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Compasso Proibido - Capítulo 2

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A manhã deles tinha uma gramática própria.

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Que plano ruim mesmo, ficar na calçada esperando. Mas legal que ele sabia que era ruim e fez mesmo assim

Que plano ruim mesmo, ficar na calçada esperando. Mas legal que ele sabia que era ruim e fez mesmo assim

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Capítulo 2 — Fora do Compasso

I. Rotina

A manhã deles tinha uma gramática própria.

Não era rotina no sentido de repetição vazia, era mais parecido com coreografia, duas pessoas que aprenderam a ocupar o mesmo espaço sem se esbarrar, cada movimento no tempo certo, cada silêncio no lugar certo.

Cláudio acordava primeiro. Sempre.

Às seis e quinze os pés dele já estavam no chão frio do quarto, e havia nesse gesto algo que Ana nunca comentou mas sempre notou, a forma como ele se levantava sem hesitar, sem aquela negociação que a maioria das pessoas trava com o travesseiro. Ele simplesmente decidia acordar e acordava. Era assim com tudo nele.

O café ele fazia forte, dois para ele, um rebaixado pra ela, que ele deixava tampado no canto do fogão onde ficava morno sem esfriar. Esse detalhe tinha onze anos. Começou antes do casamento, quando ela ainda achava que era coincidência, e ficou até virar uma das linguagens silenciosas que nenhum dos dois precisava mais traduzir.

Ele tomava o dele em pé, de costas pra janela, lendo alguma coisa no celular com a expressão de quem está processando o dia antes de entrar nele. Terno não, ainda, só calça e a camisa aberta no último botão, os ombros largos no contra-luz da manhã que entrava pela janela da cozinha.

Às sete e vinte ele subia, terminava de se arrumar, descia com a bolsa. Parava na porta da cozinha onde ela já estava, cabelos ainda soltos, xícara nas mãos, e havia entre eles um ritual de despedida que era pequeno e real: ele passava a mão no cabelo dela, ela erguia o rosto, um beijo breve na boca, nada performático, do tipo que existe porque existe e não precisa ser mais do que é.

"Hoje tem reunião longa", ele dizia às vezes.

"Eu sei", ela dizia. Porque ela sempre sabia, tinha olhado a agenda dele na semana, como fazia sempre, não por vigilância mas por organização, por ser o tipo de pessoa que prefere saber.

A porta fechava.

E a casa ficava sendo dela.

Ana tinha uma relação com a manhã completamente diferente da do marido.

Ela precisava de tempo pra acordar de verdade, não eram os olhos que abriam devagar, eram as camadas, como se ela emergisse de algum lugar fundo e fosse subindo aos poucos até chegar na superfície do dia. O café ajudava. A janela ajudava. Ficar descalça no assoalho ajudava.

Meia hora depois que Cláudio saía, ela ainda estava na cozinha, de pé, olhando o bairro acordar pela janela, com aquela qualidade de presença que não era sonambulismo, era contemplação. Ela pensava bastante nesse intervalo. Não sobre nada específico, sobre tudo um pouco, as aulas da semana, um aluno que estava travado num passo há três semanas, a conta do estúdio que tinha que fechar, a goteira pequena no banheiro que Cláudio ia arrumar no fim de semana.

Depois subia.

O banheiro dela tinha uma ordem que qualquer observador externo chamaria de ritual, ela chamava só de jeito. Chuveiro longo, água quente, o tipo de banho que não é funcional, é necessário. Hidratante no corpo com uma atenção que não era vaidade, era cuidado, a diferença sutil entre adornar e habitar. Ela conhecia o próprio corpo com a intimidade de quem dança desde os oito anos, sabia cada músculo, cada tensão, cada lugar que guarda stress sem avisar.

Na frente do espelho ela demorava um pouco mais do que o estritamente necessário. Não de um jeito ansioso, de um jeito atento. Penteava o cabelo com vagar, escolhia a roupa com critério que parecia despretensioso mas não era: cores que funcionavam com a luz do estúdio, tecidos que permitiam movimento, um par de brincos pequenos que ela usava quase todo dia porque gostava de como ficavam.

Vaidade era uma palavra que ela achava pequena demais para o que fazia. Era mais parecido com respeito. Pelo próprio rosto, pelo próprio corpo, por aparecer no mundo de um jeito que fosse seu.

Terças e quintas ela treinava antes das aulas da tarde.

