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Capitulo Final - Quando o meu silêncio se transformou em grito

AllyneMaia
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Capítulo Final — Quando o Meu Silêncio se Transformou em Grito

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folhaSolta

A oração de uma frase só, a do cansaço, foi a parte que ficou comigo depois de fechar a tela. Dá pra ver que ela levou anos pra caber numa frase tão curta.

A oração de uma frase só, a do cansaço, foi a parte que ficou comigo depois de fechar a tela. Dá pra ver que ela levou anos pra caber numa frase tão curta.

Conteúdo da publicação

Capítulo Final — Quando o Meu Silêncio se Transformou em Grito

Durante muito tempo, eu pensei que o meu maior desejo era esquecer.

Esquecer as perdas.

Esquecer os dias difíceis.

Esquecer as coisas que me machucaram.

Esquecer as pessoas que partiram.

Esquecer as escolhas das quais me arrependia.

Eu achava que, se pudesse apagar tudo aquilo da minha memória, finalmente estaria livre.

Hoje eu sei que não era isso que eu precisava.

Eu precisava aprender a lembrar sem voltar a morar na dor.

Precisava olhar para a minha história sem sentir que ela tinha poder sobre o meu futuro.

Precisava entender que tudo aquilo havia acontecido comigo, mas não precisava continuar acontecendo dentro de mim.

E foi assim que comecei a compreender o que Deus estava fazendo em minha vida.

Ele não apagou a minha história.

Ele me ensinou a contar essa história de outra maneira.

Por muito tempo, eu fui a menina que perdeu o pai.

Depois, fui a menina que guardou um segredo.

A adolescente que carregou medo.

A mulher que conheceu o peso da culpa.

A filha que perdeu a mãe.

A amiga que precisou enterrar alguém que amava.

A pessoa que viu tantas despedidas que começou a ter medo de novas chegadas.

Eu poderia passar a vida inteira me definindo pelas coisas que perdi.

Mas Deus começou a me mostrar que eu também precisava me enxergar pelas coisas que sobreviveram.

E havia muita coisa viva em mim.

Minha capacidade de amar.

Minha vontade de sonhar.

Minha fé.

Minha sensibilidade.

Minha coragem.

Minha capacidade de recomeçar.

E, principalmente, minha voz.

Aquela voz que eu passei tantos anos tentando encontrar.

A voz que um dia teve medo de falar.

A voz que aprendeu a engolir perguntas.

A voz que guardou lágrimas.

A voz que tantas vezes disse “está tudo bem” quando não estava.

Essa voz começou a aparecer.

Primeiro, baixinho.

Depois, com coragem.

Até que um dia eu percebi que não precisava mais sussurrar a minha própria existência.

Eu podia falar.

Eu podia dizer o que sentia.

Podia dizer quando algo me machucava.

Podia dizer quando precisava de ajuda.

Podia dizer não.

Podia dizer sim.

Podia colocar limites.

Podia escolher.

Podia contar a minha história.

E, acima de tudo, podia olhar para mim mesma sem sentir vergonha da mulher que eu havia me tornado.

Porque eu finalmente entendi uma coisa:

eu não precisava ter vergonha da minha sobrevivência.

Eu fiz o que consegui com a força que tinha em cada fase da minha vida.

Algumas vezes acertei.

Outras vezes errei.

Algumas escolhas me trouxeram consequências que precisei carregar.

Mas até os meus erros começaram a ganhar outro significado quando parei de usá-los como instrumentos para me castigar.

Eu precisava me perdoar.

E me perdoar não significava dizer que tudo havia sido certo.

Significava reconhecer que eu também merecia misericórdia.

A mesma misericórdia que tantas vezes ofereci aos outros.

Comecei a olhar para a menina que fui com mais ternura.

E, se pudesse me encontrar naquela época, eu não diria:

“Por que você não fez diferente?”

Eu me abraçaria.

Diria:

“Você não sabia tudo o que sabe hoje.”

