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Capítulo 9 A carta que atravessou o oceano

Raiana
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Eduardo recomeçou a carta sete vezes.

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Pensamento

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tmoreira93

Interessante como ele escondia tudo isso por quarenta anos. A raiva, a saudade, tudo embrulhado.

Interessante como ele escondia tudo isso por quarenta anos. A raiva, a saudade, tudo embrulhado.

Conteúdo da publicação

Eduardo recomeçou a carta sete vezes.

Nenhuma palavra parecia suficiente.

Durante toda a vida escrevera sobre presidentes, operários, artistas, desaparecidos políticos, mães que procuravam filhos, homens que haviam perdido tudo.

Nunca lhe faltaram palavras.

Mas agora, diante de uma folha em branco, sentia-se novamente com vinte e seis anos.

Beatriz entrou na biblioteca sem fazer barulho.

Encontrou o marido olhando para uma única frase escrita no papel.

— Ainda preso na primeira linha?

Ele sorriu.

— Acho que passei a vida inteira escrevendo para o país.

Esqueci como se escreve para uma única pessoa.

Ela beijou-lhe os cabelos já completamente brancos.

— Então não escreva como jornalista.

Escreva como o homem que ela conheceu.

Na madrugada, a carta finalmente nasceu.

Ela não começava pedindo perdão.

Eduardo sabia que ninguém tinha o direito de exigir perdão de quem feriu.

Começava dizendo a verdade.

"Helena,

Durante muitos anos pensei que a pior violência que sofri tivesse sido a tortura.

Hoje sei que não.

A pior violência foi aquela que eu mesmo cometi quando transformei o medo em crueldade e descarreguei sobre você a raiva que eu sentia de um país inteiro.

Eu não estava discutindo com você naquela noite.

Eu estava discutindo com a História.

E fiz de você o campo de batalha."

Ele parou.

As mãos tremiam.

Continuou.

"Passei décadas tentando entender por que suas lágrimas nunca deixaram minha memória.

Descobri tarde demais.

Não era porque eu havia perdido você.

Era porque, naquela noite, perdi o melhor de mim."

As lágrimas caíram sobre o papel.

Não tentou escondê-las.

Em Paris, o outono pintava as árvores de cobre.

Helena caminhava lentamente pelos corredores da Sorbonne depois de uma aula sobre memória e literatura.

Os alunos tinham ido embora.

Ela permanecia organizando livros quando a secretária entrou.

— Professora, chegou correspondência do Brasil.

Helena agradeceu distraidamente.

Havia convites para congressos.

Um contrato de tradução.

E um envelope escrito à mão.

Ela reconheceu a caligrafia antes mesmo de ler o nome.

Seu coração pareceu esquecer como bater.

Ficou muito tempo apenas olhando o envelope.

Como se ele pudesse explodir.

Ou devolver-lhe quarenta anos de uma só vez.

Levou-o para casa sem abri-lo.

Colocou-o sobre a mesa da cozinha.

Preparou chá.

A janela estava aberta para o Sena.

A noite caía lentamente sobre Paris.

Só então rompeu o lacre.

Enquanto lia, Helena não chorou.

Não na primeira página.

Nem na segunda.

Mas, quando chegou ao trecho em que Eduardo escrevera:

"Você foi o amor da minha juventude.

Beatriz foi o amor da minha vida.

Nunca menti para nenhuma das duas.

Apenas demorei décadas para entender que o coração é grande o bastante para guardar dois amores diferentes sem diminuir nenhum deles."

Ela fechou os olhos.

Respirou profundamente.

Não havia ciúme da mulher que nunca conhecera.

Havia apenas uma tristeza infinita pelo tempo perdido.

Continuou lendo.

"Naquela noite eu disse que não queria seu lado profundo.

Hoje compreendo que era justamente essa profundidade que me impedia de endurecer completamente.

Você não era uma fuga da realidade.

Era a lembrança de que a realidade precisava continuar humana."

Então veio a frase que a fez desabar.

"Você se lembra de quando eu disse que era feita do mesmo barro que eu?

Passei a vida tentando convencer nós dois de que não.

Mas a verdade é outra.

Você era feita de um barro melhor.

O meu endureceu.

O seu continuou capaz de florescer, mesmo depois de eu quase destruí-lo."

A carta escorregou de suas mãos.

Pela primeira vez em mais de quarenta anos, Helena chorou por Eduardo.

Não pelo homem que a abandonara.

Mas pelo rapaz que finalmente voltava para casa dentro de si mesmo.

Na última página havia apenas um pedido.

"Não escrevo esperando que você me perdoe.

Nem esperando reviver aquilo que a vida levou.

Escrevo porque estou morrendo.

E descobri que algumas verdades não podem ser enterradas conosco.

Se ainda houver um único gesto de generosidade em seu coração, permita que eu a veja uma última vez.

Não para recuperar o passado.

Apenas para que eu possa lhe dizer olhando nos seus olhos aquilo que deveria ter dito naquela noite.

O amor bastava, Helena.

Quem não bastava era eu."

Helena permaneceu imóvel até o amanhecer.

Quando o sol entrou pela janela, ela dobrou cuidadosamente a carta e voltou a colocá-la dentro do envelope.

Depois caminhou até a estante onde guardava todos os seus romances.

Retirou o primeiro livro que havia publicado, décadas antes.

Na folha de dedicatória, que jamais permitira que nenhuma editora modificasse, havia uma única frase:

"Ao homem que um dia confundiu coragem com dureza e me ensinou, sem querer, que as palavras podem salvar uma vida... ou destruí-la."

Ela passou os dedos sobre a dedicatória.

Sorriu entre lágrimas.

Pela primeira vez, não sentiu rancor.

Sentiu apenas o peso imenso de dois jovens que amaram profundamente, mas que tiveram a infelicidade de viver numa época em que o medo falava mais alto do que o amor.

Naquela manhã, Helena pegou o telefone.

Olhou para o número escrito no final da carta.

Ficou longos minutos em silêncio.

Então, com a mão trêmula, começou a discá-lo.

Thoughts

  • vqueiroz90

    Pior violência é a que você faz em si mesmo. Essa frase me pegou.

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  • tresPaginas

    Quando ele diz que perdeu o melhor de si naquela noite... vocês acham que ainda tem jeito de voltar?

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  • tmoreira93

    Interessante como ele escondia tudo isso por quarenta anos. A raiva, a saudade, tudo embrulhado.

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  • sofadasala

    Esse trecho de Beatriz beijando os cabelos brancos dele... me doeu. Achei lindo.

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  • paginadobrada

    Que loucura a dedicatória dela no livro ter escrito exatamente sobre ele. Vocês acham que ela sabia?

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  • oitoemponto

    Fiquei presa nessa cena de Helena segurando o envelope. Já parei aqui umas três vezes.

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  • meioCapitulo

    Você acha que Helena realmente vai ligar? Tipo, depois de 40 anos a gente consegue voltar?

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  • marcao77

    Tem coisa que a gente só escreve quando a morte chega. Esse Eduardo sabe bem disso.

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