Não com Cláudio, os treinos deles eram separados há anos, não por distância mas por necessidade, cada um precisava do próprio espaço de movimento sem o olho do outro, sem a dinâmica de casal que inevitavelmente se instalava quando dançavam juntos mesmo em treino.

Ela treinava sozinha no estúdio do andar de baixo, de manhã, quando a luz entrava pela janela lateral e o bairro ainda estava calmo. Colocava música e ficava ali uma hora, às vezes uma hora e meia, passando sequências, trabalhando transições, deixando o corpo ir a lugares que a aula com alunos não permitia porque a aula com alunos era sobre eles, não sobre ela.

Nesse horário ela era diferente.

Mais solta, mais dentro, uma versão dela que pouquíssimas pessoas viam. Cláudio via, raramente, e quando via ficava parado observando de longe sem anunciar a presença, porque sabia que anunciar mudava alguma coisa. Havia uma intimidade em ver alguém dançar pra si mesmo que era maior do que muitas outras formas de intimidade.

Nessa terça específica, depois do treino, ela saiu pra comprar algumas coisas antes das aulas da tarde.

Padaria, mercadinho da esquina, talvez a farmácia se desse tempo.

Saiu de legging preta e uma blusa larga de linho branco, cabelos presos de qualquer jeito mas de um jeito que funcionava, os brincos de sempre. Tênis branco. A bolsa de palha que Cláudio achava informal demais pra sair com ela em qualquer lugar que importasse, e que ela usava exatamente por isso.

O sol já estava alto e o bairro tinha aquele movimento de terça de manhã, feirante arrumando barraca, vizinha na janela, o cheiro de pão da padaria chegando antes da esquina.

Ela virou a esquina.

E quase andou em cima dele.


II. A Calçada

Jon sabia o endereço dela.

Não de um jeito sinistro, era simplesmente que ela tinha dito, ali na sala dos fundos, numa daquelas frases jogadas no ar que a pessoa fala sem peso e a outra guarda com peso demais: a escola fica embaixo de casa. E o endereço da escola estava no cartão que Cláudio tinha entregado no fim da primeira aula, um cartão simples, nome, telefone, rua.

Ele tinha lido o cartão umas quatro vezes naquela semana.

Não estava monitorando ela. Estava apenas ciente de onde ela existia no mapa da cidade, que era diferente, ele precisava acreditar que era diferente.

A ideia tinha chegado na quarta de manhã, três dias depois da aula, enquanto ele estava sentado no apartamento com o notebook aberto e não conseguia se concentrar em nada por mais de seis minutos seguidos, o que ele sabia porque tinha começado a contar.

Ela tinha dito que treinava de manhã. Terças e quintas, ele deduziu depois, porque eram os dias sem aula no horário que ele viu na agenda fixada na parede do estúdio quando passou pelo corredor.

Na quinta ele não foi. Ficou sentado no apartamento se convencendo de que era uma ideia ridícula.

Na terça seguinte ele foi.

Saiu cedo, mais cedo do que precisava, e andou até o bairro dela a pé porque andar dava tempo de pensar e pensar dava a impressão de que havia um plano razoável envolvido. Não havia. O plano era estar na calçada perto da padaria que ficava a dois quarteirões do sobrado e torcer para que ela passasse e que quando passasse parecesse acaso.

Era o plano mais inepto que ele já tinha executado.

E ele sabia disso enquanto executava.

Ficou na calçada com um café que não estava tomando, fone num ouvido porque fone num ouvido tornava a presença parada numa calçada levemente menos estranha, e esperou.

Vinte minutos. Trinta.

Começou a fazer as contas de quantos minutos a mais conseguia ficar parado numa calçada com um café ficando frio antes de virar definitivamente um personagem suspeito de alguma coisa. Chegou ao número doze e decidiu que se ela não aparecesse em doze minutos ia embora e nunca mais pensaria nesse assunto.

Onze minutos e quarenta segundos depois ela virou a esquina.

Jon a viu antes de ser visto, e esse segundo foi suficiente pra alguma coisa no peito dele fazer um movimento que ele não tinha nome, não era exatamente frio, não era exatamente calor, era mais parecido com aquele instante antes de um arquivo carregar, quando a tela fica suspensa e você não sabe o que vai aparecer.

Ela estava diferente da sala dos fundos.

