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Capítulo 18 - O momento que esperei

AllyneMaia
Pública 10 conversas 14 pensamentos 29 votos positivos 0 voto negativo 1 série

O momento que eu esperei

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Conteúdo da publicação

O momento que eu esperei

Depois daquela conversa, fiquei alguns minutos sem dizer nada.

Não porque não tivesse mais o que falar.

Pelo contrário.

Parecia que finalmente havíamos colocado para fora tudo aquilo que durante tantos anos ficou preso dentro de nós.

Eu olhava para ela e tentava enxergar não a garota que conheci aos dezessete anos, mas a mulher que estava sentada diante de mim.

E, pela primeira vez, consegui fazer isso.

Ela não era mais aquela menina.

E eu também não era mais aquele garoto.

Talvez fosse justamente por isso que aquele encontro estivesse sendo tão diferente de tudo o que eu havia imaginado.

Eu não sentia que estávamos tentando recuperar o passado.

Estávamos conhecendo o presente.

E isso me dava uma tranquilidade que eu não esperava sentir.

Durante anos, carreguei algumas perguntas.

Algumas culpas.

Alguns "e se".

Mas naquela noite comecei a perceber que talvez eu não precisasse mais viver preso a eles.

Eu havia cometido erros.

Ela também.

Nós dois havíamos feito escolhas que mudaram nossas vidas.

Mas aquelas escolhas também nos transformaram.

E agora estávamos ali.

Diante um do outro.

Sem máscaras.

Sem jogos.

Sem promessas que nenhum de nós poderia garantir.

Apenas duas pessoas tentando descobrir se ainda havia espaço para uma nova história.

Olhei para ela.

Havia alguma coisa diferente naquele olhar.

Uma tranquilidade que não existia quando chegamos.

Ela parecia mais leve.

E eu também.

Foi então que pensei que talvez pudesse fazer uma coisa que havia imaginado durante muito tempo.

Mas dessa vez não queria simplesmente agir.

Queria perguntar.

— Posso te dar um beijo?

Ela ficou alguns segundos me olhando.

Então assentiu.

Aquele pequeno gesto foi suficiente.

Aproximei-me e a beijei.

Foi breve.

Calmo.

Sem pressa.

E, apesar de durar apenas alguns segundos, para mim carregava muito mais do que aquele momento.

Carregava o garoto que eu fui.

As coisas que não disse.

As oportunidades que perdi.

Os anos que passaram.

As perguntas que ficaram sem resposta.

E, principalmente, carregava a mulher que ela havia se tornado.

Quando nos afastamos, fiquei olhando para ela.

Sorri.

Não porque tivesse finalmente conseguido aquele beijo que um dia imaginei.

Mas porque aquele beijo aconteceu depois da conversa.

Depois da verdade.

Depois de ambos termos escolhido estar ali.

E isso fazia toda a diferença.

Eu não queria transformar aquele momento em uma promessa.

Não queria que ela pensasse que, porque nos beijamos, tudo estava resolvido.

Não estava.

Ainda tínhamos muito para descobrir.

Então falei:

— Eu realmente não quero deixar você ir embora.

Ela sorriu.

— Mas preciso te levar para casa.

Ela me olhou com uma expressão divertida.

Continuei:

— Afinal, ainda temos muito para conhecer um do outro.

Era verdade.

Eu não queria que aquela noite terminasse.

Mas também não queria apressar aquilo que estava começando.

Depois de tantos anos, finalmente tínhamos tempo.

Levantei e estendi a mão para ela.

Quando ela segurou minha mão e se levantou, eu a abracei.

E disse:

— Que a gente possa viver a nossa nova história.

Quando falei aquelas palavras, percebi que elas tinham um significado muito maior do que eu havia imaginado.

Eu não estava prometendo que daria tudo certo.

Não estava prometendo que nunca erraria novamente.

Estava apenas dizendo que, se existisse uma nova história, eu queria que ela fosse construída de maneira diferente.

Com verdade.

Com conversa.

Com respeito.

Com presença.

Voltamos para o carro.

E algo havia mudado.

O silêncio que existia na ida não estava mais ali.

Começamos a conversar.

Rir.

Fazer brincadeiras bobas.

Relembrar coisas.

Perguntar sobre detalhes da vida um do outro.

Eu percebi que estava gostando daquela sensação.

Não da sensação de reencontrar alguém do passado.

Mas da sensação de descobrir uma pessoa novamente.

A estrada até a casa dela parecia mais curta.

Talvez porque eu não estivesse mais pensando no que havia acontecido quinze anos atrás.

Eu estava pensando no que poderia acontecer daqui para frente.

Quando chegamos perto da casa dela, diminui a velocidade.

Não queria que aquele momento terminasse.

Mas sabia que precisava.

E talvez fosse melhor assim.

Se aquilo realmente tivesse algum significado, não precisava acontecer tudo naquela noite.

Haveria amanhã.

E depois de amanhã.

Haveria tempo para conversar.

Tempo para descobrir.

Tempo para perceber se aquilo que sentíamos era apenas saudade ou se poderia se transformar em algo maior.

Parei o carro.

Olhei para ela.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

Eu queria dizer que tinha sido uma das noites mais inesperadas da minha vida.

Queria dizer que ainda estava tentando entender tudo o que estava sentindo.

Mas talvez fosse cedo demais para colocar nome em tudo.

Então apenas sorri.

Ela sorriu de volta.

E naquele instante percebi uma coisa.

Eu não estava levando para casa apenas a lembrança daquele beijo.

Estava levando uma pergunta.

Será que ainda podemos construir alguma coisa juntos?

E, pela primeira vez em quinze anos, eu não queria descobrir a resposta imaginando.

Queria descobrir vivendo.

Devagar.

Sem pressa.

Sem fugir.

Quando ela abriu a porta do carro, fiquei olhando enquanto ela se afastava.

E pensei em tudo o que havia acontecido naquela noite.

O garoto que eu fui teria tentado encontrar uma resposta imediatamente.

O homem que eu era agora sabia que algumas respostas precisavam de tempo.

Liguei o carro.

Antes de ir embora, olhei uma última vez para ela.

E sorri.

Talvez aquela não fosse uma segunda chance.

Talvez fosse algo muito mais raro.

Uma primeira chance de fazer tudo diferente.

Thoughts

  • NunoParreira

    Li o beijo como o centro e, ao reler, dei por mim a ficar antes disso, nos minutos em que ele se cala e olha para ela como uma mulher e já não como a miúda dos dezassete. O silêncio é que ele podia ter falhado, e não falhou.

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  • LuizaFontes

    Quando ele pede licença pra beijar, a velha aqui do sofá resmungou que homem que pergunta já sabe a resposta. Eu achei que ele perguntou porque quinze anos atrás não perguntou nada e foi embora. A gente parou de ler um tempinho pra brigar sobre isso. Ele pediu porque tinha medo do não?

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  • Ovid

    Ele ficar parado no carro vendo ela se afastar e ainda olhar uma última vez antes de arrancar me lembra muito o jeito que a gente se despede de quem ainda vai ver amanhã, mas não tem certeza. Aposto que o capítulo dela dessa mesma noite conta a despedida de um jeito bem diferente. Obrigado por dividir a série aqui, @AllyneMaia!

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  • MargemDaPagina

    Ele promete não prometer.

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