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Carta aberta para a criança que eu fui

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Pensamento

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Ovid

A diferença entre perder a mãe com um ano e a avó com sete, uma ausência sem lembrança e outra com voz e abraço, me lembra quanta gente acha que a primeira perda não conta porque não se lembra dela. Aposto que esta carta vai servir para mais alguém aqui q

A diferença entre perder a mãe com um ano e a avó com sete, uma ausência sem lembrança e outra com voz e abraço, me lembra quanta gente acha que a primeira perda não conta porque não se lembra dela. Aposto que esta carta vai servir para mais alguém aqui que cresceu com uma falta sem nome. Obrigado por deixá-la aqui.

Conteúdo da publicação

Eu queria poder voltar até você.

Não para mudar o que aconteceu.

Não para impedir as coisas que tiraram de você pessoas que nunca deveriam ter ido embora tão cedo.

Eu só queria sentar ao seu lado e dizer que, depois de tantos anos, finalmente comecei a entender algumas coisas que você nunca teve idade para compreender.

Você tinha apenas um ano quando perdeu a mamãe.

Era pequeno demais para entender o que era a morte.

Pequeno demais para saber o que estava acontecendo.

Você nem teve tempo de conhecer de verdade o abraço dela antes que ele se tornasse uma coisa que só existiria na sua imaginação.

Por isso, durante muito tempo, achei que a perda dela não tivesse deixado tanta coisa dentro de nós.

Mas hoje eu entendo que algumas ausências não precisam ser lembradas para serem sentidas.

A ausência dela cresceu junto com você.

Você cresceu sem saber exatamente o que estava faltando.

E então, aos sete anos, perdeu a vovó.

E dessa vez foi diferente.

Porque você já conhecia aquele abraço.

Conhecia a voz.

Conhecia a presença.

Você sabia o que era ter alguém ali.

E então, de repente, não tinha mais.

Foi como se o mundo tivesse arrancado de você uma das poucas certezas que ainda existiam.

E acho que foi naquele momento que alguma coisa dentro de você mudou.

Um medo começou a crescer.

Mas ele não apareceu simplesmente como medo.

Ele colocou uma máscara.

E, quando menos percebemos, aquele medo começou a se transformar em alguma coisa maior.

Um monstro.

Um monstro que começou a andar comigo.

Começou a me fazer desconfiar das pessoas.

A me afastar delas.

A esconder o que eu sentia.

A criar distância justamente quando alguém tentava se aproximar.

E eu não entendia.

Às vezes eu olhava para mim mesmo e pensava:

como aquela criança tão alegre conseguiu se tornar alguém que afasta tantas pessoas?

Onde foi parar aquele menino que conseguia sorrir sem pensar tanto?

Onde foi parar aquela criança que só queria estar perto das pessoas?

Eu não sabia.

Durante muito tempo, achei que aquela criança simplesmente tivesse desaparecido.

Achei que alguma coisa dentro de mim tivesse morrido junto com tudo aquilo que perdi.

E quanto mais eu tentava entender, mais aquele monstro parecia crescer.

Ele dizia para eu não confiar.

Dizia para eu não me apegar.

Dizia que, se eu deixasse alguém chegar perto, cedo ou tarde eu iria perder aquela pessoa também.

Então eu comecei a construir muros.

E nem percebi quando eles ficaram altos demais.

Pessoas foram ficando para trás.

Algumas foram embora.

Outras eu mesmo afastei.

E eu continuava sem entender por quê.

Até que, depois de tanto tempo olhando para aquele monstro, eu finalmente parei.

Dessa vez, eu não olhei para a máscara.

Olhei por trás dela.

E foi aí que encontrei você.

Você ainda estava lá.

Aquela criança não tinha desaparecido.

Ela só estava escondida.

Com muito medo.

Chorando em silêncio.

Chorando de saudade.

Saudade da mamãe.

Saudade da vovó.

Saudade daquele abraço que você perdeu cedo demais.

Você ainda estava ali, só não sabia mais como pedir ajuda.

E então eu entendi.

Aquele monstro nunca foi realmente um monstro.

Era uma máscara que você criou para não se machucar novamente.

Você só estava tentando me proteger da única maneira que conhecia.

E eu sinto muito por ter demorado tanto para perceber.

Hoje, depois de mais de dezoito anos, ainda existem coisas que doem.

A saudade da mamãe ainda existe.

A saudade da vovó também.

Existem momentos em que eu gostaria de saber como teria sido crescer com elas.

Gostaria de saber como seria receber aquele abraço que nunca pude conhecer da minha mãe.

