No capítulo da saudade eu ri do primo do sorvete com o carrinho ao meio-dia, e aqui ele aparece casando, no meio de uma lista de gente que chega e vai embora. A casa seguindo a vida dela pra todo mundo, e você por dentro em outro lugar. Deve ter sido esquisito ir num casamento da família naquela época, com todo mundo achando que estava tudo normal.
Capitulo 2 - O Silêncio do Medo
Eu cresci aprendendo a conviver com a saudade do meu pai.
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No capítulo da saudade eu ri do primo do sorvete com o carrinho ao meio-dia, e aqui ele aparece casando, no meio de uma lista de gente que chega e vai embora. A casa seguindo a vida dela pra todo mundo, e você por dentro em outro lugar. Deve ter sido esqu
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O Silêncio do Medo
Eu cresci aprendendo a conviver com a saudade do meu pai.
No começo, eu achava que a saudade era apenas aquela vontade de ter alguém por perto. Depois entendi que ela podia morar dentro da gente. Podia aparecer no meio de uma brincadeira, durante uma conversa, em uma fotografia ou simplesmente quando a casa ficava silenciosa demais.
Na escola, ninguém percebia.
Eu brincava.
Eu sorria.
Conversava com meus amigos.
Fazia tudo aquilo que uma criança deveria fazer.
Mas existia uma parte de mim que continuava sentada em algum lugar daquela casa, esperando meu pai voltar.
Às vezes, eu encontrava um cantinho onde pudesse ficar sozinha e chorava.
Não queria que ninguém visse.
Não sabia explicar o tamanho daquela falta.
Até que, um dia, uma amiga me encontrou.
Ela me viu chorando e não perguntou nada.
Apenas sentou ao meu lado.
E ficou.
Talvez ela nunca tenha imaginado o quanto aquele silêncio significou para mim.
Porque, naquele momento, eu não precisava explicar.
Eu só precisava que alguém permanecesse.
Mesmo assim, nunca consegui colocar para fora toda aquela dor.
Eu continuava sendo a irmã que brincava com Valentina.
Continuava sorrindo.
Continuava vivendo.
Mas dentro de mim havia uma saudade que gritava.
E eu ainda não sabia como responder a ela.
Os anos passaram.
Vi meu primo do sorvete se casar.
A vida continuava acontecendo ao nosso redor.
Pessoas cresciam.
Mudavam.
Iam embora.
Outras chegavam.
Até que outro primo veio morar conosco.
A casa ficou ainda mais cheia.
Era uma casa pequena para muitas pessoas. Éramos oito, dividindo espaços que precisavam ser adaptados para caber todo mundo.
Minha mãe e Valentina dormiam em um quarto.
Minha tia e minhas primas, em outro.
E eu dividia um terceiro quarto com meu primo.
Havia um beliche.
Havia uma cortina separando aquele espaço do restante da casa.
Na minha cabeça de criança, aquela cortina parecia uma proteção.
Eu fechava e acreditava que, atrás dela, estava segura.
Aquela casa tinha sido meu lugar de segurança durante toda a minha infância.
Era onde meu pai havia me abraçado.
Onde eu havia brincado com minha irmã.
Onde eu havia tomado sorvete, rido e crescido.
Eu jamais imaginaria que, por causa do que aconteceria depois, passaria anos sentindo medo justamente dentro dela.
Eu tinha doze anos.
Ainda era uma menina.
Ainda existia em mim muita inocência, mesmo depois de tudo o que já havia vivido.
Lembro-me daquela noite.
Eu estava deitada na cama, completamente coberta, tentando dormir.
A casa estava ali, como sempre.
As vozes.
Os sons.
As pessoas.
Até que percebi que algo estava errado.
Meu primo se aproximou.
E aquilo que aconteceu naquela noite mudou a maneira como eu enxergaria o mundo dali em diante.
Eu tive medo.
Um medo que não cabia dentro do meu corpo.
Quis me mexer.
Quis pedir ajuda.
Quis chamar minha mãe.
