2. O PRIMEIRO OLHAR NO ESPELHO QUE NÃO FOI VALIDADO
Eu me encarei e esperei um reconhecimento.
Procurei nos meus próprios olhos a certeza
de que eu cabia ali.
Mas o espelho não confirmou nada.
Devolveu-me uma estranha, alguém sem nome.
O reflexo ria de mim, sorriso torto,
como quem diz: ´´Você não tem permissão para existir assim.``
Lembrei de ´´Frida Kahlo`` pintando seu próprio rosto
vez após vez, tentando se encontrar em cada tela.
Lembrei de ´´Virginia Woolf `` escrevendo ´´Orlando``,
uma carta de amor a si mesma através dos séculos.
Olhei para meus ombros, minhas mãos,
e eles pareciam pertencer a um corpo alheio,
emprestado sob condições,
mas nunca meu para usar em liberdade.
Não houve espelho que me abraçasse.
Houve apenas a parede fria do meu próprio julgamento.
Eu queria um ´´você está bem assim``,
mas encontrei apenas o silêncio
de uma validação que nunca chegou.
Como ´´Nina Simone`` cantando ´´Four Women``,
cada verso era um pedaço de mim
que eu ainda não sabia nomear.
— NelleAziul