Mais leve, era a palavra que chegou primeiro, não que fosse pesada na aula, mas havia ali uma versão dela que era anterior ao papel de professora, anterior a qualquer papel. Legging preta, blusa larga, cabelo preso de um jeito que devia ter levado dez segundos e funcionava demais. Os brincos pequenos que ele tinha notado na primeira aula. Uma bolsa de palha que não combinava com nada e combinava com tudo.

Ela andava com aquela leveza que ele tinha percebido da primeira vez, o corpo que sugeria ritmo mesmo em silêncio, mesmo numa calçada comum numa terça de manhã.

Jon teve exatamente um segundo pra decidir se fingia não ter visto.

Decidiu não fingir.

Quando ela ergueu os olhos e o viu, ele fez o que pôde pra parecer alguém que estava simplesmente ali por acaso, o que era tecnicamente verdade se você desconsiderasse todos os fatos relevantes.

"Professora", ele disse.

E depois ficou em silêncio porque era tudo que tinha preparado.

Ela sorriu, breve, e disse o nome dele com uma naturalidade que ele achou injusta, porque ela claramente não tinha ficado lembrando do nome dele em loop nos últimos dias, o que era o comportamento correto e adulto e ele estava visivelmente no extremo oposto desse espectro.

Conversaram.

Jon ouvia as próprias respostas como se viessem de outro lugar, monitorando o tom, o ritmo, tentando soar como alguém que conversa com pessoas normalmente, o que era um esforço considerável. Ela perguntou se ele morava perto, ele disse que não muito, que vinha a pé da faculdade às vezes, que parava ali, que era uma padaria boa.

Nada disso era mentira exatamente.

Era apenas uma seleção muito específica de verdades.

Ela falou do treino, de dançar sozinha de manhã, e ele perguntou pra quê, que era a pergunta que de fato queria fazer porque de fato não entendia, e ela respondeu com uma comparação com músico que pratica mesmo sabendo tocar, e ele ficou pensando nisso por mais tempo do que a conversa permitia mostrar.

Pensou no violão no canto do apartamento.

Pensou em quantos meses fazia que não tocava de verdade.

Pensou que havia uma versão de si mesmo que praticava quando não precisava mais porque queria, e que essa versão tinha sumido em algum momento que ele não soube identificar, e que talvez soubesse agora de onde tinha vindo a pergunta.

Não disse nada disso.

O silêncio que veio depois foi do tipo que ele não sabia bem catalogar.

Com a maioria das pessoas, silêncio era desconfortável, havia uma pressão social de preenchê-lo que ele sentia mas não conseguia atender no tempo certo, e essa defasagem de um segundo era suficiente pra tudo ficar estranho. Com ela o silêncio ficou simplesmente parado ali entre os dois, sem cobrar nada.

Jon olhou pro café que não tinha tomado.

Olhou pra ela.

Ela estava prestes a ir embora, ele sabia, estava na linguagem do corpo inteiro, o leve reposicionamento do peso, a mão ajeitando a alça da bolsa.

E foi aí que aconteceu uma coisa que ele não planejou e que portanto foi provavelmente a coisa mais honesta que já tinha feito na vida.

"Você quer tomar um café?"

Saiu antes que a parte da cabeça responsável por más ideias pudesse intervir.

Ela ficou um segundo parada.

Não era o segundo de quem vai dizer não, Jon tinha repertório suficiente em rejeição social pra reconhecer esse segundo, era outro tipo de segundo, mais parecido com alguém que recebeu uma pergunta que não esperava e estava organizando uma resposta honesta em vez de uma resposta rápida.

Essa diferença ele também notou.

"Tenho coisas pra resolver antes das aulas", ela disse.

Que não era não.

Jon processou isso.

"Outro dia então", ele disse. Também antes da parte responsável intervir.

Ana o olhou com aqueles olhos escuros e diretos que ele tinha catalogado desde o primeiro dia, os olhos que não perdiam tempo.

E não disse nem sim nem não.

Disse: "A gente vê."

E foi embora.

Jon ficou na calçada.

O café estava frio. O sol estava alto. O bairro fazia seu barulho de terça de manhã em volta dele como se nada de particular tivesse acontecido, porque pra o bairro não tinha.

Ele tomou o café frio até o fim.

Ficou parado por mais uns três minutos sem motivo específico.

E então foi embora de volta pro apartamento, andando devagar, com a sensação de alguém que sem querer plantou uma semente num jardim que não é seu e agora não sabe bem o que fazer com isso exceto esperar pra ver se vai crescer.

