Conheci dois sujeitos de uma transportadora que só davam a mão dentro do carro, de vidro fechado, e no serviço se chamavam de senhor até a aposentadoria. O Daniel pulando do abraço por causa da empresa é o mesmo susto, e com o pai do Ariel no portão nem o carro esconde.
Capítulo 6: Café e borboletas no estômago
Pensamento
Conheci dois sujeitos de uma transportadora que só davam a mão dentro do carro, de vidro fechado, e no serviço se chamavam de senhor até a aposentadoria. O Daniel pulando do abraço por causa da empresa é o mesmo susto, e com o pai do Ariel no portão nem o
Conteúdo da publicação
Sábado, 01/03/2025
O senhor Daniel está me olhando de um jeito que acelera meu coração. Seus olhos parecem brilhar sob a luz suave do nascer do sol. Eu tento desviar o olhar, mas ele me atrai de volta... involuntariamente, meus olhos caem sobre seus lábios. Uma vontade estranha, e incontrolável, de beijá-lo toma conta de mim.

Aproximo meu rosto devagar. O senhor Daniel também... ele se inclina mais e, num instante quase mágico.

nossos lábios se tocam. É um beijo suave, cheio de sentimento contido.
- Você leu meus pensamentos? - sussurra Daniel, com a testa encostada na minha.
- O senhor... estava com vontade de me beijar? - pergunto baixinho, quase sem coragem.
- Sim. - responde ele, e antes que eu diga qualquer coisa, ele me beija de novo. Um beijo mais firme, mais sincero, como se finalmente estivéssemos nos permitindo sentir.
Depois, ficamos nos olhando em silêncio, sem saber direito o que dizer. O coração acelerado, as bochechas coradas... e aquele sorriso bobo no canto dos lábios.

- Que lindo o nascer do sol... - murmuro, olhando para o céu alaranjado que começa a colorir o horizonte.
- Vamos apreciar juntos. - diz Daniel, com uma voz suave.


Me encosto em seu ombro, e ele apoia a cabeça levemente na minha. E ali, em silêncio, lado a lado, a gente assiste ao nascer do sol... como se fosse o começo de algo novo. De algo nosso.
É de tarde, e finalmente chegou a hora tão esperada: a gincana! Meu pé ainda dói um pouco, então fui promovido (contra minha vontade) a líder de torcida oficial do time azul. Fiz até umas plaquinhas com frases motivacionais tipo: "Vai Azul, brilha meu amor!" e "Chuta com fé, não com o dedão!"
O primeiro jogo é futebol, e adivinha quem está em campo? O senhor Daniel... jogando contra o próprio irmão! O clima está mais quente que feijoada no verão.

- Vai time azul! Vamos mostrar quem manda! - grito animado, pulando com as placas na mão como se fosse final de Copa do Mundo.
- Relaxa, Ariel, isso aqui é só uma gincana, não um campeonato mundial. - diz meu colega de trabalho, me lançando aquele olhar de julgamento passivo-agressivo.
- Cadê sua empolgação? Isso aqui é a guerra da alegria! - rebato com um sorrisinho debochado. O senhor Daniel me olha do meio do campo e me dá um sorriso. Quase derreti.


Mesmo com minha torcida digna de escola de samba, o time azul perdeu no futebol. Triste? Sim. Humilhado? Também. Mas desistir? Jamais!
Agora é hora da queimada, e dessa vez, o clima está ainda mais tenso. O jogo vira quase um filme de ação: esquivas dramáticas, arremessos cinematográficos, e no meio de tudo isso, eu:
- Vai, senhor Daniel! Mostra que tem braço de ouro! - grito como se ele fosse um super-herói.
A partida foi acirrada, mas o time azul venceu com um último arremesso do senhor Daniel que eliminou o último adversário!
- A gente ganhou! - grito pulando como louco.
- Calma, Ariel... só ganha o troféu quem vence a maioria dos jogos. - comenta meu colega, sempre o balde de água fria.
A tarde continuou cheia de risadas e desafios. Teve cabo de guerra, onde quase fomos arrastados até o mar - o time amarelo puxava como se tivesse comido concreto. Também teve pula corda em dupla, e um colega caiu de cara na areia (não rimos... muito). Por fim, fechamos com a corrida do saco, onde dois funcionários saíram rolando morro abaixo. Um espetáculo.
Mas no fim, a glória foi azul! Vencemos a maioria das gincanas! Tiramos uma foto de equipe com o troféu, e o senhor Daniel ficou do meu lado na foto - ele encostou levemente o braço no meu e sorriu.
E eu? Fingi costume... mas por dentro? Tava gritando igual fã de boyband.
É noite, e o céu está estrelado. Eu e o senhor Daniel, estamos no terraço do hotel, sentados lado a lado. Cada um com seu potinho de miojo na mão. Pode não ser a refeição mais saudável do mundo, mas... é perfeita para o momento.

