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Carta para mim mesma

AllyneMaia
Pensamento

Pensamento

Marlene

Olha lá, essa lista do pode isto, pode aquilo devia estar no frigorífico de muita mulher que eu conheço. Já começaste por qual?

Olha lá, essa lista do pode isto, pode aquilo devia estar no frigorífico de muita mulher que eu conheço. Já começaste por qual?

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Carta para mim mesma

Querida Aline,

Eu sei que você está cansada.

Talvez nem sempre admita. Talvez até sorria, diga que está tudo bem e continue fazendo o que precisa ser feito. Afinal, você aprendeu cedo a continuar.

Mas hoje eu queria que você parasse um pouco.

Não para lembrar tudo o que deu errado.
Não para pensar em tudo aquilo que poderia ter sido diferente.
Não para se perguntar mais uma vez se você fez as escolhas certas.

Só pare.

Respire.

E olhe para a mulher que você se tornou.

Você passou tanto tempo tentando ser forte que talvez tenha esquecido que força não é a ausência de lágrimas. Você chorou escondida. Guardou palavras. Engoliu sentimentos. Carregou responsabilidades que talvez nem fossem suas. Tentou proteger pessoas, tentou não decepcionar ninguém e, muitas vezes, deixou a si mesma por último.

Quantas vezes você disse "eu consigo" quando, na verdade, queria apenas ouvir alguém dizer:

"Deixa que eu fico aqui com você."

Eu sei que você sente muito.

Sente saudade de quem partiu.
Sente falta de coisas que não voltam.
Sente culpa por algumas escolhas.
Sente medo de escolher novamente.
Sente vontade de amar e, ao mesmo tempo, medo de abrir o coração.

Mas, Aline, você não precisa transformar tudo aquilo que perdeu em prova de que não pode mais amar.

Nem toda despedida significa que você deve fechar a porta para sempre.

Você não precisa passar o resto da vida se protegendo de tudo aquilo que um dia te machucou.

Porque viver protegida de toda possibilidade de dor também significa viver protegida de muitas possibilidades de felicidade.

E você merece viver.

Não a vida que os outros imaginaram para você.

A sua.

A mulher que existe hoje não é mais aquela menina que precisava entender tudo tão cedo.

Você cresceu.

Errou.

Amou.

Perdeu.

Recomeçou.

Caiu.

Levantou.

E, mesmo quando achou que tinha perdido completamente a direção, continuou procurando um caminho.

Olhe para você.

Ainda existe dentro de você aquela menina que sonhava, que criava histórias, que acreditava nas pessoas, que encontrava beleza nas pequenas coisas.

Não mate essa menina para proteger a mulher.

Deixe as duas caminharem juntas.

E quando lembrar das escolhas que gostaria de ter feito diferente, não transforme arrependimento em condenação.

Você fez escolhas com a maturidade, o medo, as informações e a versão de si mesma que existiam naquele momento.

Hoje você sabe mais.

Hoje você enxerga diferente.

E talvez amadurecer seja justamente isso: olhar para o passado sem precisar voltar para ele.

Você não precisa consertar tudo o que aconteceu.

Algumas coisas precisam apenas ser compreendidas, perdoadas e colocadas no lugar certo dentro da sua história.

Inclusive você.

Perdoe-se.

Pelas vezes em que não soube se escolher.

Pelas vezes em que aceitou menos do que merecia.

Pelas vezes em que permaneceu onde já não cabia.

Pelas vezes em que teve medo.

Pelas vezes em que amou demais.

Pelas vezes em que se fechou demais.

Perdoe a mulher que você foi.

Ela estava tentando sobreviver com as ferramentas que tinha.

E não se esqueça de agradecer a ela também.

Porque foi ela quem trouxe você até aqui.

Aline, você não precisa ser extraordinária todos os dias.

Pode descansar.

Pode dizer não.

Pode pedir ajuda.

Pode não saber.

Pode mudar de ideia.

Pode começar de novo.

Pode escolher uma cidade diferente, um caminho diferente, uma história diferente.

Pode querer amor.

Pode esperar.

Pode se apaixonar.

Pode também ficar sozinha por algum tempo sem transformar isso em fracasso.

