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Capitulo 16 - O homem que preciso ser

AllyneMaia
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Ele ficou alguns segundos olhando para a água.

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EsquinaDaLeitura

O homem falou de virar pai e de errar no mesmo fôlego, e foi aí que eu acreditei nele, maninho. Tô achando que quando a filha souber dessa moça, vai ser ela quem cobra as promessas que ele não fez.

O homem falou de virar pai e de errar no mesmo fôlego, e foi aí que eu acreditei nele, maninho. Tô achando que quando a filha souber dessa moça, vai ser ela quem cobra as promessas que ele não fez.

Conteúdo da publicação

O homem que eu preciso ser

Ele ficou alguns segundos olhando para a água.

Eu conseguia perceber que aquela pergunta que ele mesmo havia feito tinha mexido com ele.

Então respirou fundo e voltou a me olhar.

— Talvez essa seja a pergunta que eu mais precise responder.

Fiquei em silêncio.

Ele continuou:

— Se eu estou preparado para ser o homem que você merece.

Fez uma pausa.

— E a verdade é que eu não sei se posso te dar uma resposta completa hoje.

Aquilo me surpreendeu.

Eu esperava alguma promessa.

Alguma frase bonita.

Mas ele estava sendo sincero.

— Eu poderia dizer que sim. Poderia te prometer que vou fazer tudo diferente, que nunca mais vou te machucar, que vou estar sempre presente...

Ele balançou a cabeça.

— Mas estaria mentindo.

Meu coração apertou.

Não pela resposta.

Mas pela honestidade dela.

— Eu ainda tenho muito para aprender.

Ele respirou fundo.

— Aprendi algumas coisas nesses quinze anos. Errei. Acertei. Construí minha vida. Tornei-me pai. Tive responsabilidades que me fizeram crescer. Mas também percebi que crescer não significa deixar de cometer erros.

Olhou para mim.

— Significa aprender a reconhecê-los.

Fiquei quieta.

— E eu reconheço que errei com você.

Aquelas palavras me atingiram.

— Eu poderia tentar explicar tudo o que aconteceu naquela época. Poderia dizer que era jovem, que tinha medo, que não sabia lidar com o que sentia...

Ele parou.

— Mas nenhuma dessas coisas muda o fato de que eu te machuquei.

Baixei os olhos.

Ele continuou:

— Talvez eu tenha passado muitos anos tentando acreditar que você simplesmente tinha escolhido outra pessoa e que, por isso, eu precisava seguir em frente.

— Era mais fácil pensar assim.

Olhei para ele.

— Mais fácil?

Ele assentiu.

— Muito mais fácil.

Ficou alguns segundos em silêncio.

— Porque se eu admitisse que também tinha sentimentos por você, teria que admitir que parte daquela história acabou por culpa minha.

Aquelas palavras ficaram entre nós.

— Eu também esperei que você desse algum sinal.

Ele sorriu de maneira triste.

— E você provavelmente esperava que eu desse o meu.

Assenti.

— E nós dois ficamos esperando.

— Até que o tempo fez aquilo que nós não tivemos coragem de fazer.

Ele olhou novamente para a água.

— Separou nossas vidas.

Respirou fundo.

— Mas hoje você me disse uma coisa que eu precisava ouvir.

— Que você não quer ser minha segunda opção.

Assenti.

— E você tem razão.

Ele me olhou diretamente.

— Eu não quero que você seja.

Dessa vez, sua voz estava firme.

— Não quero que você precise disputar espaço comigo. Não quero que tenha que implorar por atenção. Não quero que passe novamente pela sensação de não saber qual é o seu lugar.

Ele fez uma pausa.

— Mas também não quero te fazer promessas vazias.

— Se algum dia você estiver comigo, quero que seja porque nós dois escolhemos estar.

— Não por culpa.

— Não por saudade.

— Não porque fomos importantes um para o outro no passado.

— Mas porque conseguimos construir alguma coisa boa no presente.

Meu coração apertou.

Era exatamente o que eu precisava ouvir.

Não uma promessa.

Uma escolha.

— Você falou sobre companheirismo — ele continuou.

— E eu quero isso também.

— Quero poder contar para você quando meu dia foi difícil.

— Quero comemorar minhas conquistas com você.

— Quero conhecer seus sonhos.

— Quero ouvir suas preocupações.