Quis que alguém entrasse naquele quarto e percebesse que alguma coisa estava acontecendo.
Mas eu não consegui.
Minha voz desapareceu.
Meu corpo parecia não me obedecer.
E o que mais me assustou foi perceber que eu estava completamente sozinha dentro daquele medo.
Aquilo se repetiu durante alguns dias.
E eu continuava sem conseguir contar.
Depois, quando tudo acabava, eu chorava.
Chorava porque não entendia.
Chorava porque tinha medo.
Chorava porque queria voltar a ser a menina que acreditava que sua casa era o lugar mais seguro do mundo.
Mas alguma coisa havia sido quebrada dentro de mim.
Não houve aquilo que, talvez, as pessoas imaginassem quando ouvissem minha história.
Mas houve algo que me marcou profundamente.
Meu medo.
Minha impotência.
Minha inocência ferida.
A sensação de que meu próprio espaço já não era seguro.
E, principalmente, o silêncio.
Durante muito tempo, eu achei que guardar aquilo seria mais fácil.
Eu não sabia como contar.
Não sabia por onde começar.
Não sabia se alguém acreditaria em mim.
E, acima de tudo, não sabia se eu mesma conseguiria suportar colocar aquilo em palavras.
Então eu calei.
Guardei.
Escondi.
E continuei vivendo.
Mas existe uma diferença entre esconder uma dor e deixar de senti-la.
Eu não deixei de sentir.
A dor apenas aprendeu a morar em silêncio.
Durante anos, eu chorava antes de dormir.
Às vezes, nem sabia explicar por quê.
Mas meu corpo lembrava.
Meu coração lembrava.
Aquela menina de doze anos ainda existia dentro de mim, assustada, tentando entender por que aquilo tinha acontecido.
Quando meu primo finalmente saiu de casa, senti algo que não sabia explicar.
Era como se um peso tivesse sido retirado dos meus ombros.
Mas a segurança não voltou imediatamente.
A casa continuava sendo a mesma.
Os cômodos eram os mesmos.
A cortina ainda estava ali.
A cama ainda estava ali.
Mas eu não era mais a mesma.
O lugar onde eu deveria me sentir protegida havia se transformado, dentro de mim, no lugar onde eu menos queria estar.
E foi assim que a menina foi dando lugar ao silêncio do medo.
Um silêncio que ninguém via.
Um silêncio que ninguém ouvia.
Mas que gritava dentro de mim todos os dias.
Eu pensei que levaria aquele segredo comigo para sempre.
Pensei que talvez fosse mais fácil esquecer.
Mas algumas coisas que a gente tenta esquecer continuam esperando o momento em que teremos coragem de olhar para elas.
Aos quinze anos, minha vida começou a tomar outro caminho.
Comecei a frequentar uma igreja evangélica.
No início, eu não sabia exatamente o que estava procurando.
Talvez procurasse respostas.
Talvez procurasse um lugar onde pudesse respirar.
Talvez estivesse procurando Deus sem sequer saber que era isso que meu coração precisava.
E foi ali que comecei a descobrir que não conseguiria continuar fugindo de mim mesma.
Eu queria encontrar Deus.
Mas, para encontrá-Lo, precisei primeiro encarar aquilo que eu havia escondido durante tantos anos.
Precisei olhar para a menina que eu havia abandonado dentro de mim.
E foi doloroso.
Porque, junto com aquela menina, vieram todas as perguntas.
Por que isso aconteceu?
Por que eu?
Por que Deus permitiu?
Onde Ele estava?
E, talvez a pergunta que mais me machucasse:
Onde estava meu pai quando eu mais precisei dele?
Durante muito tempo, eu culpei Deus.
E, em alguns momentos, até meu pai.
Eu sabia que não era justo.
Mas eu era apenas uma menina tentando encontrar alguém para responsabilizar pela dor que não conseguia compreender.
Eu pensava que, se meu pai estivesse aqui, tudo teria sido diferente.
Se ele tivesse voltado.
Se ele tivesse estado ao meu lado.
