Continuar indo, cantando, participando, com a cabeça longe. De fora a pessoa segue na mesma fileira de sempre. Meu palpite é que alguém da igreja percebeu e não soube como chegar perto.
Capitulo 4 - O Silêncio do Pecado
Conforme fui crescendo, percebi que a infância havia ficado para trás.
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Continuar indo, cantando, participando, com a cabeça longe. De fora a pessoa segue na mesma fileira de sempre. Meu palpite é que alguém da igreja percebeu e não soube como chegar perto.
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O Silêncio do Pecado
Conforme fui crescendo, percebi que a infância havia ficado para trás.
Eu já não era a menina que corria pela varanda atrás da irmã ou esperava o pai chegar pela porta. Eu estava me tornando adulta, tentando descobrir quem eu era, o que sentia, o que queria e, principalmente, onde eu encontraria aquilo que parecia faltar dentro de mim.
E foi justamente nessa fase que comecei a procurar respostas nos lugares errados.
A internet se tornou uma janela para um mundo que eu ainda não conhecia. Quanto mais eu descobria, mais queria descobrir.
Comecei a conhecer desejos que antes não sabia nomear.
Comecei a questionar meus sentimentos.
Comecei a descobrir uma parte de mim que queria ser vista, desejada, escolhida.
E, sem perceber, fui alimentando uma voz dentro de mim que dizia que talvez eu encontrasse felicidade quando alguém finalmente me fizesse sentir importante.
Eu continuava indo à igreja.
Sentava nos cultos.
Cantava.
Orava.
Participava.
Por fora, talvez ninguém percebesse a distância que estava crescendo dentro de mim.
Mas eu sabia.
Meu corpo estava na igreja, mas muitas vezes meus pensamentos estavam longe.
Eu estava dividida entre aquilo que dizia acreditar e aquilo que desejava experimentar.
E quanto mais eu alimentava os desejos, mais difícil ficava ouvir a voz de Deus.
Não porque Deus tivesse ido embora.
Mas porque eu estava aprendendo a abafar Sua voz.
Foi nesse período que conheci alguém que despertou algo muito forte em mim.
Ele era mais velho.
Tinha mais experiência de vida.
E, de alguma maneira, conseguiu me fazer enxergar uma versão de mim que eu ainda não conhecia.
Ao lado dele, eu me senti desejada.
Importante.
Mulher.
Depois de tantos anos tentando descobrir quem eu era, alguém parecia olhar para mim e dizer, mesmo sem palavras:
“Eu vejo você.”
E aquilo mexeu comigo.
Talvez mais do que deveria.
Hoje, olhando para trás, consigo perceber que havia coisas naquela relação que iam muito além da atração ou da curiosidade.
Talvez eu estivesse procurando nele uma segurança que havia perdido muito cedo.
Talvez estivesse procurando a proteção que associei, durante tantos anos, à figura do meu pai.
Talvez estivesse tentando preencher com a atenção de alguém uma ausência que eu nunca havia aprendido a preencher sozinha.
E foi por isso que me envolvi tanto.
Eu não estava apenas me relacionando com uma pessoa.
Eu estava tentando encontrar, através dela, uma parte de mim.
Uma parte que queria ser amada.
Aceita.
Desejada.
Protegida.
Eu queria sentir que alguém me escolheria.
E, por algum tempo, acreditei que aquilo seria suficiente.
Mas existem relações que nos fazem descobrir coisas sobre nós mesmas que não gostaríamos de encontrar.
Naquele período, tomei decisões precipitadas.
Algumas delas me deram experiências que carregaria como aprendizado.
Outras se transformaram em arrependimentos.
Houve escolhas que me fizeram crescer.
E houve outras que, durante muito tempo, fizeram com que eu olhasse para mim mesma com culpa.
Eu sabia que estava me afastando de Deus.
Sabia que algumas escolhas não combinavam com aquilo que eu dizia acreditar.
Mas, em vez de parar, eu escondia.
E quanto mais escondia, mais distante me sentia.
Comecei a perceber que o pecado não era apenas aquilo que eu fazia.
Era também aquilo que eu precisava esconder para continuar acreditando que estava tudo bem.
Eu sorria.
Continuava frequentando a igreja.
Continuava convivendo com as pessoas.
Mas dentro de mim existia uma guerra.
Eu sabia que Deus estava me chamando de volta.
E, ao mesmo tempo, tinha vergonha de voltar.
Porque eu imaginava que precisava primeiro consertar tudo para depois me aproximar dEle.
Eu pensava:
"Como posso chegar diante de Deus depois de tudo o que fiz?"
"Como posso orar se sei que estou errando?"
"Será que Ele ainda vai me querer perto?"
Foi então que comecei a entender uma verdade que mudaria minha relação com Deus.
Eu não precisava me consertar para chegar até Ele.
Eu precisava chegar até Ele para começar a ser transformada.
Um dia, cansada de esconder aquilo que estava acontecendo dentro de mim, eu parei.
Não havia mais como fugir.
Eu precisava olhar para minhas escolhas.
Para meus desejos.
Para meus erros.
Para minhas feridas.
Para a pessoa que eu estava me tornando.
