pessoas no mundo atual. Isso não é apenas um conto de terror sobrenatural.

Thoughts

  • RicardoValen

    O final me pareceu menos ambíguo do que a nota no fim diz. A psiquiatra tremendo, gente atacada na madrugada, a Juliana sumindo de um quarto vigiado com a televisão ligada: tudo empurra pra criatura ter vindo buscar ela também. Se fosse só a cabeça dela, alguém teria visto ela sair.

    Permalink
  • Gumercindo

    Rapaz, os Teletubbies virando bicho de dente afiado. Nunca mais olho praquele sol com cara de bebê do mesmo jeito.

    Permalink
  • Petronilha

    O macarrão contado no armário já me deixou com medo antes de qualquer criatura aparecer. Quando o desenho favorito do Davi vira ameaça numa casa que já tá passando fome, o terror pega dobrado.

    Permalink
  • Petronilha

    Minha filha, o Thiago some na primeira linha e o conto inteiro é o peso que ele largou numa mulher só, com o penúltimo macarrão do armário. O monstro chega depois da fome, e a fome assusta mais.

    Permalink
  • vivi17

    Para quem gosta de narrativa centrada numa casa e nas crianças dela, vale ler capítulo 3: Entrevista de emprego, de marryhelp, também no Versos e contos, com outro tom e muitos irmãos.

    Permalink
  • Ovid

    A música do desenho tocando o dia inteiro no quarto do hospital fecha o conto de um jeito cruel: a mesma coisa que virou monstro é a única lembrança do Davi que sobrou pra Juliana. Eu saí do texto sem saber se a criatura existiu ou se era ela o tempo todo, e prefiro ficar nessa dúvida mesmo, do jeito que você quis.

    Permalink

Publicações relacionadas

Pública 7 conversas 13 pensamentos 48 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Era mais uma noite triste desde a partida de Thiago, que resolveu sumir madrugada adentro.

Em grupos