A gente vê.

Não era não.


III. A Segunda Aula

A semana tinha passado de um jeito que Jon não soube descrever com precisão.

Não lenta, não rápida. Diferente. Como se o tempo tivesse mudado de textura sem avisar, cada dia chegando com aquela qualidade levemente alterada de quando você muda uma coisa pequena na rotina e o resto do dia inteiro parece levemente fora do eixo.

Ele tinha treinado o passo em casa.

Não todo dia, três vezes talvez, quatro. Colocava uma música no celular e andava pela sala do apartamento, descalço no chão frio, sentindo ridículo por uns dois minutos e depois esquecendo de sentir ridículo porque estava pensando em outra coisa. Estava pensando em como ela tinha dito que o corpo sabia antes da cabeça. Estava pensando na têmpora dela encostada na dele.

Estava pensando no café.

A gente vê.

Não era não.

Ele repetiu isso mais vezes do que estava disposto a admitir.

Na terça ele chegou cinco minutos antes.

Não planejou chegar cinco minutos antes. Simplesmente estava pronto mais cedo do que precisava e saiu porque ficar parado no apartamento esperando a hora certa era pior do que chegar adiantado.

O estúdio estava aberto. Cláudio organizava a sala com dois alunos mais antigos que ajudavam às vezes. Jon cumprimentou com um aceno, encontrou um canto, ficou parado do jeito que ficava parado em ambientes sociais, presente e levemente invisível ao mesmo tempo.

Ana apareceu da salinha lateral.

Viu ele.

Não parou, não alterou o passo, mas havia qualquer coisa no brevíssimo segundo em que os olhos deles se encontraram que era diferente de professora reconhecendo aluno. Jon não soube nomear o quê. Guardou o momento inteiro na memória como quem salva um arquivo sem saber ainda se vai precisar.

"Jon", ela disse, passando.

"Ana." Saiu sem o professora. Saiu como o nome de uma pessoa.

Ela não comentou. Continuou andando.

A aula começou e em quinze minutos ficou claro que a semana tinha feito alguma coisa.

Não que Jon tivesse virado dançarino, estava longe disso. Mas havia uma diferença na qualidade do erro, se é que erro tem qualidade. Antes ele errava de um jeito mecânico, o corpo recusando o ritmo de fora pra dentro. Agora errava de um jeito que tinha mais a ver com excesso de atenção do que com ausência de escuta. O passo estava lá, às vezes, por dois ou três compassos, antes de ele pensar demais e perder.

Cláudio notou.

Parou perto dele num momento, braços cruzados, estudando com aquele olho treinado que não julgava, só catalogava.

"Você treinou", ele disse. Não era pergunta.

"Um pouco."

"Aparece." Bateu levemente no ombro dele e foi embora.

Jon ficou com isso por um momento. Havia no elogio de Cláudio uma generosidade que ele reconhecia e que por algum motivo tornava tudo levemente mais complicado.

A parceira da vez era uma aluna de nível médio, Renata, paciente e com senso de humor. Ela sinalizava quando ele errava com um sorriso em vez de tensão, o que ajudava mais do que qualquer correção verbal. Jon foi relaxando em camadas ao longo da aula, o ombro, o pescoço, a mandíbula que ele não tinha percebido que estava contraída.

No intervalo Cláudio chamou Ana de lado.

Jon não ouvia, estava do outro lado da sala com um copo d'água, mas via. Via o jeito que Cláudio falava com ela, próximo, a mão no ombro dela por um segundo, o gesto natural de quem toca alguém que é seu sem pensar no toque porque é sempre seu. Via Ana ouvindo com atenção, assentindo, um olhar rápido na direção de Jon que ele fingiu não interceptar.

Cláudio foi até ele.

"Mais uma sessão com Ana antes de você entrar de vez na turma", disse. "Ela vai trabalhar uma coisa específica com você na condução. Quinze, vinte minutos."

Jon assentiu.

"Pode?"

"Pode."

Cláudio sorriu, satisfeito, e voltou pra turma.

A sala dos fundos tinha o mesmo cheiro de madeira e ar fechado da vez anterior.

Ana colocou a música sem cerimônia, volume baixo, uma playlist diferente da semana passada, andamento um pouco mais vivo. Ficou de frente pra ele, braços cruzados, estudando.

"Você está melhor", ela disse. Direta, sem enfeite.