Talvez aquilo nunca tivesse acontecido.
Eu queria meu pai.
Queria seus braços.
Queria aquela sensação de proteção que eu tinha quando era pequena.
Queria que ele estivesse ali para impedir que alguém ultrapassasse os limites que eu não sabia defender.
E foi somente anos depois que entendi uma coisa:
a ausência do meu pai não era culpa minha.
E o que aconteceu comigo também não era culpa minha.
Eu não tinha provocado.
Eu não tinha permitido.
Eu não tinha escolhido.
Eu era uma criança.
E uma criança nunca deveria carregar a responsabilidade pelas escolhas de um adulto.
Foi na minha adolescência que comecei a aprender que enfrentar a dor não significava ser fraca.
Significava parar de fugir.
Eu precisei falar.
Primeiro com Deus.
Depois comigo mesma.
E, finalmente, com minha mãe.
Dizer em voz alta aquilo que durante tanto tempo existiu apenas dentro de mim foi uma das coisas mais difíceis que já fiz.
Mas também foi o começo de uma liberdade que eu ainda não conhecia.
Eu descobri que guardar silêncio não fazia a dor desaparecer.
Apenas fazia com que eu a carregasse sozinha.
E eu não precisava mais fazer isso.
Naquele momento, não fui curada de tudo.
Não aconteceu de repente.
Não acordei no dia seguinte sem medo, sem lembranças ou sem perguntas.
A cura foi acontecendo aos poucos.
Em pequenos passos.
Em lágrimas.
Em conversas.
Em orações.
Em dias bons e dias difíceis.
Aprendi que perdoar não significava dizer que aquilo não havia sido grave.
Também não significava apagar o passado.
Perdoar, para mim, começou quando deixei de carregar dentro de mim aquilo que não me pertencia.
E talvez tenha sido ali que comecei a entender Deus de uma maneira diferente.
Ele não era o autor daquilo que me feriu.
Ele era aquele que permanecia comigo enquanto eu tentava juntar os pedaços.
E, pela primeira vez, comecei a perceber que talvez minha história não terminasse naquela noite.
Talvez aquela menina de doze anos ainda pudesse voltar a respirar.
Talvez pudesse voltar a se sentir segura.
Talvez pudesse aprender novamente a confiar.
Talvez pudesse crescer sem precisar ser definida pelo que lhe aconteceu.
Eu ainda levaria tempo para entender tudo.
Levaria tempo para perdoar.
Levaria tempo para me perdoar.
Levaria tempo para olhar para minha própria história sem sentir que ela era uma sentença.
Mas foi na adolescência que aprendi uma das lições mais importantes da minha vida:
a cura leva tempo.
E tudo bem.
Porque, às vezes, Deus não cura uma história apagando suas marcas.
Às vezes, Ele cura ensinando-nos a olhar para elas e perceber que, apesar de tudo, ainda estamos aqui.
E eu estava.
Ainda aqui.
Ainda respirando.
Ainda acreditando.
Ainda aprendendo a falar.
E, depois de tantos anos em silêncio, minha voz finalmente começava a nascer.
Thoughts
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PermalinkA amiga que sentou do seu lado na escola sem perguntar nada. Gente assim é rara, e pelo jeito ela nem soube o que fez. Vocês ainda se falam?
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PermalinkA cortina do beliche ficou comigo. Você conta que, na cabeça de criança, fechar aquela cortina era estar segura, e tudo o que vem depois pesa em cima desse pano fino. E a amiga que te achou chorando no cantinho e não perguntou nada, só sentou do lado e ficou: você diz que ela talvez nunca tenha imaginado o quanto aquilo significou, e eu li essa parte duas vezes.
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PermalinkNo capítulo da saudade eu ri do primo do sorvete com o carrinho ao meio-dia, e aqui ele aparece casando, no meio de uma lista de gente que chega e vai embora. A casa seguindo a vida dela pra todo mundo, e você por dentro em outro lugar. Deve ter sido esquisito ir num casamento da família naquela época, com todo mundo achando que estava tudo normal.
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