A Maraíra aguentou a mão dele no pescoço sem tremer, eu tinha jogado a chaleira nele. Ela vai contar pro Arthur o que aconteceu naquela cozinha?
Capítulo 35: A Isca e a Prova de Amor
Pensamento
A Maraíra aguentou a mão dele no pescoço sem tremer, eu tinha jogado a chaleira nele. Ela vai contar pro Arthur o que aconteceu naquela cozinha?
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LIVRO (Querida, Sorria!)
Algumas semanas se passaram, até que o silêncio do bangalô foi quebrado na tarde de terça-feira. Maraíra sabia que a explosão aconteceria a qualquer momento, pois calculara o tempo exato em que o oficial de justiça bateria na porta do escritório de Pedro em São Paulo. O divórcio litigioso não era apenas um pedaço de papel; era uma declaração de guerra. E a bomba embutida naquelas páginas era a exigência de quinze milhões de reais a título de partilha e reparações. As aulas de tiro e a arma seriam apenas um plano de contingência caso não conseguisse manipular Pedro.
Não era uma quantia irreal para o patrimônio que Pedro havia construído, mas ele era avarento e orgulhoso demais para entregar esse valor sem lutar e, muito menos, para suportar a humilhação pública de um divórcio litigioso. Maraíra, na verdade, não queria os quinze milhões; ela queria o desespero. Queria forçá-lo a sair de sua zona de conforto e ir até ela.
Quando a SUV importada parou agressivamente diante da nova porteira de ferro, os seguranças disfarçados de peões — posicionados estrategicamente por Arthur — moveram-se de forma imperceptível, prontos para intervir. O celular de Maraíra apitou. Pela câmera de segurança, ela viu o rosto do ex-marido. Ele tentava parecer calmo, mas esmurrava o volante enquanto aguardava a liberação. Com a frieza de quem move peças em um tabuleiro de xadrez, ela autorizou a entrada e dispensou os seguranças. Tinha a sua pistola automática devidamente municiada na gaveta da mesa de centro, mas sabia que a arma não seria necessária. Pedro era violento, sim, mas acima de tudo era vaidoso. Ela saberia usar essa fraqueza contra ele.
Ele invadiu a varanda branca como um vendaval, apertando a espessa pasta do processo entre os dedos, e entrou na casa sem pedir licença.
— Você enlouqueceu de vez, Maraíra? — esbravejou Pedro, jogando as folhas sobre a mesa rústica de madeira com tanta força que quase derrubou um vaso de flores. — Quinze milhões? De onde você tirou que eu tenho quinze milhões? Você quer me arruinar?
Maraíra, que estava sentada na cadeira de balanço, levantou-se com uma lentidão calculada. Deixando a porta aberta, ela não recuou. Não demonstrou o menor traço de intimidação. Apenas o observou com uma expressão indecifrável e caminhou em direção à cozinha. Ele a seguiu, como um predador irritado.
— É o preço da minha paz, Pedro. Metade de tudo que você construiu enquanto eu trabalhava nos bastidores daquela empresa — respondeu ela, a voz perfeitamente modulada.
Enquanto ela abria a torneira para encher a chaleira de água, Pedro, em um bote rápido, a alcançou. A mão grande e pesada envolveu o pescoço de Maraíra, aplicando um aperto de advertência, prensando-a levemente. Maraíra não gritou. Estranhamente, seu coração pareceu bater mais devagar. Ela já esperava esse tipo de atitude vindo dele. Sem recuar, ela o encarou de volta. Ele a observava de perto, com uma raiva contida, e o hálito quente dele bateu contra o rosto dela, revirando seu estômago em uma repulsa violenta. Contudo, ela não demonstrou emoção. Forçou um sorriso leve e prendeu a respiração para não demonstrar nojo.
— Eu não tenho esse dinheiro! — ele mentiu, a voz carregada de um vitimismo ensaiado. A mão no pescoço dela apertou mais, exigindo submissão, enquanto a outra subia para deslizar pelos cabelos de Maraíra, que já estavam perfeitamente alinhados, encenando um afeto doentio. — O escândalo da Júlia manchou o nome da sua família, os investidores recuaram. Eu mal tenho liquidez para manter a empresa, quanto mais para te pagar essa fortuna. Você está delirando se acha que existe esse dinheiro.