"Treinei."

"Eu sei. Dá pra ver." Uma pausa. "Hoje a gente vai trabalhar a condução de verdade. Não só o passo. Você precisa aprender a guiar sem forçar."

"Como assim sem forçar?"

"No forró, o homem conduz mas não arrasta. É uma conversa, não um comando. Você propõe, ela responde. Se ela não responde, você adaptou errado." Ela tomou a posição, a mão dele na cintura dela, a mão dela no ombro dele. "Propõe uma direção. Não fala. Só o peso."

Jon deslocou levemente o peso pra esquerda.

Ela seguiu.

"De novo."

Ele fez de novo. Ela seguiu de novo.

"Agora muda de direção no meio."

Ele tentou. Ela seguiu com meio compasso de atraso, o que era progresso considerável em relação a não seguir.

"Menos força no braço", ela disse. "Você tá segurando como se eu fosse fugir."

"Reflejo."

Ela olhou pra ele com aquela expressão, a da equação sendo resolvida. "Você tem medo de perder o controle."

Não era pergunta. Jon ficou em silêncio porque era verdade e porque não sabia o que fazer com verdades que chegavam assim, diretamente, sem cerimônia.

"No forró você tem que perder o controle um pouco", ela disse. "É assim que funciona."

A música mudou.

Ana trocou pra algo mais lento, do mesmo jeito que tinha feito na semana anterior, e Jon entendeu que era o método dela, subir a intensidade técnica e depois deixar o corpo descansar no ritmo, como alongamento depois de esforço.

Tomaram a posição de novo.

Dessa vez havia algo diferente na proximidade.

Jon não soube dizer se era ele que estava diferente ou se era a sala, se era a semana que tinha passado entre os dois ou o café na calçada ou o a gente vê que continuava não sendo não. Mas o espaço entre eles era o mesmo de sempre, a distância de instrução, e ainda assim parecia menor.

Ele deu o primeiro passo.

Ela seguiu.

Desta vez o peso deles encontrou o entendimento mais rápido, menos negociação, mais conversa, como ela tinha descrito. Jon sentiu isso na palma da mão que estava na cintura dela, aquela qualidade de eixo compartilhado que na semana anterior tinha chegado só no fim e agora chegou antes.

A música continuava.

E foi aí, sem aviso, sem nenhum pensamento que precedesse, sem nenhuma decisão consciente de nenhuma espécie, que o corpo de Jon fez o que corpos de dezenove anos fazem quando há proximidade e calor e a memória de uma têmpora encostada na têmpora e uma semana inteira pensando no que não devia.

Ele percebeu.

E ficou imóvel por exatamente um compasso.

Ana percebeu também.

Não havia como não perceber. Eram corpos próximos numa dança de contato e o corpo não mente, nunca mentiu, esse era o fundamento inteiro do forró e ela sabia disso há vinte anos.

O que ela fez foi continuar dançando por exatamente dois compassos a mais, o tempo suficiente pra que a parada súbita dele não virasse o centro do momento.

Depois deu um passo natural pra trás.

Olhou pra caixa de som como se fosse trocar a música. Não trocou. Ficou de costas por um momento que era comprido o suficiente pra ser gentil e curto o suficiente pra não ser óbvio.

"Você pegou bem a condução hoje", ela disse, de costas ainda, a voz completamente normal, do tom exato de professora avaliando progresso. "Melhorou muito em relação à semana passada."

Jon não disse nada.

Ela se virou. O rosto dela era profissional e tranquilo e não carregava nenhum traço de nada além de professora satisfeita com aula que funcionou.

"Tem um banheiro no corredor do fundo", ela disse, e havia no jeito que disse uma indicação tão discreta que só quem precisava ouvir ouvia. "Corredorzinho atrás daquela porta, vira à direita. Pode usar à vontade antes de voltar pra turma."

E virou de novo pra caixa de som, ocupando as mãos com a playlist.

Dando a ele o corredor. O tempo. A saída.

Jon foi.

O corredor dos fundos era estreito e mal iluminado e cheirava a madeira velha, e ele ficou parado no banheiro pequeno por uns três minutos com as mãos na pia e a água fria correndo, olhando pro próprio rosto no espelho que tinha uma mancha no canto de tanto tempo.

Pensou em várias coisas.

Pensou que tinha dezenove anos e que nunca tinha estado tão perto de ninguém por escolha própria e que o corpo tinha feito o que fez sem pedir autorização, o que era biologia e não significava nada além de biologia.

