Capítulo 9 — O Último Silêncio
Nina passou a noite inteira sem conseguir dormir.
As palavras de Jhon ecoavam em sua mente.
— Às vezes, a verdade não desaparece.
Ela apenas espera o momento em que conseguimos suportá-la.
Nina fechou os olhos.
Durante dias, procurou respostas em todos os lugares.
Nas flores.
Nas fotografias.
Na casa onde morava.
Nas pessoas que pareciam enxergá-la.
Mas talvez estivesse procurando no lugar errado.
Talvez a resposta nunca tivesse estado ao seu redor.
Talvez sempre tivesse estado dentro dela.
Na manhã seguinte, ela voltou à floricultura.
Sozinha.
Dessa vez, não sentia medo.
Sentia que precisava lembrar.
Empurrou a porta lentamente.
O cheiro das flores ainda preenchia o ambiente.
Tudo parecia exatamente como antes.
Como se o tempo tivesse parado naquele lugar.
Ela caminhou entre os arranjos.
Passou os dedos delicadamente sobre uma das rosas.
Então fechou os olhos.
No mesmo instante, uma lembrança atravessou sua mente.
Ela segurava uma prancheta.
Conferia uma lista.
Sorria.
Era o evento da Prefeitura.
Ela estava ali para verificar se tudo estava pronto.
Uma voz a fez levantar a cabeça.
— Você chegou.
Ela conhecia aquela voz.
Mas a lembrança desapareceu antes que pudesse reconhecer quem era.
Nina respirou fundo.
Continuou caminhando.
Cada passo parecia despertar outra parte da memória.
Ela viu flores sendo organizadas.
Papéis sobre um balcão.
Uma caneca de café ainda quente.
Depois...
Um pequeno frasco transparente.
Ela tentou alcançá-lo.
Mas a imagem desapareceu.
Seu coração acelerou.
— O que era aquilo...?
Ela deu mais alguns passos.
Outra lembrança surgiu.
Duas pessoas conversando.
Uma delas parecia nervosa.
A outra permanecia em silêncio.
As palavras não podiam ser ouvidas.
Apenas a sensação de que alguma coisa estava errada.
Então...
Ela ouviu seu próprio nome.
"Nina."
Dessa vez, reconheceu a voz.
Mas, antes que pudesse enxergar o rosto de quem a chamava...
Tudo escureceu novamente.
Ela abriu os olhos, assustada.
Uma lágrima escorreu por seu rosto.
Estava tão perto.
Faltava tão pouco.
— Por que eu não consigo lembrar? — sussurrou.
— Porque algumas lembranças não desaparecem por acaso.
A voz veio atrás dela.
Nina se virou.
Jhon estava parado perto da porta.
Como sempre.
Calmo.
Sereno.
Ela caminhou até ele.
— Você já sabia que isso ia acontecer.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu sabia que um dia você chegaria até aqui.
Nina observou seu rosto.
— Quem é você, Jhon?
Pela primeira vez, ele pareceu não ter uma resposta pronta.
— Alguém que também precisava encontrar algumas respostas.
Ela sentiu um arrepio.
Porque, naquele momento, percebeu uma coisa.
Jhon não parecia estar apenas investigando a história dela.
Parecia fazer parte dela.
Ele olhou para o fundo da floricultura.
— Algumas verdades precisam ser lembradas no momento certo.
Nina acompanhou seu olhar.
Pela primeira vez, não sentiu medo da verdade.
Sentiu medo apenas de descobrir quem ela havia sido antes de esquecer.
Enquanto saía da floricultura, uma leve brisa atravessou o ambiente.
As flores balançaram delicadamente.
E, sobre o balcão, uma pequena marca de poeira revelou algo que Nina ainda não tinha visto.
Uma fotografia antiga.
Virada para baixo.
Esperando por ela.
Capítulo 10 — A Verdade Que Floresceu
Nina permaneceu parada no centro da floricultura.
O silêncio já não parecia assustador.
Pela primeira vez, parecia que aquele lugar estava pronto para contar a verdade.
Ela fechou os olhos.
Respirou profundamente.
E deixou que as lembranças voltassem.
Tudo começou naquela manhã.
Como responsável pela organização do evento da Prefeitura, Nina chegou cedo à floricultura para conferir se os arranjos estavam prontos.
Segurava uma prancheta nas mãos e uma lista de encomendas.
Era apenas mais um dia de trabalho.
Assim que entrou, sorriu ao ver Cláudia.
— Cláudia? Você chegou antes de mim?
Cláudia levantou o rosto e sorriu.
O mesmo sorriso gentil de sempre.
— Cheguei faz um tempinho.
Nina se aproximou.
— Achei que eu seria a primeira.
— Também pensei.
Cláudia desviou o olhar por um instante.
— Mas me ligaram mais cedo e pediram para eu adiantar algumas coisas por aqui.
Nina franziu a testa.
— Sério? Ninguém comentou comigo.
Cláudia deu de ombros.
— Achei que já tivessem avisado você.
Como você estava ocupada na Prefeitura, disseram que eu podia resolver essa parte.
Nina sorriu.
— Ainda bem que você veio. Obrigada por me ajudar.
As duas caminharam entre os arranjos.
Tudo parecia normal.
As flores estavam organizadas.
Os vasos alinhados.
O cheiro da floricultura preenchia o ambiente.
