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Cartas para o meu Pai.

AllyneMaia
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Pai,

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Pensamento

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academiadobairro

As duas pedindo doce pela janela do bar, e ele largando a conversa pra atender as filhas, ficou na minha cabeça o dia inteiro, visse.

As duas pedindo doce pela janela do bar, e ele largando a conversa pra atender as filhas, ficou na minha cabeça o dia inteiro, visse.

Conteúdo da publicação

Pai,

É até difícil escrever novamente para o senhor.

Ontem fizemos uma atividade em grupo. Era sobre escrever para alguém que nunca mais veríamos e colocar naquela carta tudo aquilo que ainda gostaríamos de dizer.

Acho que ontem eu esgotei meu estoque de lágrimas.

E hoje...

Olha só eu aqui, escrevendo para o senhor outra vez.

Talvez porque algumas pessoas partam da nossa vida, mas nunca deixem de fazer parte dela.

Talvez porque existam palavras que não cabem em uma única carta.

Ou talvez porque, quando alguém que amamos vai embora cedo demais, passamos o resto da vida tentando conversar com as lembranças.

E eu tenho poucas lembranças suas.

Mas as que tenho...

Ah, pai.

Essas eu guardo.

Guardo com cuidado.

Volto nelas de vez em quando, como quem abre uma caixa antiga procurando alguma coisa que ainda tenha o seu cheiro.

Porque quando se tem poucas memórias de alguém, cada uma delas se torna preciosa.

Eu me lembro de quando éramos crianças e morávamos no sítio.

Um dia, fomos nos mudar para a cidade.

O senhor foi na frente para preparar a casa, ajeitar as coisas, organizar tudo para quando chegássemos.

E eu, pequena demais para entender que algumas coisas precisam acontecer antes de outras, disse que iria com o senhor.

Lembro do senhor me abraçando e dizendo para eu tomar banho.

E, quando saí do banho...

O senhor tinha ido embora.

Eu ainda consigo imaginar aquela criança pegando sua pequena maleta do Palmeiras, colocando algumas peças de roupa dentro, juntando as poucas moedinhas que tinha e pensando:

"Eu vou atrás do meu pai."

Hoje eu olho para aquela lembrança e penso em como eu era pequena.

Eu não entendia de mudança.

Não entendia de responsabilidades.

Não entendia que adultos precisam preparar caminhos antes de levar os filhos por eles.

Eu só sabia que meu pai tinha ido embora...

E eu queria ir atrás dele.

Talvez porque, para uma criança, o lugar onde o pai está pareça sempre ser o lugar onde ela deveria estar também.

Depois nós fomos para a cidade.

E o senhor começou a trabalhar fora.

E, aos poucos, a minha infância começou a aprender o que era sentir falta.

Eu não me lembro de ver o senhor e a mãe brigando.

Mas também não me lembro de ver muito amor entre vocês.

Não havia grandes demonstrações de carinho.

A única lembrança que tenho de vocês demonstrando afeto é uma fotografia de família.

Uma fotografia que, para outras pessoas, talvez seja apenas uma fotografia.

Para mim, é quase uma prova.

Uma prova de que houve um momento em que nós quatro estivemos ali.

Juntos.

Uma família.

Também me lembro de uma noite.

O senhor chegou em casa bêbado e disse alguma coisa para a mãe que a machucou.

Ela ficou magoada.

Não queria falar com o senhor.

E, em algum momento, pediu que eu fosse pedir dinheiro para comprar o meu leite Ninho, porque tinha acabado.

Eu fui.

Depois voltei do mercado com minha prima.

E vocês estavam conversando.

Tinham feito as pazes.

E eu me lembro daquele momento porque foi a primeira — e única — vez que vi vocês dando um selinho.

Pode parecer uma lembrança pequena.

Mas, quando temos tão poucas, até as pequenas ganham tamanho dentro da gente.

Também me lembro de algumas vezes em que o senhor ia me buscar na escola.

E lembro de você no bar que ficava nos fundos de casa.

Eu e a Fabi subíamos na janela para chamar:

"Pai!"

"Pai, dá um doce!"

E o senhor dizia que precisava voltar porque suas meninas estavam chamando.

Essa lembrança ainda me faz sorrir.

Porque naquela época eu não conhecia os erros do homem.

Eu conhecia o meu pai.

E, para uma criança, isso bastava.

Eu conhecia o homem que tinha duas meninas chamando na janela.

O homem que precisava voltar porque suas meninas queriam alguma coisa.