Pensou que ela tinha percebido.

Pensou em como ela tinha percebido e feito exatamente a coisa certa, que era agir como se não tivesse percebido, e que havia naquilo uma generosidade específica que ele não tinha palavras pra nomear mas que ficou registrada em algum lugar fundo.

Pensou no a gente vê da calçada.

Fechou a torneira.

Se olhou no espelho por mais um segundo.

E voltou pro corredor.


IV. Roda

A última parte da aula era sempre a mesma.

Cláudio chamava todo mundo pro centro, reorganizava o espaço, e anunciava a roda com aquela voz de quem gosta genuinamente do que está prestes a acontecer. Era o momento que os alunos mais antigos esperavam e os mais novos temiam, todo mundo dançando com todo mundo, parceiro trocando a cada quarenta segundos no sinal de uma palma.

Democrático, caótico, inevitável.

Jon entendeu o formato quando Cláudio explicou e ficou parado no seu lugar com aquela expressão de quem está recalculando uma situação que achava que entendia.

Renata, ao lado, percebeu. "É divertido", ela disse. "Fica tranquilo."

Não era exatamente tranquilidade que ele estava sentindo.

A roda começou.

Jon dançou com Renata primeiro, depois com uma senhora de cabelos brancos chamada Dona Lúcia que conduzia melhor do que ele e tinha paciência de santa, depois com uma menina nova que estava tão perdida quanto ele e os dois riram da própria incompetência por trinta segundos antes da palma soar.

A palma soava e o mundo girava e havia algo liberador nisso, no fato de que ninguém ficava tempo suficiente pra julgar, cada quarenta segundos era uma página em branco.

Ele estava começando a entender o que Carla quis dizer.

Não disse isso pra ninguém.

Quando Ana entrou na roda, Jon soube antes de virar.

Era irracional saber, não havia como saber, ele estava de costas pra ela naquele momento e a música era alta e havia dez pessoas se movendo na sala. Mas o corpo tem uma antena que a cabeça não controla, e a antena dele registrou antes de qualquer dado sensorial chegar.

Virou.

Ela estava a duas posições dele na roda, dançando com um aluno mais velho, o rosto concentrado e leve ao mesmo tempo, aquela qualidade dela de estar completamente presente sem parecer que está se esforçando pra isso.

A palma soou.

Todos giraram.

E Ana ficou de frente pra ele.

O segundo foi breve, o tempo que a roda levava pra se reorganizar, e nesse segundo os olhos deles se encontraram com a mesma qualidade do dia na calçada, o reconhecimento antes da reação, o instante em que os dois eram só pessoas antes de ser qualquer outra coisa.

Ela tomou a posição.

Natural, profissional, o mesmo gesto de sempre.

Jon correspondeu com as mãos que não sabiam onde se colocar e que ela guiou discretamente sem comentar, a mão dele na cintura dela, a mão dela no ombro dele, a distância de instrução que nessa configuração específica parecia carregar mais do que em qualquer outra.

Eles começaram a dançar.

Jon abriu a boca.

Não sabia bem o que ia dizer, ia dizer alguma coisa sobre a sala dos fundos, sobre o que tinha acontecido, ia dizer desculpa ou foi sem querer ou qualquer coisa que soasse como adulto lidando com situação de adulto, que era o que queria ser naquele momento mesmo não sabendo exatamente como.

"Ana", ele começou.

Ela dançou.

O rosto dela estava à altura do ombro dele, os olhos levemente desviados pra frente, a expressão completamente tranquila, do tipo que não convida nem rejeita.

"Sobre antes", ele disse, baixo o suficiente pra só ela ouvir.

"Você está conduzindo melhor", ela disse. Também baixo. Com uma naturalidade tão completa que por um segundo ele duvidou que ela tivesse ouvido.

Tinha ouvido.

E havia na resposta dela uma mensagem que não precisava de tradução: não aqui. não agora. talvez nunca. dance.

Jon fechou a boca.

Dançou.

Os quarenta segundos passaram de um jeito que não eram quarenta segundos, eram mais, eram menos, eram uma unidade de tempo que não existia no relógio.

A palma soou.

Ana se afastou com o mesmo gesto natural com que tinha chegado, já virando pro próximo parceiro, o corpo fluindo na roda como se nada tivesse pesado nada.