Até que Nina parou diante de um buquê de rosas.
Passou delicadamente os dedos sobre uma das pétalas.
E estranhou.
As flores estavam diferentes.
Mais rígidas.
Sem o toque macio de sempre.
Ela aproximou o rosto.
O perfume parecia quase inexistente.
Ao lado do balcão, havia um pequeno frasco transparente.
Nina o pegou.
Observou o líquido em seu interior.
— Cláudia...
A amiga ficou imóvel.
— O que é isso?
Por alguns segundos, ninguém respondeu.
Então Cláudia deu um passo à frente.
— Deixa isso aí, Nina.
Aquele tom de voz fez Nina olhar para ela.
Não era o mesmo tom de sempre.
Era medo.
— O que está acontecendo?
Cláudia permaneceu em silêncio.
Nina olhou novamente para as flores.
E então entendeu.
Aquela aparência perfeita não era natural.
As pétalas estavam cobertas por uma fina camada de cera.
Em poucas horas, elas perderiam o brilho.
O perfume desapareceria.
Todo o trabalho preparado para o evento seria destruído.
Ela voltou o olhar para Cláudia.
— Foi você?
Os olhos de Cláudia começaram a encher de lágrimas.
Por alguns segundos, parecia que ela queria negar.
Mas não conseguiu.
— Eu só queria que, uma vez na vida, olhassem para mim.
Nina ficou sem reação.
— O que você está dizendo?
Cláudia respirou fundo.
— Era sempre você.
A voz dela começou a tremer.
— Sempre a Nina.
Sempre os elogios para você.
Sempre diziam que você era responsável, perfeita, organizada.
Nina balançou a cabeça.
Sem acreditar.
— Você ia estragar o evento por causa disso?
Cláudia abaixou o olhar.
— Eu só queria que percebessem que você também podia falhar.
— Então era isso?
Nina sentiu o coração apertar.
Não era raiva.
Era decepção.
— Você fez isso porque sentia inveja de mim?
Cláudia não respondeu.
E aquele silêncio respondeu por ela.
Nina deu um passo para trás.
— Eu preciso contar o que aconteceu.
O medo apareceu no rosto de Cláudia.
— Nina...
— Você passou de todos os limites.
— Por favor, me escuta.
Cláudia segurou o braço dela.
Nina tentou se soltar.
— Me larga.
As duas perderam o equilíbrio.
Um dos vasos caiu no chão.
O barulho ecoou pela floricultura.
Flores se espalharam pelo chão.
Nina tentou se apoiar no balcão.
Mas não conseguiu.
Seu corpo perdeu o equilíbrio.
E então...
Tudo parou.
A dor.
O som.
O tempo.
O mundo pareceu desaparecer por alguns segundos.
Cláudia caiu ao lado dela.
— Nina?
Sua voz saiu desesperada.
— Nina, responde.
As lágrimas começaram a cair.
Ela segurou a amiga nos braços.
— Por favor...
Mas o silêncio tomou conta da floricultura.
Um silêncio que guardaria aquela história por muito tempo.
...
Nina abriu os olhos lentamente.
As lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Agora ela lembrava.
Tudo.
A conversa.
A mentira.
A inveja.
A sabotagem.
A discussão.
A queda.
E o último momento.
Ela olhou para Jhon.
— Foi ela...
Jhon apenas assentiu.
— Sim.
Nina ficou em silêncio.
Era difícil aceitar.
Porque durante todo aquele tempo ela não tinha perdido apenas uma memória.
Ela tinha perdido a compreensão da própria história.
— Por que eu esqueci?
Jhon olhou para ela.
— Porque algumas dores são grandes demais para serem aceitas de uma vez.
Nina abaixou o olhar.
— Minha mente tentou me proteger.
— Tentou.
Ele respirou fundo.
— Você se agarrou às lembranças boas porque eram mais fáceis de suportar do que a verdade.
Nina olhou ao redor.
Para as flores.
Para o balcão.
Para aquele lugar onde tudo terminou.
Então percebeu.
Ela não estava presa à floricultura.
Ela estava presa ao último momento da sua vida.
E agora finalmente conseguia enxergá-lo.
Jhon permaneceu ao lado dela.
Em silêncio.
Até que Nina fez uma pergunta.
— Por que você conseguia me ver?
Pela primeira vez, Jhon pareceu hesitar.
Ele olhou para ela.
Depois para a floricultura.
— Porque algumas pessoas ficam presas a lugares...
Ele fez uma pausa.
— E algumas pessoas ficam presas a histórias.
Nina franziu a testa.
— Isso não respondeu minha pergunta.
Jhon sorriu levemente.
— Talvez a resposta não seja sobre eu conseguir ver você.
Ela ficou em silêncio.
— Talvez seja sobre você finalmente conseguir se ver.
As palavras ficaram no ar.
Nina sentiu uma calma que não sentia há muito tempo.
Ela finalmente entendia.
As flores.
A floricultura.
As lembranças.
O silêncio.
Tudo fazia parte da última página da sua história.
Mas uma história não deixa de existir porque termina.
Ela apenas encontra um lugar para descansar.
Nina olhou uma última vez para as flores.
Ali não estavam apenas pétalas.
Ali estava a verdade que ela passou tanto tempo tentando encontrar.
E finalmente...
Ela estava pronta para seguir em frente.
A verdade havia florescido.
...