“Você estava tentando entender a vida.”

“Você estava tentando sobreviver.”

“Você não precisava carregar tudo sozinha.”

“Você não precisava ser forte o tempo inteiro.”

E talvez dissesse aquilo que eu mais precisava ouvir:

“Você não está sozinha.”

Porque, olhando para trás, eu percebo que realmente não estava.

Deus estava lá.

Ele estava no dia em que perdi meu pai.

Estava nas lágrimas que chorei escondida.

Estava quando minha melhor amiga partiu.

Estava quando minha mãe começou a precisar de mim.

Estava naquele hospital.

Estava quando eu achei que não conseguiria continuar.

Estava nas portas que se abriram depois.

Estava nas pessoas que apareceram.

Estava na provisão que chegou.

Estava nos dias em que eu não tinha respostas, mas ainda encontrava forças para levantar.

Eu passei muito tempo perguntando:

“Onde Deus estava quando tudo isso aconteceu?”

Hoje eu sei.

Ele estava comigo.

Talvez eu não tenha percebido porque estava olhando para a tempestade.

Mas Ele estava.

E quando minhas pernas não conseguiam mais sustentar meu corpo, foi como se Ele me carregasse.

Não porque eu nunca mais sentiria dor.

Mas porque eu não precisaria atravessar nenhuma dor sozinha.

Foi então que meu relacionamento com Deus mudou completamente.

Eu deixei de procurá-Lo apenas para pedir que mudasse as circunstâncias.

Comecei a procurá-Lo para que mudasse meu coração diante delas.

Aprendi a conversar com Ele sem discursos bonitos.

Às vezes, minha oração era apenas:

“Pai, eu estou cansada.”

Outras vezes:

“Eu não entendo.”

Ou simplesmente:

“Fica comigo.”

E Ele ficava.

Na quietude do quarto.

No caminho para o trabalho.

Nos momentos de saudade.

Nas manhãs em que eu acordava mais leve.

Nas noites em que finalmente conseguia dormir sem sentir que precisava resolver o mundo inteiro.

Eu descobri que intimidade com Deus não era nunca mais chorar.

Era saber para onde levar minhas lágrimas.

Não era nunca mais ter medo.

Era saber em quem confiar quando o medo aparecesse.

Não era ter todas as respostas.

Era continuar caminhando mesmo quando algumas perguntas permanecessem sem resposta.

E foi assim que eu comecei a viver.

Não a vida que eu tinha imaginado.

Mas uma vida que finalmente era minha.

Eu descobri que não precisava mais ser definida pelo que os outros fizeram comigo.

Nem pelo que havia perdido.

Nem pelos meus erros.

Nem pelo meu passado.

Eu era Cecília.

Uma mulher marcada, sim.

Mas não destruída.

Uma mulher que conhecia a dor, mas também conhecia a esperança.

Que sabia o que era perder, mas também sabia o que era recomeçar.

Que havia conhecido o silêncio, mas agora sabia usar a própria voz.

E foi então que compreendi o verdadeiro significado do meu grito.

Meu grito não era contra Deus.

Era para Deus.

Era um grito de entrega.

De liberdade.

De reconhecimento.

Era como se, depois de tantos anos, eu finalmente pudesse levantar a cabeça e dizer:

“Eu estou aqui.”

Eu sobrevivi.

Não sozinha.

Não porque fui forte o tempo inteiro.

Mas porque Deus foi fiel quando eu não conseguia ser forte.

E hoje eu não quero mais esconder as marcas da minha história.

Elas fazem parte de mim.

Não são tudo o que eu sou.

Mas fazem parte.

Eu não quero apagar a menina que fui.

Quero honrá-la.

Não quero esquecer as pessoas que perdi.

Quero amá-las através das lembranças bonitas que deixaram.

Não quero fingir que não doeu.

Quero reconhecer que doeu — e que, mesmo assim, eu continuei.