O homem que, naquele pequeno universo infantil, pertencia a nós.

Mas depois eu cresci.

E comecei a conhecer histórias.

Histórias que me fizeram enxergar o senhor de uma maneira diferente.

Descobri coisas que uma criança não deveria precisar compreender tão cedo.

Soube da traição.

Soube da sua maneira bruta.

Ouvi as pessoas falarem sobre o homem respeitado que o senhor era.

E, durante muito tempo, eu não conseguia juntar essas duas imagens.

O homem que eu conhecia...

E o homem que os outros contavam que você tinha sido.

Como podiam ser a mesma pessoa?

Como podia ser o homem que chamava a si mesmo de pai das duas meninas que estavam na janela...

E, ao mesmo tempo, o homem que tinha ferido a nossa família?

Durante muito tempo eu não soube responder.

Talvez ainda não saiba.

Porque pessoas são muito mais complexas do que as lembranças que guardamos delas.

E talvez eu tenha passado muito tempo tentando escolher entre amar o meu pai ou me revoltar contra o homem que ele também foi.

Mas hoje entendo uma coisa:

Eu não preciso apagar as coisas ruins para reconhecer as boas.

E também não preciso negar as feridas para admitir que senti amor.

Eu posso reconhecer seus erros.

Posso reconhecer a dor que eles causaram.

Posso reconhecer tudo aquilo que eu gostaria que tivesse sido diferente.

E ainda assim...

Posso sentir saudade.

Porque eu não sinto falta apenas do homem que o senhor foi.

Eu sinto falta do pai que eu gostaria de ter tido por mais tempo.

E essa talvez seja uma das dores mais difíceis de explicar.

Porque pai não deveria ser apenas uma lembrança.

Pai deveria ser presença.

Deveria estar nas pequenas coisas.

Nas perguntas depois da escola.

Nos conselhos.

Nos abraços.

Nas broncas.

Nas comemorações.

Nas fases difíceis.

Naqueles momentos em que uma filha olha para o pai e pensa:

"Ele está aqui."

E eu queria ter tido mais disso.

Queria ter mais histórias.

Mais fotografias.

Mais domingos.

Mais conversas.

Mais abraços.

Mais oportunidades de dizer:

"Pai, olha o que eu consegui."

"Pai, estou com medo."

"Pai, eu preciso de você."

E talvez essa seja a parte que mais dói.

Porque houve momentos em que eu realmente precisei do senhor.

Quando eu sofri aquela tentativa de abuso, eu queria meu pai.

Não queria o homem respeitado.

Não queria ouvir histórias sobre você.

Eu queria apenas meu pai.

Queria aquele homem que, para uma menina, deveria significar proteção.

Queria alguém que segurasse minha mão e dissesse:

"Eu estou aqui."

Queria sentir que, acontecesse o que acontecesse, meu pai estaria entre mim e aquilo que pudesse me machucar.

Mas o senhor não estava.

E por muito tempo eu carreguei essa ausência.

Carreguei perguntas.

Carreguei raiva.

Carreguei coisas que talvez uma criança nunca deveria ter precisado carregar.

E por muito tempo...

Eu não consegui perdoar o senhor.

Talvez porque eu achasse que perdoar significaria dizer que nada daquilo tinha doído.

Mas hoje eu entendo que não.

Perdoar não muda o passado.

Não transforma os erros em acertos.

Não apaga as ausências.

Não muda o que aconteceu.

Perdoar significa que eu não quero mais passar o resto da minha vida presa ao que não posso mudar.

Por isso, pai...

Hoje eu quero dizer:

Eu te perdoo.

Não porque tudo foi perfeito.

Não porque não existiram feridas.

Não porque eu esqueci.

Mas porque eu também não quero que a dor seja a única coisa que permaneça entre nós.

Eu quero lembrar de você.

Quero lembrar daquele homem que minhas irmãs chamavam pela janela.

Quero lembrar do pai que dizia que precisava voltar porque suas meninas estavam chamando.

Quero lembrar das vezes em que o senhor foi me buscar na escola.

Quero lembrar daquela fotografia.

Quero lembrar daquele abraço antes de você ir para a cidade.

E, principalmente, quero guardar a última imagem que tenho do senhor.

Aquela estrada.

O seu olhar.

O senhor indo trabalhar.

Eu não sabia que seria a última vez.

Se eu soubesse...

Eu teria corrido.

Teria abraçado o senhor mais forte.

Teria dito que te amava.

Teria ficado alguns segundos a mais.

