5. OS MEDOS QUE SURGEM
Não vieram com trovão nem grito no meio da noite.
Vieram devagar, como névoa pela fresta,
espalhando-se pelo chão, subindo pelas pernas,
até tomar o peito inteiro.
O primeiro medo: ser descoberta.
Descoberta o quê? Eu não sabia.
Mas sabia que havia algo nas entranhas
que, se visto, me tornaria alvo.
Como ´´Maya Angelou`` escreveu em ´´I Know Why the Caged Bird Sings``:
´´Não há maior agonia do que carregar uma história não contada dentro de você.``
Eu carregava a minha, e ela pesava toneladas.
Depois, o medo do julgamento.
O medo de que minha mãe recuasse um passo.
O medo de que meu pai apontasse o dedo:
´´Você está errada.``
E então, o pior: o medo de mim mesma.
O medo de não reconhecer o rosto no espelho.
O medo de sentir o que não tinha permissão.
O medo de querer o que era proibido.
Como ´´Billie Holiday`` em ´´Strange Fruit``,
eu era uma fruta estranha pendurada na árvore da minha própria vida.
Não vieram todos de uma vez.
Chegaram um a um, convidados indesejados.
E eu, sem saber fechar a porta,
aprendi a morar com eles.
A dividir o quarto, a cama,
e a fingir que não estavam ali
cada vez que eu precisava sorrir.
— NelleAziul