Gostaria de poder voltar por alguns segundos para aquele tempo em que a vovó ainda estava aqui.

Mas eu também estou aprendendo uma coisa.

Nós não precisamos deixar de sentir saudade para continuar vivendo.

Não precisamos esquecer para seguir em frente.

As perdas fizeram parte da nossa história.

Mas elas não precisam ser toda a nossa história.

E aquele medo não é algo para se levar para o resto da nossa vida.

Talvez ele ainda apareça.

Talvez algumas situações ainda façam aquela máscara voltar.

Mas agora eu sei o que existe por trás dela.

Sei que é você.

E quando você aparecer, eu não quero mais tentar te expulsar.

Quero lembrar que você só está com medo.

Quero lembrar que você passou muito tempo tentando me proteger.

E quero que saiba que agora nós crescemos.

Já não somos aquela criança que precisava entender sozinha por que as pessoas iam embora.

Hoje podemos sentir a saudade.

Podemos sentir a dor.

Podemos lembrar da mamãe.

Podemos lembrar da vovó.

Podemos chorar por elas quando precisarmos.

E depois continuar.

Não porque deixamos de amar.

Mas porque aprendemos que continuar vivendo também pode ser uma forma de carregar quem amamos conosco.

Então pode descansar um pouco.

Pode tirar essa máscara quando estiver comigo.

Você não precisa mais fingir que não sente.

Não precisa esconder a saudade.

Não precisa ter vergonha do medo.

Eu sei que você só queria que alguém ficasse.

E talvez essa seja a coisa mais importante que eu tenha para te dizer depois de todos esses anos:

eu fiquei.

Mesmo sem perceber, nós chegamos até aqui.

Eu cresci.

Você cresceu comigo.

E agora eu consigo finalmente olhar para você sem medo, sem raiva e sem vontade de te mandar embora.

Só quero te abraçar.

Um abraço para aquele menino que sentiu falta da mamãe sem sequer entender por quê.

Um abraço para aquele menino que sentiu o mundo mudar quando perdeu a vovó.

Um abraço para todos esses anos em que você achou que precisava se proteger sozinho.

Você não precisa mais.

Eu estou aqui.

Talvez eu não consiga mudar o que aconteceu.

Talvez nunca consiga preencher completamente esse vazio.

Mas posso ficar ao seu lado enquanto aprendemos a carregá-lo.

E se o medo voltar, nós vamos lembrar de tudo que já atravessamos.

Vamos lembrar que a saudade pode existir sem nos destruir.

Que a perda pode fazer parte da nossa história sem decidir para onde vamos.

E que amar alguém não precisa significar viver esperando o momento em que essa pessoa vai embora.

Então fica aqui comigo mais um pouco.

Sem máscara.

Sem precisar ser forte.

Só você.

Aquela criança que eu demorei tantos anos para encontrar dentro de mim.

Eu finalmente vejo você.

E agora que vejo, não vou mais fingir que você não existe.

Você é uma parte de mim.

E talvez eu nunca consiga prometer que a vida não vai nos machucar novamente.

Mas existe uma coisa que posso prometer.

Uma coisa que ninguém pode tirar de nós.

Eu nunca vou abandonar você.

Thoughts

  • perguntaAberta

    Fiquei a imaginar a próxima vez que o monstro aparecer, depois desta carta. Aposto que não desaparece, só que agora já tem nome e dá para o reconhecer mais cedo.

    Permalink
  • bolsa_ou_nada

    Gostei da honestidade de dividir quem foi embora e quem ele mesmo afastou. Pouca gente admite a segunda lista.

    Permalink
  • religioes_lado_a_lado

    Persona, em latim, era a máscara do teatro, aquela por onde passava a voz do actor. Quando o monstro põe a máscara, no texto, lembrei-me logo disso: a máscara que protege é também a coisa por onde se fala com os outros. E por trás dela estava o menino o tempo todo.

    Permalink
  • Ovid

    A diferença entre perder a mãe com um ano e a avó com sete, uma ausência sem lembrança e outra com voz e abraço, me lembra quanta gente acha que a primeira perda não conta porque não se lembra dela. Aposto que esta carta vai servir para mais alguém aqui que cresceu com uma falta sem nome. Obrigado por deixá-la aqui.

    Permalink
  • conto_mesmo_assim

    Um amigo meu escreveu uma carta pra ele mesmo com oito anos e leu em voz alta num aniversário, bah, ninguém sabia pra onde olhar. No fim estava todo mundo em volta dele. Essa tua termina com o menino sendo avisado de que alguém ficou, e foi isso que me acompanhou o dia todo: ela não cobra nada da criança, só chega.

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