- Estava com saudades. - diz Daniel, quebrando o silêncio com a voz baixa e suave.
- A gente se viu tem nem meia hora. - digo, tentando disfarçar o coração acelerado.
- Mesmo assim... pareceu uma eternidade. - ele sorri de canto, envergonhado, enquanto mexe o miojo com o garfo.
O vento sopra leve, bagunçando um pouco meus cabelos. Sinto meu rosto esquentar com as palavras dele.
- Eu nunca pensei que você fosse gostar de mim. Uma vez me disse que eu não fazia seu tipo. - confesso, olhando para o miojo como se ele fosse me proteger da vergonha.
- Eu menti. - responde Daniel, com uma expressão quase tímida. - Na verdade... você faz totalmente meu tipo. Do jeitinho que você é.
Eu paro por um momento. Meu peito se enche de algo que eu não consigo nomear... talvez seja isso o tal "borboletas no estômago".

- Sério? - pergunto, tentando esconder o sorriso bobo que já está estampado no meu rosto.
- Sério. Eu gosto de você, Ariel... Gosto muito. - ele diz com os olhos fixos nos meus. Não tem brincadeira na voz dele. É sincero. Quase tímido. Lindo.
- Eu também gosto do senhor. - digo baixinho, com o coração quase explodindo.
- E por que ainda está me chamando de "senhor"? - ele ri, encostando de leve no meu braço. - A gente não tá na empresa agora, lembra?
- Desculpa! - rio junto. - Então deixa eu corrigir... Eu gosto de você, Daniel. Muito.
Segunda-feira, 03/03/2025
É de manhã, e o fim de semana na praia ficou para trás. Estou de volta à empresa, e agora mesmo estou na cozinha, preparando um capuccino especial para o meu amorzinho. Faço com carinho, e desenhei até um coração na espuma. Sorrio ao terminar e sigo animado para a sala do Daniel.
- Senhor, o seu café. - digo com a voz mais fofa possível, enquanto bato na porta.
- Entra. - responde Daniel com aquele sorriso que sempre faz meu coração derreter.
Entro com a bandeja nas mãos e coloco o capuccino sobre a mesa com todo o cuidado.
- Seu capuccino. - digo com um sorriso tímido.
- Nossa... esse coraçãozinho tá tão bonitinho que estou com pena de beber. - diz ele, admirando o desenho.
- Pode beber à vontade. Não se preocupe, porque amanhã eu faço outro mais bonito. - digo enquanto me aproximo por trás da cadeira e o abraço carinhosamente.
Mas, de repente, Daniel se esquiva para frente, como se tivesse levado um choque. Meu sorriso se apaga. Fico parado por um segundo, sem saber o que fazer. Dou a volta até a frente da mesa, tentando entender.
- Você ficou desconfortável? - pergunto, sentindo um aperto no peito.
- Não é isso, amor... - diz Daniel, parecendo nervoso.
- É sim. - interrompo, com a voz embargada. - Você ficou desconfortável só porque eu te abracei...
- Ariel, espera... volta aqui, eu posso explicar... - diz ele, se levantando.
- Eu... vou voltar ao meu trabalho agora. Depois a gente conversa. - digo com a voz fria, tentando disfarçar a mágoa enquanto saio da sala, com o coração apertado e os olhos começando a marejar.
Saio da sala tentando parecer firme, mas meus passos denunciam minha tristeza. O corredor parece mais longo do que nunca. Mal chego perto da copa e ouço passos atrás de mim.
- Ariel! Espera! - ouço a voz do Daniel
Suspiro, sem coragem de me virar. Ele me alcança e segura meu braço com delicadeza.
- Me solta... - digo baixo, sem olhar pra ele.
- Por favor, olha pra mim. - diz ele com a voz mais suave do que o normal. - Me deixa explicar...
Me viro devagar. Nossos olhos se encontram. O dele está cheio de arrependimento.
- Eu só queria te fazer um carinho. Um abraço. Não precisava agir como se fosse algo errado... - digo com a voz trêmula. - A gente passou o fim de semana inteiro grudado, e agora você age como se fosse proibido eu te tocar...
Daniel abaixa os olhos por um segundo e depois respira fundo.
- Ariel, eu agi no automático. Eu tô acostumado a esconder tudo aqui dentro dessa empresa... Aqui é outro mundo. Eu... fiquei com medo. - confessa ele. - Mas não foi porque eu não queria seu abraço, foi porque eu queria demais. E isso me assusta às vezes.
Fico em silêncio por alguns segundos, digerindo o que ele disse. Depois abaixo a cabeça.
- E eu achei que era só vergonha de mim... - murmuro.
- Nunca. - diz ele, se aproximando mais. - Você é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos, Ariel. Eu só não sei lidar com isso direito ainda.
- Então... me deixa te ajudar a lidar. Mas não me afasta. Eu sou sensível, Daniel. Eu sinto tudo com muita intensidade. - digo com os olhos marejados.