— Quero que você conheça as minhas também.

Ele sorriu.

— E quando discordarmos, quero que a gente converse.

— Não quero desaparecer.

— Não quero ignorar.

— Não quero usar silêncio como castigo.

— Quero aprender a permanecer.

Essa última frase me fez levantar os olhos.

Aprender a permanecer.

Talvez fosse justamente aquilo que eu sempre tivesse desejado dele.

Não alguém perfeito.

Apenas alguém que não fugisse quando as coisas ficassem difíceis.

Ele continuou:

— Você disse que quer ir devagar.

Assenti.

— Eu também.

— Quero que a gente se conheça novamente.

— Quero descobrir quem você é hoje.

— E quero que você descubra quem eu sou.

Ele sorriu.

— Talvez você descubra algumas coisas que não vai gostar.

Eu ri.

— Provavelmente.

— E talvez eu descubra coisas em você que também não vou gostar.

— Faz parte.

— Faz.

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

Então disse:

— Mas se a gente chegar nesse ponto, quero que tenha coragem de me falar.

— E eu quero ter coragem de falar com você.

— Porque dessa vez eu não quero perder você por coisas que poderiam ter sido resolvidas com uma conversa.

O silêncio voltou.

Mas agora era diferente.

Era tranquilo.

Eu não precisava imaginar o que ele estava pensando.

Ele estava dizendo.

E talvez essa fosse a primeira mudança verdadeira entre nós.

Depois de quinze anos, finalmente estávamos aprendendo a conversar.

Ele olhou para mim e perguntou:

— Então podemos começar?

Sorri.

— Começar o quê?

Ele também sorriu.

— A nos conhecer.

Pensei por alguns segundos.

— Acho que nós já começamos.

Ele estendeu a mão.

Não como uma promessa.

Não como uma certeza.

Apenas como um gesto simples.

Como quem dizia:

“Vamos descobrir juntos.”

Olhei para aquela mão.

E dessa vez não pensei na menina de dezessete anos.

Pensei na mulher que eu era agora.

E percebi que, talvez, amar alguém novamente não significasse voltar para onde tudo começou.

Talvez significasse ter coragem de começar de um lugar completamente novo.

Peguei sua mão.

E ficamos ali por alguns segundos.

Sem promessas.

Sem certezas.

Sem saber o que aconteceria amanhã.

Mas com uma certeza pequena e silenciosa:

Dessa vez, nenhum dos dois queria fugir.

Thoughts

  • IsauraBrandao

    Homem que diz que errou sem botar a culpa na idade que tinha é coisa rara, na vida e nas histórias que eu leio. Meu marido demorou trinta anos pra dizer uma frase dessas, e disse olhando pro prato.

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  • HoracioMelo

    Assim já se entende.

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  • EsquinaDaLeitura

    O homem falou de virar pai e de errar no mesmo fôlego, e foi aí que eu acreditei nele, maninho. Tô achando que quando a filha souber dessa moça, vai ser ela quem cobra as promessas que ele não fez.

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  • AlmaTavares

    Ele admitir que era mais fácil acreditar que ela tinha escolhido outra pessoa foi o momento que me ficou. Conheço esse mecanismo de perto, arrumar a história de modo a não ter culpa nela. Ele deu-lhe o nome em duas frases, à beira da água, e ela ouviu sem o interromper.

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  • versodemadrugada

    Ele diz que passou anos preferindo acreditar que ela tinha escolhido outra pessoa. Aposto que a versão dela desse mesmo silêncio é o capítulo que ainda falta, e que vai doer mais que este.

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  • tresPaginas

    Fui na terceira noite e não adormeci, o que cá em casa é notícia. Ele dizer que também esperou um sinal dela foi o que me segurou acordada. A filha dele já apareceu em pessoa nalgum capítulo?

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  • Ovid

    Ele responde à pergunta dela com um não sei em vez de uma promessa, e para mim foi a resposta mais convincente até aqui. Eu fico com a ideia de aprender a permanecer, que é o contrário de tudo o que os dois fizeram aos dezessete. Se o próximo capítulo for ela levando ele pra conhecer a vida que ela tem hoje, eu leio na hora!

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  • poeta93

    Ele prometer que vai aprender a ficar, em vez de prometer que nunca mais erra. Ó, é essa que ele tem que segurar, meu rei, o resto é enfeite.

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