Enquanto ele dirigia calmamente pela estrada, o som do carro preenchia o silêncio com as músicas que um dia fizeram parte da minha história.
Cada melodia parecia guardar uma lembrança.
Era estranho.
Eu estava ali, ao lado dele, depois de quinze anos, ouvindo músicas que eu conhecia tão bem, mas que agora pareciam ter outro significado.
Olhei pela janela.
O reflexo do vidro mostrava o rosto dele de vez em quando.
Eu desviava o olhar rapidamente.
Dentro de mim havia um turbilhão.
Alegria.
Medo.
Saudade.
Curiosidade.
E aquela sensação difícil de explicar de estar diante de alguém que, apesar de ter ficado tanto tempo longe, ainda parecia ocupar um espaço conhecido dentro de mim.
Uma lágrima insistiu em escapar.
Virei o rosto para a janela antes que ele percebesse e a limpei rapidamente.
Não queria que aquele encontro começasse com lágrimas.
Eu queria estar presente.
Queria ouvir.
Queria entender.
Depois de alguns minutos, ele diminuiu a velocidade e parou em frente a um pequeno mercadinho.
— Espera aqui. Já volto.
Assenti.
Pouco depois, ele voltou carregando dois sorvetes.
Estendeu um para mim.
— Espero que você ainda goste de sorvete.
Não consegui evitar o sorriso.
— Lá se foi o meu treino de hoje. Sorvete continua sendo a minha perdição.
Ele riu.
E, naquele instante, alguma coisa pareceu voltar ao lugar.
Era uma conversa simples.
Um sorvete.
Uma brincadeira.
Mas talvez fossem justamente essas pequenas coisas que tornavam aquele momento tão importante.
Chegamos ao parque.
Ele estacionou e desceu.
Quando eu estava prestes a abrir a porta, ele já estava do outro lado, abrindo-a para mim e estendendo a mão.
Olhei para aquela mão por alguns segundos.
Um gesto tão simples.
Mas que carregava um significado enorme para mim.
Quantas vezes, tantos anos atrás, eu havia desejado que ele simplesmente demonstrasse que estava ali?
Que me enxergava?
Que se importava?
Agora ele estava fazendo isso sem que eu precisasse pedir.
Desci do carro.
Ainda tentava entender aquele homem diante de mim.
Não era o mesmo garoto que eu havia conhecido.
E talvez eu também não fosse mais a mesma garota.
Começamos a caminhar pelo parque.
Ele perguntava sobre o meu trabalho, sobre minha rotina, sobre coisas simples do meu dia.
Eu respondia.
Também perguntava sobre a vida dele.
A conversa começava devagar, como se os dois estivessem testando o terreno antes de chegar às partes realmente importantes.
Enquanto caminhávamos, percebi que havia algo diferente naquela noite.
Não precisávamos preencher todos os silêncios.
Alguns simplesmente existiam.
E estavam tudo bem.
Seguimos até uma parte mais tranquila do parque.
Ali, o som da água correndo quebrava o silêncio.
A lua refletia na superfície, formando um caminho prateado sobre a água.
Parei por alguns segundos para observar.
— A lua realmente sabe mostrar sua beleza — falei. — Tanto olhando para ela quanto vendo o reflexo na água.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes.
Então me olhou.
— Assim como você.
Sorri sem saber exatamente o que responder.
— Sua beleza aparece no seu rosto, mas também no seu jeito de ser.
Baixei os olhos.
Aquela frase me atingiu de uma maneira inesperada.
Não porque fosse um elogio.
Mas porque, pela primeira vez, senti que ele não estava olhando apenas para a menina que havia conhecido tantos anos atrás.
Talvez estivesse tentando enxergar a mulher que existia agora.
Sentamos próximos à água.
Ele tirou a jaqueta e a colocou sobre o chão para que pudéssemos nos sentar.
O som da cachoeira continuava ao fundo.
A noite estava tranquila.
Mas dentro de mim havia uma tempestade.
Eu sabia que aquele momento poderia facilmente se transformar em algo que nenhum dos dois estava preparado para enfrentar.
Por isso, antes de qualquer coisa, precisávamos conversar.
Ele pareceu pensar exatamente a mesma coisa.
Ficou alguns segundos olhando para a água antes de falar.
— Eu preciso te dizer algumas coisas.
Olhei para ele.
— Eu também.
Ele respirou fundo.
— Acho que a gente passou tempo demais imaginando o que o outro pensava.
Fiquei em silêncio.
Era verdade.
Durante quinze anos, cada um havia carregado sua própria versão daquela história.
Eu tinha minhas perguntas.
Ele provavelmente tinha as dele.
Talvez tivéssemos passado anos julgando atitudes sem conhecer as razões por trás delas.
Ele virou o rosto na minha direção.
— Eu não quero que a gente repita os mesmos erros.
Aquelas palavras me fizeram prestar ainda mais atenção.
— Eu também não.
Houve uma pausa.
Ele continuou:
— Eu quero entender o que aconteceu entre nós. Quero saber o que você sentiu. O que eu fiz que te machucou. E também quero te contar o que aconteceu comigo.
Meu coração apertou.
Era exatamente aquilo que eu havia desejado quando tinha dezessete anos.
Uma conversa.
Sem jogos.
Sem orgulho.
Sem pessoas no meio.
Sem fingimentos.
Apenas a verdade.
Olhei para a água novamente.
Durante anos, imaginei como seria aquele reencontro.
Em algumas versões da minha imaginação, tudo acontecia rapidamente.
Em outras, nós simplesmente descobríamos que ainda éramos importantes um para o outro.
Mas agora que o momento finalmente havia chegado, percebi que não queria pressa.
Eu não queria transformar quinze anos em algumas horas.
Havia coisas demais para serem ditas.
Ele então falou baixinho:
— Talvez algumas respostas doam.
Engoli em seco.
— Talvez.
— Mas acho que a gente precisa delas.
Assenti.
Ele sorriu de leve.
— Então vamos começar do começo?
Olhei para ele.
Dessa vez, não desviei.
— Vamos.
E naquele instante compreendi que o verdadeiro reencontro ainda não tinha acontecido.
Nós havíamos nos encontrado na academia.
Havíamos caminhado juntos.
Trocado lembranças.
Rido de coisas simples.
Mas o verdadeiro reencontro seria aquele.
O momento em que dois adultos finalmente teriam coragem de olhar para o passado sem tentar mudá-lo.
Eu estava pronta para ouvir a versão dele.
E, pela primeira vez, também estava pronta para contar a minha.