Maraíra sustentou o olhar. Ele era um mentiroso patético. Ela sabia exatamente onde estava cada centavo. Pedro havia desviado milhões para contas secretas no exterior — contas abertas no nome dela, sem que soubesse na época, para blindar a si próprio. Ele não fazia ideia de que a mulher que ele sufocava não apenas descobrira as offshores, como já possuía todas as credenciais de acesso, esperando o momento exato do abate. Ele jurava estar protegendo uma fortuna no Caribe, enquanto chorava miséria no interior.
Percebendo que a agressividade física não a intimidava, o instinto narcisista de Pedro recalculou a rota. O marido furioso desapareceu, dando lugar ao manipulador sedutor. Ele suspirou pesadamente e encurralou-a mais contra a bancada. Colocou uma das pernas entre as dela, prendendo-a contra o mármore frio onde Maraíra apoiava as costas. A carícia tornou-se opressiva. Ele roçou os lábios pelo pescoço dela e sussurrou:
— Eu estive pensando em você todos esses meses, esperando que você voltasse para mim, mas meu orgulho impediu que eu viesse antes. Vamos esquecer tudo o que passamos no último ano e voltar a ser um casal. Eu sinto a sua falta.
Maraíra engoliu a seco, lutando contra a ânsia de vômito que a proximidade física provocava.
— Olha para nós, Maraíra. Olha a que ponto chegamos — continuou ele, os olhos marejando com uma facilidade assustadora, buscando o contato visual profundo, próximo ao rosto dela. — Eu perdi a cabeça quando vi esse processo porque a ideia de te perder para sempre me desespera. A Júlia... ela foi um erro terrível. Uma ilusão nojenta da qual eu me arrependo todos os dias. Mas quando ela te mandou para cá, quando eu vi o que ela fez com você... eu acordei. Eu sempre amei você. Só você.
A atuação era digna de um prêmio. O tom de voz embargado, o toque supostamente arrependido, a postura de redenção. Em um passado não muito distante, Maraíra teria chorado e cedido. Mas a mulher que ele havia quebrado não existia mais. No lugar dela, havia uma mulher pronta para dar o troco.
Ela forçou os próprios olhos a lacrimejarem. Deixou a respiração tremer. Entregou-lhe exatamente a fragilidade dócil que o ego dele exigia, deitando a cabeça contra o peito dele.
— Você me destruiu, Pedro. Deixou que a sua amante me deixasse aqui para morrer — sussurrou ela, a voz embargada por um choro falso. — Como você ousa falar de amor?
— Eu fui um cego! Um covarde! — ele retrucou, afastando-se o suficiente para beijá-la com fervor. O alívio transbordava nas palavras dele; ele tinha certeza absoluta de que a aprisionara na palma da mão novamente. — Cancela esse divórcio, meu amor. Esquece esses advogados. Volta para São Paulo comigo. Vamos recomeçar. Eu prometo ser o marido que você merece. Nós podemos reconstruir tudo.
Quando o estômago de Maraíra ameaçou se rebelar de vez, ela o empurrou com uma delicadeza ensaiada e virou-lhe as costas. A água da torneira continuava correndo; a chaleira já havia transbordado. Ela desligou o registro, retirou o excesso de água calmamente, respirando fundo para dissipar a ânsia de vômito que ameaçava dominá-la após os beijos de Pedro, e levou o recipiente até o fogão. Pedro aproximou-se sorrateiro, colocando as mãos na cintura dela, abraçando-a por trás com uma possessividade enlouquecedora.
Ela se desvencilhou do aperto, afastou-se e cruzou os braços sobre o próprio corpo, encostando-se na extremidade da bancada. Fez uma longa pausa, deixando o silêncio torturá-lo, fingindo chorar e demonstrar fragilidade.