E, pela primeira vez, compreendi que confessar não significava simplesmente admitir que eu havia errado.
Significava parar de esconder.
Parar de fingir.
Parar de viver dividida.
Eu precisava colocar diante de Deus aquilo que eu tentava esconder de todos.
E foi difícil.
Porque a culpa dizia que eu deveria me afastar.
Mas o amor de Deus dizia exatamente o contrário.
Volte.
Eu voltei.
Não porque eu merecesse.
Mas porque descobri que a graça não é um prêmio para quem nunca caiu.
É um convite para quem decidiu levantar.
Foi nesse encontro com Deus que comecei a compreender que havia passado muito tempo procurando fora aquilo que meu coração precisava encontrar dentro da minha relação com Ele.
Eu procurava segurança em pessoas.
Validação em olhares.
Afeto em relacionamentos.
Valor na maneira como alguém me desejava.
Mas Deus começou a me mostrar que meu valor não dependia de quem me escolhia.
Eu já era amada.
Antes de qualquer relacionamento.
Antes de qualquer erro.
Antes de qualquer acerto.
Antes mesmo de saber quem eu era.
Eu era filha.
E aquilo começou a mudar tudo.
Percebi que aquele homem havia despertado coisas em mim que eram reais: minha vontade de ser mulher, de ser desejada, de viver, de experimentar, de descobrir quem eu era.
Mas ele não poderia ser responsável por curar tudo aquilo que eu carregava.
Nenhuma pessoa poderia.
Eu havia colocado sobre alguém uma responsabilidade que pertencia somente a Deus e, principalmente, a mim mesma: descobrir meu próprio valor.
E foi libertador perceber isso.
Eu não precisava mais procurar alguém para me provar que eu era importante.
Não precisava de outra pessoa para dizer que eu era suficiente.
Não precisava usar um relacionamento para silenciar minhas inseguranças.
Deus estava me ensinando a encontrar minha identidade nEle.
Foi então que entendi algo sobre o silêncio.
Eu já havia vivido o silêncio da saudade.
O silêncio do medo.
O silêncio da verdade.
Agora conhecia o silêncio do pecado.
E descobri que todos eles tinham algo em comum:
aquilo que permanece escondido continua tendo poder sobre nós.
O pecado escondido alimentava minha culpa.
A culpa alimentava minha distância de Deus.
E a distância de Deus me fazia procurar ainda mais em outros lugares aquilo que somente Ele poderia preencher.
Era um ciclo.
E eu precisava interrompê-lo.
Quando confessei meus erros, não desapareceu magicamente tudo o que eu sentia.
Mas alguma coisa mudou.
Eu já não precisava fingir.
Já não precisava esconder.
Já não precisava carregar sozinha.
A confissão não mudou meu passado.
Mas mudou a maneira como eu caminhava para o futuro.
Comecei a entender que Deus não estava interessado em me humilhar pelo que eu havia feito.
Ele queria me libertar daquilo que eu escondia.
Ele não me chamou para perto para me lembrar constantemente dos meus erros.
Chamou-me para perto para me ensinar quem eu era.
Hoje, quando olho para aquela menina e para aquela jovem que fui, não quero tratá-las com desprezo.
Quero tratá-las com misericórdia.
Eu errei.
Tomei decisões que hoje faria diferente.
Confundi algumas necessidades com amor.
Confundi desejo com pertencimento.
Confundi atenção com segurança.
E procurei em pessoas aquilo que eu ainda não sabia encontrar em mim e em Deus.
Mas minha história não terminou nos meus erros.
Foi justamente quando parei de esconder minhas quedas que comecei a experimentar a verdadeira intimidade com Deus.
Porque intimidade exige verdade.
Não existe relacionamento profundo onde precisamos fingir.
E Deus não queria a versão perfeita de mim.
Queria a versão verdadeira.
Aquela que chegava diante dEle dizendo:
"Eu errei."
"Eu me perdi."
"Eu procurei em outros lugares o que eu precisava encontrar em Ti."
"Mas eu estou aqui."
E foi quando eu finalmente parei de esconder que comecei a entender o tamanho do amor que havia me procurado durante todo aquele tempo.
Eu achava que precisava voltar para Deus depois de me tornar alguém melhor.
Descobri que era justamente caminhando com Ele que eu começaria a me tornar alguém nova.
O pecado escondido me prendia.
A verdade começou a me libertar.
E Deus, que eu tantas vezes imaginei distante, estava ali.
De braços abertos.
Não esperando uma mulher perfeita.
Esperando apenas que eu tivesse coragem de voltar para casa.
E, naquele momento, percebi:
eu passei anos procurando amor em tantos lugares, sem perceber que o Amor já estava me procurando.
Era Deus.
E dessa vez, eu decidi ficar.
Thoughts
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PermalinkÉgua, aquela lista do fim, necessidade com amor, desejo com pertencimento, atenção com segurança. Fiquei um tempão parada nela.
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PermalinkContinuar indo, cantando, participando, com a cabeça longe. De fora a pessoa segue na mesma fileira de sempre. Meu palpite é que alguém da igreja percebeu e não soube como chegar perto.
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