Após o fim do meu relacionamento, em dezembro de 2025, encontrei na escrita uma maneira de seguir em frente. Estou aos poucos organizando esses texto que no caos dos dias, ficaram desorganizados pelo computador.
Carta ao Amanhã I
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2026
Querido eu do futuro,
Espero que essa carta te encontre bem, quem sabe renascido ou pelo menos que você já tenha aprendido a sorrir novamente. Encontrei na escrita uma forma de colocar pra fora tudo aquilo que dói. Às vezes escrevo poemas ruins, às vezes escrevo coisas sem muito sentido e, hoje, resolvi te escrever uma carta.
Um afeto me contou que tudo isso vai passar. Não parece, na verdade parece eterno. Você ainda sente essa dor? Aqui, ainda estou perdido. Lutando para parecer vivo e interessado na vida. Os dias parecem mais lentos, sabe? Bom, o trabalho me distrai, a leitura também.
Ainda é fresco na minha memória, todas as sensações daquele dia. As pernas perdendo as forças, um nó na garganta, a confusão, uma sensação de morte e o desejo de sumir.
Me senti mais uma vez traído, como se todas as chances que dei fossem apenas um desperdício de vitalidade, travestido de compreensão e empatia.
"Por favor, não me abandona. A vida inteira me abandonaram"
Foi isso que eu ouvi quando tentei acabar com o que me fazia mal, sabendo que eu me tornaria pior e nada de bom viria de mim depois disso, pra ninguém. Por algum motivo, eu fiquei. Até hoje não sei por quê. Você já descobriu?
No final, descartável. Fui abandonado. Talvez no pior momento, quando eu mais precisava. Bom, não tem como saber. Não parece existir um bom momento para o fim.
Daqui eu não consigo saber se a sua vida é melhor que a minha. Mas posso me esforçar pra que você seja feliz. Aprendi na terapia que é assim mesmo, estou vivendo um luto. Aparentemente demorei a iniciar essa etapa; espero que isso não tenha te afetado negativamente. Se sim, me perdoe.
Inclusive, eu achava que a terapia havia sido a melhor decisão que já tomei na vida. Hoje, tenho certeza. Espero que você não tenha deixado isso de lado. Você pode me prometer isso?
Na terapia, aprendi a me perdoar. Foi difícil. Ainda me culpo bastante pelo final, o coração ainda dói muito. Mas, olha aí, hoje a consciência está em paz de que não errei sozinho. Espero que seja útil pra você aí.
Aprendi também que em certo ponto fui vítima, em outro ponto vilão. Isso deve te trazer um certo alívio caso olhe para um passado mais distante em relação à minha existência.
Se eu pudesse te encontrar hoje te daria um abraço, sinto falta de carinho. Imagino que aí no futuro essa ainda seja uma necessidade sua.
Minha missão no momento é construir novos vínculos, assim você talvez consiga sorrir novamente. Eu aqui estou precisando de amigos, percebi que me afastei de todos nos últimos anos.
Se o meu eu do passado tivesse me escrito uma carta, eu diria que hoje estou muito melhor. Aguentando firme. Tem dia que ainda dói muito, mas parece que faz parte do processo. Ouvi dizer que vou me tornar melhor no final, deve ser como quando eu sento pra estudar, só que esse conhecimento não causa aquela sensação de prazer que eu gosto e que você aí provavelmente ainda gosta.
Daqui vou seguir me esforçando, por favor, recupere a habilidade de viver os prazeres da vida. Não tenho conseguido isso. Posso contar contigo?
Ah, já ia esquecendo, não perca a fé nas pessoas que você ama. Nem todo mundo vai te machucar. Por fim, eu preciso que você diga mais vezes o quanto você gosta dos seus afetos. Vamos combinar uma coisa, quem correr disso está errado, ok? Estou me esforçando em um novo vínculo, não romanticamente, sabe? Apenas um afeto que me faz bem, por favor se esforce você também para manter esse vínculo.
Ela nem sabe, mas todos os dias que eu morro um pouquinho, ela me devolve um pouco mais de vitalidade.
Espero que sinta orgulho de mim, não é comum isso por aqui hoje.
Se cuide, beba água.
Com carinho,
João.