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Capítulo 8 O tempo que restava

Raiana
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O diagnóstico chegou numa manhã de abril.

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contoDeSexta

A mulher que nunca se casou, e ele que descobriu isso junto com a morte. Essa simetria... como vocês leem?

A mulher que nunca se casou, e ele que descobriu isso junto com a morte. Essa simetria... como vocês leem?

Conteúdo da publicação

O diagnóstico chegou numa manhã de abril.

Eduardo ouviu o médico com a serenidade de quem já enfrentara prisões, torturas e a morte muitas vezes.

A doença era implacável.

Os tratamentos poderiam prolongar sua vida.

Não salvá-la.

Quando saiu do hospital, não ligou para a redação.

Nem para os amigos.

Foi caminhando até um banco de praça.

Sentou-se sob uma árvore.

Pela primeira vez em muitos anos, não pensou na próxima reportagem.

Pensou em Helena.

A memória não lhe trouxe a mulher premiada que aparecia ocasionalmente nos jornais culturais.

Trouxe a menina.

Aquela que ria alto nos corredores da Faculdade de Letras.

A que dançava Beatles no meio da sala.

A que acreditava que um romance podia mudar uma vida.

E percebeu, com uma dor que nenhuma doença poderia superar, que jamais deixara de amá-la.

Não do mesmo modo.

Mas de um modo que nunca desaparecera.

Naquela noite, Beatriz encontrou-o sentado na biblioteca da casa.

Sobre a mesa havia dezenas de caixas antigas.

Fotografias.

Recortes de jornais.

Cadernos.

Ela aproximou-se em silêncio.

Eduardo segurava uma fotografia amarelada.

Os dois jovens sorriam para a câmera.

Helena segurava um caderno.

Ele a olhava, distraído da fotografia.

Como sempre.

Beatriz reconheceu imediatamente aquela mulher.

Nunca a conhecera.

Mas durante trinta anos convivera com sua ausência.

Sentou-se ao lado do marido.

— É ela?

Eduardo demorou alguns segundos para responder.

— Sim.

Beatriz pegou a fotografia.

Sorriu com delicadeza.

— Ela era muito bonita.

— Era.

Depois corrigiu a si mesmo.

— É.

Beatriz passou os dedos pela borda desgastada da foto.

— Você ainda a ama?

Eduardo fechou os olhos.

Aquela era a pergunta que evitara durante décadas.

— Amo.

O silêncio permaneceu entre os dois.

Até que ele completou:

— Mas não como amo você.

Beatriz voltou-se para ele.

Eduardo segurou sua mão.

— Ela foi o amor da minha juventude.

O amor que me ensinou quem eu era.

Você foi o amor da minha vida.

A mulher que permaneceu quando eu já não sabia permanecer em mim mesmo.

As lágrimas encheram os olhos de Beatriz.

Não de ciúme.

De compreensão.

Porque finalmente compreendia que não existiam duas mulheres disputando o mesmo espaço.

Existiam dois tempos diferentes habitando o mesmo coração.

Ela encostou a cabeça no ombro dele.

— Você precisa encontrá-la.

Eduardo ficou imóvel.

— O quê?

— Antes que seja tarde.

— Você está me pedindo isso?

Ela sorriu com tristeza.

— Não.

Estou pedindo que você não morra carregando uma culpa que poderia deixar para trás.

Ele chorou pela primeira vez em muitos anos.

Não como o jornalista.

Nem como o homem que sobrevivera à ditadura.

Chorou como o rapaz de vinte e seis anos que, numa noite de chuva, confundira dureza com coragem.

Na semana seguinte, Eduardo começou a procurar Helena.

Descobriu que ela era professora em Paris.

Membro de academias literárias.

Autora traduzida para mais de vinte idiomas.

Nunca se casara.

Essa última informação o atingiu como um golpe.

Ficou longo tempo olhando para a tela do computador.

Pensou na frase dita tantos anos antes.

"Você deposita todos os seus sonhos em cima de mim."

Talvez tivesse sido verdade.

Mas também era verdade que ele depositara sobre ela todo o peso de um mundo que desmoronava.

E exigira que ela deixasse de ser quem era para acompanhá-lo.

Na mesma época, em Paris, Helena terminava uma conferência sobre literatura latino-americana.

Uma jovem pesquisadora aproximou-se para pedir um autógrafo.

— Professora...

Posso fazer uma pergunta?

Helena sorriu.

— Claro.

— A senhora acredita que existe amor para sempre?

Ela demorou a responder.

Olhou pela janela.

A chuva caía sobre os telhados de Paris exatamente como caía sobre São Paulo naquela noite distante.

— Não.

A estudante pareceu surpresa.

Helena sorriu com doçura.

— Existem pessoas que permanecem para sempre.

O amor... muda de forma.

Mas algumas presenças nunca deixam a nossa vida, mesmo quando deixam os nossos dias.

A jovem agradeceu sem compreender completamente.

Helena observou-a ir embora.

Então abriu discretamente a gaveta de sua mesa.

Lá dentro havia apenas um objeto.

Um pequeno bilhete escrito à mão.

Já amarelado pelo tempo.

Era a única página que restara do primeiro caderno de Eduardo.

Nele havia apenas uma frase.

"Você é feita do mesmo barro que eu."

Ela fechou a gaveta lentamente.

Sorriu entre lágrimas.

— Não, Eduardo...

Você passou a vida inteira tentando provar que não éramos.

Naquela mesma noite, do outro lado do oceano, Eduardo terminava uma carta que talvez fosse a mais difícil de toda a sua vida.

Não era uma carta de amor.

Era uma carta de arrependimento.

A primeira linha dizia apenas:

"Helena, se esta carta chegou até você, é porque finalmente encontrei a coragem que me faltou quando éramos jovens."

Thoughts

  • contoDeSexta

    A mulher que nunca se casou, e ele que descobriu isso junto com a morte. Essa simetria... como vocês leem?

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  • contoBreve

    Helena guardando aquele bilhete por quarenta anos. 😭

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  • atepagina50

    A cena de ele olhando a foto amarelada. Fiquei com ela também, esperando ele decidir.

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  • Simao

    Ele que transformou dureza em coragem. Virou a vida inteira levando essa confusão nas costas. Pergunta: consegue descarregar agora?

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  • Rui_Salgueiro

    Essa imagem de ele sentado no banco sozinho, pensando em Helena. Já parei aí umas três vezes.

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  • Marina

    Beatriz é personagem secundária na história dele, mas ela é quem muda tudo de verdade.

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  • li_no_busao

    Vocês acham que ele esperou ser diagnosticado pra perceber? Ou era só uma desculpa?

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  • folhaSolta

    Esse trecho de Beatriz entendo de viver. Ela reconhece a ausência de uma mulher que nunca conheceu. Soa verdadeiro.

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