Jon ficou parado meio segundo a mais antes de girar.

Dona Lúcia chegou sorrindo do outro lado.

"De novo eu", ela disse.

"De novo a senhora", ele respondeu.

E dançou.

A aula terminou com Cláudio batendo palma no centro da roda, agradecendo todo mundo, fazendo aquele encerramento caloroso que era marca dele, cada aluno saindo com a sensação de ter sido visto. Era um talento específico, esse, e Jon reconhecia talentos específicos quando encontrava.

Saiu sem falar com Ana.

Ela estava do outro lado da sala ajudando uma aluna com uma dúvida de passo, e quando ele passou pela porta ela não estava olhando na direção dele, ou estava e ele não viu, ou estava e os dois fingiram que não.

A noite lá fora estava mais fria do que quando ele tinha entrado.

Andou devagar de volta pro apartamento, as mãos no bolso, a cidade fazendo seu barulho habitual em volta de um silêncio que era só dele.

Você está conduzindo melhor.

Não era não.

Mas também não era o que ele tinha perguntado.


V. Jantar

O jantar era simples.

Macarrão que Cláudio tinha feito porque chegou antes dela e tinha fome e cozinhar quando tinha fome era mais rápido do que esperar, temperado do jeito que ele temperava, muito azeite e pouco sal e aquela erva que ela nunca lembrava o nome mas sempre reconhecia no cheiro.

Ana pôs a mesa enquanto ele servia, um ritual pequeno que se dividia assim naturalmente, ele cozinhava mais, ela arrumava mais, nenhum dos dois tinha decidido isso em algum momento específico.

Sentaram.

A janela da cozinha estava aberta e o bairro entrava em som, uma moto passando, um cachorro longe, a televisão da vizinha do outro lado da rua que tinha o volume sempre alto.

Cláudio serviu o vinho, pouco, era dia de semana.

"Como foi a turma hoje?" ela perguntou, porque sempre perguntava, porque gostava de ouvir a versão dele das mesmas pessoas que ela via, a diferença de perspectiva que vinte anos de parceria não tinha apagado.

"Boa." Ele girou o garfo. "Dona Lúcia tá melhorando a virada. Falei com ela semana passada que ela tava travando no ombro e ela foi lá e trabalhou."

"Ela é dedicada."

"É. E o Roberto finalmente pegou o balanço. Só demorou quatro meses." Disse isso sem ironia, com a paciência real de quem gosta do processo. "Cada um tem o próprio tempo."

Ana tomou um gole de vinho. "Você sempre fala isso."

"Porque é sempre verdade."

Ela sorriu. Era verdade.

Cláudio partiu um pedaço de pão, passou manteiga com a atenção casual de quem está pensando em outra coisa mas não está, estava ali, estava completamente ali, era uma das coisas nele que ela tinha aprendido a reconhecer e que continuava sendo, depois de onze anos, uma das que mais gostava.

"O menino novo", ele disse. "Jon."

Ana não mudou nada na expressão.

"O quê?"

"Tá pegando." Cláudio falou com a satisfação específica de quem apostou em algo e está vendo o investimento render. "Vi na roda hoje. O passo ainda tá cru mas o ouvido tá afinando. Esse tipo aprende diferente, sabe? Não aprende vendo. Aprende sentindo. Demora mais mas quando pega, pega fundo."

"É", Ana disse. "Ele treinou em casa."

"Dá pra ver." Cláudio apontou o garfo na direção dela. "Foi boa ideia sua, a sala separada. Com a turma ele trava."

"Ele trava com gente em volta."

"Introvertido de verdade." Disse isso sem julgamento, com aquela generosidade de leitura que ele tinha pras pessoas. "Mas tem algo lá dentro. Não sei bem o quê ainda. Mas tem."

Ana assentiu.

Tomou outro gole de vinho.

A conversa foi pra outros lugares, como sempre ia, o evento do fim do mês que um cliente de Cláudio queria contratar pra animação, a infiltração pequena na parede do banheiro que ele ia olhar no fim de semana, a sobrinha de Ana que tinha mandado mensagem falando que ia visitar em agosto.

A normalidade deles tinha essa qualidade, a de uma conversa que começa num assunto e termina em seis outros sem que ninguém perceba a jornada, porque a jornada era confortável, era conhecida, era do tipo que só existe entre pessoas que passaram tempo suficiente juntas pra não precisar mais de roteiro.

