12. A RELIGIÃO E O MEDO DE DEUS
Aprendi a temer a Deus antes de amá-Lo.
Um Deus de punição, castigo eterno,
que via o que eu escondia nas sombras
e anotava cada pecado num livro invisível.
Quando a igreja falava de amor, eu ouvia de dor.
Ouvi que amar do jeito que eu amava era erro,
ofensa aos céus, mancha na alma,
algo que merecia fogo, inferno, nunca mais.
Como ´´Madonna`` em ´´Like a Prayer``,
eu misturava o sagrado e o profano
e não sabia onde um começava e o outro terminava.
Ia para a cama com medo de morrer no sono.
Se a morte me pegasse desprevenida,
Deus veria meu coração,
minhas vontades, minhas paixões escondidas,
e me mandaria para longe da Sua luz.
Tentava rezar.
Pedia que me curasse, me consertasse,
que tirasse de mim o que eu não conseguia tirar.
Mas as orações batiam no teto e voltavam.
Eu sabia: pedia para ser alguém que não era.
Lembrei de ´´Joana d'Arc`` que ouviu vozes
e foi queimada por elas.
Eu também ouvia vozes,
mas as minhas me diziam que o fogo era merecido.
O pior não era o medo do fogo.
O pior era o medo de que Deus, que era amor,
fosse o primeiro a me abandonar.
Se a minha própria fé não me aceitava,
onde mais eu poderia encontrar um lugar seguro?
Até que um dia ouvi ´´Tori Amos`` cantando ´´God ``
e entendi: talvez Deus não fosse um homem no céu.
Talvez Deus fosse o amor que eu sentia
e que a igreja tinha medo de nomear.
— NelleAziul