Ele sorri de leve e me puxa para um abraço. Agora sim, ele me segura com firmeza, com carinho, com verdade.
- Eu prometo tentar melhorar... não quero te machucar. - diz ele, baixinho, perto do meu ouvido.
- Só me deixa te amar do meu jeitinho. - respondo, me aconchegando nele.
Ficamos assim por um tempo. Até que ele sussurra com um sorriso:
- E o próximo capuccino tem que ter dois corações, tá?
Dou uma risadinha abafada no peito dele.
- Só se você prometer não fugir do meu abraço de novo...
- Fechado.
O expediente finalmente chegou ao fim. Estou na parada de ônibus com alguns colegas de trabalho, já cansado, mas com o coração meio agitado por algum motivo que não quero admitir tão fácil.
- Ariel, vamos sair pra beber? - diz um dos meus colegas, animado.
- Ai, não... não quero trabalhar de ressaca amanhã. - respondo, rindo de leve.
De repente, vejo o ônibus se aproximando. Ao mesmo tempo, o celular vibra com uma notificação. É uma mensagem de Daniel:
"Não pega o ônibus."
Fico parado, olhando pra tela, o coração acelerando. Sento de volta no banco.
- Ué, você não vai entrar? - pergunta um deles, já subindo no ônibus.
- Me deu vontade de ir de táxi hoje. - invento rapidamente.
- Você é muito estranho, Ariel. - diz ele, entrando. O ônibus parte.
Minutos depois, um carro preto para bem à minha frente. O vidro se abaixa, revelando o rosto de Daniel e seu sorriso de canto que quase me faz esquecer de respirar.
- Seu táxi chegou! - diz ele, com aquele olhar provocante.
- Nossa... que taxista mais lindo. - digo, entrando no carro. - E quanto é a corrida, gatinho?
- Um beijinho é o suficiente. - responde ele, com a voz baixa e um sorriso cheio de charme.
Me aproximo e encosto os lábios nos dele, num beijo suave, com gosto de saudade. Quando nos afastamos, nossos olhos ainda estão colados um no outro.
- Você sempre rouba meu fôlego. - sussurro.
- E você me faz querer dirigir em círculos só pra não ter que te deixar em casa. - responde Daniel, ligando o carro.
Seguimos pelas ruas iluminadas. O som da cidade misturado com a música baixa do rádio cria uma atmosfera confortável. Me viro um pouco no banco, observando o perfil dele.
- Você sabia que eu quase entrei naquele ônibus? - digo, com um meio sorriso.
- Ainda bem que te mandei mensagem a tempo. - responde, sem tirar os olhos da estrada. - Não queria que essa noite terminasse assim, sem pelo menos te ver mais um pouco.
- Sabe... você devia trabalhar como motorista de aplicativo. É bom nisso. - brinco.
- Ah, é? E por quê?
- Porque me levou direto pra onde eu mais gosto de estar.
- Onde?
- Perto de você.
Daniel me olha rapidamente, e naquele instante, sinto que poderíamos ficar rodando por aquela cidade a noite inteira. Mas o caminho até minha casa encurta rápido demais.
Quando ele estaciona, o silêncio fica mais cheio que qualquer conversa. Ele segura minha mão por alguns segundos.
- Amanhã... almoço comigo? - pergunta, sem soltar minha mão.
- Claro.
Nos beijamos mais uma vez, dessa vez mais lento. Quando me afasto, já com a mão na maçaneta do portão, escuto uma voz seca vinda da calçada:
- Ariel?
Congelo.
Viro devagar e vejo meu pai, parado no portão, braços cruzados e o olhar carregado de julgamento.
O mundo para por um segundo. E meu coração, que estava flutuando... agora despenca.
Thoughts
-
PermalinkConheci dois sujeitos de uma transportadora que só davam a mão dentro do carro, de vidro fechado, e no serviço se chamavam de senhor até a aposentadoria. O Daniel pulando do abraço por causa da empresa é o mesmo susto, e com o pai do Ariel no portão nem o carro esconde.
Publicações relacionadas
-
Capítulo 7: Café, Ciúmes e exposição
Segunda-feira, 03/03/2025 - Noite
-
Capítulo 47: A Dívida de Sangue
livro (trinta dias para a última lua)
-
Capítulo 46: O Nome de Aylla
livro (trinta dias para a última lua)
-
Manuscrito das três faces: Bodhisattva
Isfet (caos), Maat (ordem): uma fronteira tênue. Temidos e admirados, seres que causam o caos eram considerados um mal necessário para o equilíbrio do cosmo. No dia do grande cisma, a eterna…
-
Meu namorado fantasma capítulo 11
Quinta-feira, 16 de maio de 2024
-
Meu namorado fantasma capítulo 12
Sexta-feira, 17 de maio de 2024
-
O preço de uma segunda chance Parte 9 - Graça
“Prontinho. Aqui, você está todo suado.”
-
Capítulo 22: A máscara caiu
— YRIA! — Oden gritou, já agarrando a noiva pela cintura, tentando afastá-la de Aras.
Sábado, 01/03/2025