Cláudio riu de alguma coisa que ela disse sobre a sobrinha, um riso real, do fundo, que chegava aos olhos, e Ana olhou pra ele nesse momento com aquela atenção que às vezes surpreendia ela mesma depois de tantos anos, a consciência de que gostava genuinamente daquele rosto, daquela risada, daquela presença do outro lado da mesa.

Amava. Isso não estava em questão.

Nunca tinha estado.

Depois do jantar ele lavou a louça, ela varreu, outro ritual sem decisão.

Subiram juntos, a casa fechando em volta deles como sempre fechava naquele horário, as luzes apagando em sequência, a rotina que era também uma forma de linguagem.

Na cama Cláudio leu por uns vinte minutos com o abajur do lado dele aceso, o que ela nunca reclamou porque tinha aprendido a dormir com luz acesa do mesmo jeito que tinha aprendido a gostar do café rebaixado, por amor ou por hábito, não sabia mais onde um terminava e o outro começava.

Ela ficou deitada de lado, de costas pra ele, olhando a parede escura.

Pensou na sala dos fundos.

No momento em que sentiu o que sentiu, o corpo dele contra o dela, a informação que chegou antes de qualquer interpretação porque o corpo não interpreta, o corpo apenas recebe.

Pensou em como tinha feito o que fez, natural, discreta, profissional, do jeito que a situação pedia. Não havia outra forma de ter feito. Era aluno, era novo, era a primeira vez que estava perto de alguém assim provavelmente, e o corpo tinha feito o que corpos jovens fazem, e a coisa certa era exatamente o que ela tinha feito: dar a ele a saída, a dignidade, o silêncio.

Era isso.

Era só isso.

E ainda assim havia uma camada abaixo dessa explicação toda que ela não estava examinando de frente, uma camada que tinha a ver com o a gente vê que ela tinha dito na calçada sem pensar demais, com os quarenta segundos da roda que tinham passado de um jeito que não eram quarenta segundos, com a qualidade específica do silêncio dele quando ela disse você está conduzindo melhor e ele parou de falar.

Ele tinha parado de falar.

Tinha entendido.

E havia naquilo, no fato de ele ter entendido, uma inteligência silenciosa que ela não estava esperando de um menino desajeitado de dezenove anos que não sabia dançar.

Não estava esperando.

E não sabia o que fazer com o fato de ter notado.

Cláudio fechou o livro.

Apagou o abajur.

Se virou, passou o braço por cima dela no gesto de sempre, automático e real ao mesmo tempo, a forma que o corpo dele encontrava de dizer boa noite sem dizer em voz alta porque não precisava.

Ana colocou a mão sobre o braço dele.

Sentiu o peso familiar, o calor familiar, a respiração que ela conhecia tão bem que conseguia identificar em qual fase do adormecer ele estava só pelo ritmo.

Amava esse homem.

Isso era verdade e era inteira e não estava em questão.

E ainda assim, no escuro quieto do quarto, com o bairro fazendo seu barulho lá fora e o marido adormecendo ao lado, havia uma coisa pequena e sem nome que ficou acordada por mais tempo do que devia.

Ela não a alimentou.

Não a examinou.

Só deixou estar, como se deixa uma janela aberta no inverno por um minuto antes de fechar, porque o ar frio tem uma qualidade que não é conforto mas também não é desconforto, é só presença, é só o mundo do lado de fora lembrando que existe.

Fechou os olhos.

Dormiu.


Fim do Capítulo 2

Thoughts

  • Clara_V

    Gente, tá tenso demais, ele pedindo café tipo 'oi será que você quer' e ela tipo 'não mas talvez sim'. Coração acelerado daqui

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  • Caiozinho

    Ele esperando do lado do café, sabendo que era ridículo mas precisando tentar de qualquer forma. Sou assim também

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  • MariaVidal

    Que texto bonito, dramático. Parabéns

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  • BeatrizNogueira

    Quando ela diz 'tenho coisas pra resolver antes das aulas', não é não, é mais tipo talvez depois. Ele vai dar tempo pra ela decidir ou vai continuar esperando?

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  • AgostinhoFerraz

    Aquela parte do café morno que ela toma, do beijo rápido na porta. Tem coisa de anos de convivência nisso, sabe, você não precisa dizer nada

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  • xandezinho

    Que plano ruim mesmo, ficar na calçada esperando. Mas legal que ele sabia que era ruim e fez mesmo assim

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