Não quero romantizar a dor.

Quero testemunhar sobre o Deus que me encontrou dentro dela.

Porque talvez essa seja a maior verdade que descobri:

Deus não desperdiça uma história entregue a Ele.

Ele pode transformar lágrimas em maturidade.

Feridas em compaixão.

Silêncio em voz.

Culpa em perdão.

Luto em memória.

Sobrevivência em propósito.

E foi isso que Ele fez comigo.

Eu passei anos acreditando que o silêncio era a parte mais forte da minha história.

Hoje sei que não.

O silêncio foi apenas o lugar onde a minha voz começou a nascer.

E quando ela finalmente nasceu, eu não precisei mais gritar para ser ouvida.

Eu só precisei parar de me esconder.

Por isso, se um dia alguém me perguntar quem eu sou, eu não vou responder contando apenas tudo aquilo que perdi.

Eu vou dizer que sou uma mulher que aprendeu a recomeçar.

Uma mulher que caiu e levantou.

Que chorou e continuou.

Que questionou e permaneceu.

Que se perdeu algumas vezes, mas encontrou o caminho de volta.

Uma mulher que aprendeu a se perdoar.

Que aprendeu a amar sem se abandonar.

Que aprendeu que não precisa ser perfeita para ser amada.

E que descobriu, depois de procurar em tantos lugares, que nunca esteve realmente sozinha.

Porque Deus estava ali.

Em todos os capítulos.

Até mesmo nos que eu não queria viver.

E talvez seja por isso que hoje eu consiga olhar para trás sem desejar mudar tudo.

Se eu apagasse a dor, talvez apagasse também a mulher que nasceu dela.

E eu gosto de quem me tornei.

Não porque minha história foi fácil.

Mas porque, apesar de tudo, ela não conseguiu tirar de mim a capacidade de acreditar que ainda existe beleza depois da dor.

Hoje, quando o silêncio chega, eu não tenho mais medo dele.

Eu sei ficar em silêncio.

Mas também sei falar.

Sei chorar.

Sei pedir ajuda.

Sei orar.

Sei dizer não.

Sei dizer sim.

Sei partir.

Sei ficar.

Sei me escolher.

E sei, acima de tudo, que a minha história não terminou onde pensei que terminaria.

Ela continuou.

E continua.

Porque algumas histórias não são sobre aquilo que nos aconteceu.

São sobre aquilo que decidimos fazer depois.

A minha começou em meio ao silêncio.

Passou pela dor.

Conheceu a perda.

Atravessou a culpa.

Encontrou a fé.

Aprendeu o perdão.

E finalmente encontrou uma voz.

A minha voz.

E hoje, depois de tantos anos tentando sobreviver ao silêncio, eu posso finalmente dizer:

Eu não sou mais a mulher que o silêncio sufocou.

Eu sou a mulher que encontrou uma voz dentro dele.

E essa voz não grita mais para pedir socorro.

Ela grita para celebrar a vida.

Para agradecer a Deus.

Para dizer que eu estou aqui.

E, pela primeira vez, não tenho medo de ser ouvida.

Meu silêncio encontrou uma voz.

E a minha voz encontrou Deus.

E em Deus, finalmente, eu encontrei a mim mesma.

 

Thoughts

  • folhaSolta

    A oração de uma frase só, a do cansaço, foi a parte que ficou comigo depois de fechar a tela. Dá pra ver que ela levou anos pra caber numa frase tão curta.

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  • ArnaldoBessa

    A lista de quem você foi, a menina que perdeu o pai, a que guardou um segredo, a filha que perdeu a mãe, me pegou porque cada nome parecia uma porta fechando. Aí vem a outra lista, a das coisas que sobreviveram, e a que ficou comigo foi a voz que tantas vezes disse "está tudo bem" quando não estava. A frase de lembrar sem voltar a morar na dor eu li duas vezes. É mesmo o último capítulo, ou essa voz já está pedindo outro caderno?

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