— Eu não consigo simplesmente fechar os olhos e voltar, Pedro. Eu não tenho mais nada. Perdi a minha dignidade, a minha saúde e a minha empresa. Eu não confio na minha própria sombra, muito menos em você.
— Eu faço qualquer coisa para provar que mudei. Qualquer coisa — implorou ele, mergulhando de cabeça na armadilha.
Ela virou-se devagar. Os olhos úmidos, com lágrimas escorrendo pela face, revelavam uma fragilidade estudada. Falou pausadamente, com uma determinação inabalável que ele, em sua arrogância, confundiu com o desespero de uma mulher apaixonada que ainda o amava.
— Você quer que eu cancele o divórcio? Quer provar que me ama e que o seu arrependimento é real? — perguntou ela, a voz baixa e emotiva.
— Diga o que você quer, e eu o farei para provar a você que sou sincero — disse ele com urgência, procurando abraçá-la.
— Transfira as ações da empresa que estão no seu nome para mim. Devolva o controle da construtora — falou Maraíra com determinação, olhando-o nos olhos, a poucos centímetros de seu rosto.
Pedro travou. O oxigênio pareceu evaporar da cozinha.
— Maraíra, as ações... isso é o controle acionário da matriz — disse Pedro, soltando-a e dando alguns passos para trás.
— É a minha empresa, Pedro. A empresa que era do meu pai — rebateu ela, com a voz embargada de emoção. — Você diz que não tem quinze milhões. Diz que me ama e quer recomeçar. Se vamos ser marido e mulher novamente, se o que é seu é meu, o nome no papel não deveria importar, não é? A não ser que as suas promessas sejam vazias.
O cérebro de Pedro trabalhava freneticamente, pesando as opções. Se enfrentasse o divórcio litigioso, os advogados dela fatalmente devassariam suas finanças e poderiam descobrir as contas no exterior. Se entregasse as ações, perderia o poder de voto da empresa no papel. Porém, ele raciocinou, ele ainda possuía a procuração de amplos poderes que ela assinara no passado. Com aquele documento, ele continuaria administrando todos os bens dela. Ceder as ações a traria de volta para casa, para debaixo de seu teto, onde ele a manipularia e controlaria suas decisões diariamente, como sempre fez. E o mais importante: seus milhões no exterior continuariam intocados, garantindo sua verdadeira riqueza.
Na cabeça de Pedro, era um sacrifício temporário e burocrático para um ganho definitivo. Ele estava convencido de que era infinitamente mais inteligente do que a mulher à sua frente.
— Você tem a minha palavra — disse ele, engolindo a seco, forçando um sorriso de redenção. — Se é isso que você precisa para se sentir segura ao meu lado, eu farei a transferência.
— Você tem três dias, Pedro — estipulou Maraíra, fria, ditando o compasso da forca. — O meu advogado vai enviar os termos de transferência de titularidade amanhã de manhã. Assim que eu constatar que as ações estão averbadas no meu nome, nos encontramos em São Paulo para conversar sobre a retirada do processo de divórcio e a minha volta para casa.
Após alguns embates teatrais, ele concordou, exultante por ter "vencido" a negociação, pois para ele, Maraíra sempre fora fácil de controlar e manipular. Despediu-se com beijos e falsas promessas, entrou na SUV e acelerou pela estrada de terra, sentindo-se o dono do mundo. Em três dias a encontraria em São Paulo, e ela voltaria a ser sua mulher submissa.
Da varanda, Maraíra assistiu à poeira baixar. O choro ensaiado evaporou de seu rosto. Ela limpou a boca com o dorso da mão com força, como se quisesse arrancar qualquer vestígio do beijo de Pedro, revelando a expressão de um predador prestes a dar o bote. Pegou o celular e enviou uma mensagem curta para o seu escritório no exterior e outra para o seu advogado em São Paulo, preparando a segunda fase.
A isca havia sido engolida inteira. Em três dias, Pedro não teria nenhuma ação em seu nome, não teria mais direito a absolutamente nada na empresa. E assim que se sentassem naquele restaurante, ele também não teria mais nenhum centavo no exterior. A ruína total tinha data e hora marcadas.
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