IDEB: Quando os números valem mais que o aprendizado
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) deveria ser, acima de tudo, um instrumento para revelar a realidade da educação brasileira e orientar políticas públicas capazes de garantir que cada criança e cada adolescente aprenda de verdade. Entretanto, existe um risco preocupante quando a busca por bons números passa a ser mais importante do que a aprendizagem efetiva.
Uma escola não pode ser considerada bem-sucedida simplesmente porque conseguiu elevar sua nota em um indicador. Número bonito no relatório não significa, necessariamente, aluno preparado para a vida.É preciso perguntar o que existe por trás dessa nota: o estudante sabe ler e interpretar um texto? Consegue escrever com autonomia? Possui domínio das operações matemáticas básicas? É capaz de argumentar, resolver problemas, compreender aquilo que lê e utilizar o conhecimento em situações concretas?
Não adianta comemorar uma evolução estatística enquanto existem estudantes chegando aos anos finais do Ensino Fundamental ou ao Ensino Médio com dificuldades elementares de leitura, escrita, interpretação e matemática. Isso não é uma crítica aos alunos, tampouco aos professores que, muitas vezes, enfrentam condições extremamente desafiadoras. É, sobretudo, um chamado à responsabilidade de gestores e sistemas de ensino.
Educação não pode ser administrada para produzir números; deve ser administrada para produzir aprendizagem.
É necessário também questionar onde e como os recursos públicos estão sendo aplicados. Muitos municípios destinam valores expressivos à educação, mas nem sempre conseguem transformar esse investimento em aprendizagem proporcional. Gastar mais não significa necessariamente educar melhor. É preciso avaliar prioridades, eficiência, formação continuada, acompanhamento pedagógico, alfabetização na idade certa, infraestrutura, materiais didáticos e, principalmente, os resultados concretos apresentados pelos estudantes, a efetividade atingida pela política pública educacional.
O IDEB deve ser um ponto de partida para investigação, não uma linha de chegada para comemoração.
Quando uma rede melhora sua nota, a pergunta não deveria ser apenas "quanto aumentou o IDEB?", mas também: o que nossos alunos realmente aprenderam?Houve avanço consistente na leitura? Na escrita? Na matemática? A aprendizagem alcançou todos ou apenas uma parcela dos estudantes? O resultado é sustentável ou representa apenas uma fotografia momentânea?
Também é perigoso transformar o IDEB em uma espécie de troféu político ou administrativo. A educação pública não pode ser utilizada apenas para construir discursos de sucesso. Quem está na sala de aula, no chão da escola, conhece uma realidade muito mais complexa do que qualquer número consegue representar.
O verdadeiro sucesso educacional acontece quando o aluno consegue ler e compreender o mundo, escrever suas próprias ideias, raciocinar matematicamente, desenvolver autonomia, pensar criticamente e continuar aprendendo.
Porque, no final das contas, o que importa não é apenas a nota que aparece no indicador. Importa aquilo que permanece na mente, na capacidade e na vida de cada estudante.
Se os números subirem, mas a aprendizagem não acompanhar, teremos melhorado o indicador, não necessariamente a educação.
IDEB deve medir a aprendizagem. Jamais substituí-la.