Talvez tivesse dito tudo aquilo que hoje estou tentando colocar em uma carta.

Mas eu era criança.

E crianças não sabem quando estão vivendo um último momento.

Elas simplesmente vivem.

E talvez essa seja uma das coisas que mais gostaria de dizer para quem ainda tem o pai presente:

Não espere a última vez para abraçar.

Não espere uma despedida para dizer "eu te amo".

Não espere uma fotografia antiga para perceber o valor de uma presença.

Porque filhos não precisam de pais perfeitos.

Precisam de pais presentes.

Precisam sentir que existe alguém para quem podem correr.

Alguém que vai ouvir.

Alguém que vai abraçar.

Alguém que vai estar ali quando o mundo parecer grande demais.

E talvez um pai nem perceba o tamanho que ocupa na vida de uma filha.

Talvez pense que trabalhar, pagar contas e colocar comida na mesa seja tudo.

Mas, para uma filha, às vezes, o que fica não é o que o pai comprou.

É o abraço.

É a conversa.

É a presença na arquibancada.

É o "como foi seu dia?"

É o "eu tenho orgulho de você".

É o "pode deixar que eu estou aqui".

São essas pequenas coisas que constroem dentro de uma criança a sensação de que ela tem um lugar seguro no mundo.

Eu gostaria de ter tido mais dessas coisas.

Mas hoje não quero terminar essa carta falando apenas daquilo que faltou.

Quero falar também daquilo que ficou.

Ficou amor.

Ficaram lembranças.

Ficou saudade.

Ficou uma fotografia.

Ficou uma menina com uma maletinha do Palmeiras acreditando que poderia alcançar o pai.

Ficaram duas meninas chamando pela janela.

Ficou uma filha que, mesmo depois de tantos anos, ainda escreve cartas para o pai.

E talvez isso diga muito sobre o tamanho do amor que existiu.

Pai...

Eu ainda sinto sua falta.

Em alguns dias, mais do que em outros.

Às vezes sinto falta do homem que você foi.

Às vezes sinto falta do pai que eu queria que você tivesse conseguido ser.

E às vezes simplesmente sinto falta de você.

Sem explicações.

Sem perguntas.

Sem tentar entender o passado.

Só saudade.

Hoje eu não posso voltar naquela estrada.

Não posso correr atrás do carro.

Não posso pegar aquela menina pela mão e dizer que ela deveria ter dado aquele último abraço.

Mas posso fazer uma coisa por ela.

Posso dizer que aquela menina amava o pai.

E que ela não precisa mais carregar culpa por não ter sabido que era a última vez.

Ela era apenas uma criança.

E crianças não precisam saber dizer adeus.

Elas precisam acreditar que seus pais voltarão.

E eu acredito que, de alguma forma, mesmo depois de tantos anos, aquele amor ainda encontrou um jeito de permanecer.

Por isso, pai...

Onde quer que o senhor esteja, espero que saiba:

Eu te amo.

Eu te perdoo.

E você ainda faz falta.

Não porque foi perfeito.

Mas porque foi meu pai.

E algumas ausências ocupam um espaço que ninguém consegue preencher.

Hoje eu entendo que talvez a maior herança que um pai possa deixar para um filho não seja dinheiro, bens ou qualquer coisa que possa ser colocada em uma caixa.

É a certeza de que, enquanto esteve aqui, ele esteve presente.

E, se existe algo que eu gostaria que todo pai entendesse antes que seja tarde demais, é isto:

Um filho pode esquecer o que você comprou, onde você o levou ou o que você construiu; mas dificilmente esquecerá como se sentiu quando você estava presente. Porque pai não é apenas quem dá a vida — é quem, dia após dia, ensina o filho que ele nunca precisará enfrentá-la sozinho.

Thoughts

  • folhaSolta

    Aposto que a Fabi lembra dessa janela com outro detalhe, irmã sempre guarda a mesma cena de um jeito diferente. Tu já mostrou essa carta pra ela?

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  • academiadobairro

    As duas pedindo doce pela janela do bar, e ele largando a conversa pra atender as filhas, ficou na minha cabeça o dia inteiro, visse.

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  • ArnaldoBessa

    A maleta do Palmeiras com as moedinhas dentro me pegou. Uma menina que acabou de sair do banho e já tem plano de viagem, porque o lugar dela é onde o pai está. Fiquei pensando nessa cena junto com a da janela: na primeira ele vai embora antes de você, na outra ele volta porque as meninas chamaram. Essa segunda eu também guardaria com cuidado.

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  • Viverse

    Que lindo

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