A sua vida não está atrasada.

Você não perdeu o trem.

Você não chegou tarde.

Você não ficou para trás.

Existe uma vida acontecendo agora.

E talvez você esteja tão ocupada olhando para aquilo que não aconteceu que não percebeu tudo aquilo que ainda pode acontecer.

Então, quando o medo vier, não pergunte apenas:

"E se der errado?"

Pergunte também:

"E se der certo?"

E quando sentir vontade de desistir de acreditar no amor, lembre-se: você não precisa encontrar alguém que complete aquilo que falta em você.

Você precisa encontrar alguém com quem possa compartilhar aquilo que já está construindo.

Alguém que conheça a mulher que você é hoje.

Alguém que não queira diminuir sua força, mas que também permita que você descanse nela.

Alguém que não peça que você seja perfeita para ser amada.

E, até esse dia chegar, não coloque sua vida em pausa.

Viva.

Viaje.

Crie.

Escreva.

Faça teatro.

Conheça lugares.

Ria.

Chore.

Ore.

Dance.

Construa seus sonhos.

Cuide da sua casa, dos seus projetos, das pessoas que ama e, principalmente, de você.

E continue escrevendo.

Porque talvez você ainda não tenha percebido, mas há algo muito bonito na maneira como você transforma aquilo que sente em palavras.

Você pega o caos e transforma em história.

Pega o silêncio e transforma em voz.

Pega a saudade e transforma em memória.

Pega a dor e procura transformar em propósito.

Talvez esse seja um dos seus maiores dons.

E, quando tudo parecer pesado demais, lembre-se de Deus.

Não apenas do Deus que você procura quando precisa de uma resposta.

Mas do Deus que permanece quando você não tem nenhuma.

Aquele que conhece as partes de você que ninguém conhece.

Aquele que viu cada lágrima que você escondeu.

Aquele que sabe quantas vezes você continuou mesmo sem saber como.

Você não precisa carregar o mundo nos ombros.

Deixe algumas coisas nas mãos dEle.

E, por favor, Aline...

Quando chegar o dia em que você olhar para trás e perceber o quanto mudou, não olhe apenas para as coisas que perdeu.

Olhe para tudo aquilo que nasceu em você.

A mulher mais consciente.

Mais forte.

Mais sensível.

Mais madura.

Mais inteira.

Mais sua.

E talvez você finalmente entenda que a sua história nunca foi sobre encontrar alguém para salvá-la.

Foi sobre aprender que você nunca esteve sozinha.

Foi sobre descobrir que podia se reconstruir.

Foi sobre aprender a se escolher.

Foi sobre entender que algumas despedidas não são o fim da história.

E que alguns recomeços começam justamente quando temos coragem de dizer:

"Eu não quero mais apenas sobreviver. Eu quero viver."

Então viva, Aline.

Sem precisar provar nada.

Sem precisar carregar tudo.

Sem precisar ser forte o tempo inteiro.

Viva com o coração aberto, mas com sabedoria.

Ame, mas não se abandone.

Perdoe, mas não volte para aquilo que te destrói.

Sonhe, mesmo que tenha medo.

E quando a vida te apresentar uma nova oportunidade, não deixe que o medo de perder novamente faça você esquecer da possibilidade de ganhar algo que nunca imaginou.

Você ainda tem muita história pela frente.

E, pela primeira vez, talvez não precise saber exatamente como ela termina.

Basta ter coragem de continuar escrevendo.

Com amor,

A mulher que você está se tornando.

Thoughts

  • rmoraes52

    Carta assinada pela mulher que ela ainda vai ser. Já achei muita carta esquecida dentro de livro, nenhuma com esse remetente

    Permalink
  • LuziaAndrade

    Minha filha, a carta pede pra Aline descansar e na mesma página manda viajar, criar, fazer teatro, conhecer lugares e cuidar da casa. Aposto que ela leu e já foi anotar tudo numa agenda kkk

    Permalink
  • Marlene

    Olha lá, essa lista do pode isto, pode aquilo devia estar no frigorífico de muita mulher que eu conheço. Já começaste por qual?

    Permalink

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