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Capítulo 10.2 — A Promessa

Monarca
Pensamento

Pensamento

Petronilha

Quem tirou o Azrael das correntes nem sabia o nome dele, minha filha, e depois é uma criança de seis anos que grita esse nome ao lado da cama. Aposto que a mulher do salão veio antes da Eriel, uma avó talvez, e quem vai cobrar a promessa é a neta.

Quem tirou o Azrael das correntes nem sabia o nome dele, minha filha, e depois é uma criança de seis anos que grita esse nome ao lado da cama. Aposto que a mulher do salão veio antes da Eriel, uma avó talvez, e quem vai cobrar a promessa é a neta.

Conteúdo da publicação

Continuação da lembrança

O papel se desprendeu com facilidade.

Fácil demais.

Eu esperava alguma resistência, considerando que aquele pequeno objeto aparentemente possuía força suficiente para manter uma pessoa acorrentada.

Entretanto, nada aconteceu.

Pelo menos não imediatamente.

Olhei para o selo entre meus dedos.

— Era só isso?

O jovem não respondeu.

Seus olhos estavam fixos na corrente.

Segui a direção de seu olhar.

Uma das inscrições gravadas no metal havia desaparecido.

— Ah…

Aproximei o papel do rosto.

— Então realmente funciona.

— Você precisa remover os outros — murmurou ele.

— Todos?

— Todos.

Olhei para seu corpo.

Depois para as correntes.

Havia dezenas deles.

— Quem fez isso tinha tempo livre demais.

Comecei a retirar os papéis.

Um após o outro.

Alguns estavam presos às correntes. Outros, diretamente à pele do jovem. Nesses casos, tomei cuidado para não machucá-lo.

Ele permaneceu imóvel.

Às vezes, seus dedos tremiam discretamente.

Em outras, sua respiração parecia falhar.

Não sabia se aquilo era consequência dos selos ou da expectativa de finalmente ser libertado.

Quando removi um dos últimos papéis, ouvi um ruído metálico.

Uma corrente havia afrouxado.

— Olha só!

Ele ergueu lentamente a cabeça.

— Continue…

Retirei outro.

Mais uma corrente perdeu a tensão.

O chão vibrou de maneira quase imperceptível.

Parei.

— Você sentiu isso?

— Sim.

— É normal?

Ele não respondeu imediatamente.

— Continue — repetiu.

Havia urgência em sua voz.

Não gostei daquilo.

Mas faltavam poucos selos.

Arranquei o penúltimo.

Um estalo atravessou o salão.

As inscrições espalhadas pelo chão começaram a perder o brilho que eu sequer havia percebido antes.

O jovem respirou fundo.

Pela primeira vez, seus braços se moveram alguns centímetros.

Restava apenas um papel.

Ele estava preso à corrente que envolvia seu pulso direito.

Segurei sua extremidade.

— Pronto?

O jovem me observou.

Seus olhos vermelhos pareciam conter sentimentos contraditórios.

Esperança.

Receio.

E uma tristeza que eu não conseguia compreender.

— Você ainda pode ir embora — disse.

Sorri.

— Um pouco tarde para isso, não acha?

Arranquei o último selo.

Por um instante, tudo permaneceu imóvel.

Então as correntes caíram.

O som foi ensurdecedor.

Metal atingiu pedra, espalhando ecos por todo o salão.

Instintivamente, levei as mãos aos ouvidos.

Quando o barulho terminou, encontrei o jovem ajoelhado diante de mim.

Livre.

As correntes, antes impossíveis de mover, agora repousavam no chão como objetos comuns.

Aproximei-me de uma delas e a ergui.

Era leve.

Assustadoramente leve.

— Isso daria uma ótima piada…

Ele ergueu os olhos.

— O quê?

Balancei a corrente.

— Lembre-se de pegar o contato do criador disso. Pode ser útil.

O jovem me encarou por alguns segundos.

Então soltou uma risada.

Baixa.

Quase sem força.

Mas uma risada verdadeira.

Fiquei satisfeita.

— Viu? Você deveria fazer isso mais vezes.

Ele tentou se levantar.

Seu corpo, porém, não respondeu como esperava.

Os joelhos vacilaram.

Antes que caísse, segurei seu braço.

— Ei, cuidado!

— Estou… bem.

— Não parece.

Passei um de seus braços sobre meus ombros e o ajudei a ficar de pé.

Era mais alto do que eu imaginara.

Ainda assim, parecia assustadoramente leve.

Sua pele estava fria, os músculos enfraquecidos e a respiração irregular.

Ele esfregou os pulsos.

Marcas profundas permaneciam onde as correntes haviam estado.

Observei aquelas feridas.

— Você precisa de comida.

Ele me olhou.

— Comida…?

— Sim. E água. E um banho.

Olhei para os cabelos brancos que caíam desordenadamente sobre seus ombros.

— Talvez um corte de cabelo também.

Ele piscou.

— Meu cabelo?

— É bonito, mas deve dar um trabalho enorme.

Pela segunda vez, ele sorriu.

Depois, porém, sua expressão se tornou séria.

— Obrigado.

A palavra saiu quase como um sussurro.

Ergui os olhos.

Ele estava me encarando.

Não havia mais desconfiança em seu rosto.

Apenas uma emoção tão intensa que me fez esquecer o que pretendia dizer.

— Obrigado… — repetiu.

Sua voz falhou.

O jovem tentou continuar, mas as palavras não vieram.

Seus dedos se fecharam lentamente.

Percebi que estava tremendo.

Não de frio.

Aproximei-me e o abracei.

Ele ficou rígido.

Por um instante, pareceu não saber o que fazer com os braços.

— Está tudo bem agora — murmurei.

Nenhuma resposta.

Apenas sua respiração irregular.

Passei a mão lentamente por suas costas.

— Você não precisa mais se preocupar.

Eu sabia que não poderia garantir aquilo.

Não conhecia sua história.

Não sabia quem o havia prendido.

Muito menos compreendia as consequências de libertar alguém capaz de ferir um deus.

Ainda assim, naquele momento, ele precisava ouvir aquelas palavras.

Talvez eu também precisasse dizê-las.

Senti seus dedos segurarem delicadamente minhas roupas.

Seu rosto se inclinou até repousar próximo ao meu ombro.

E então sua respiração falhou.

Uma vez.

Depois outra.

Ele tentava esconder o choro.

Não consegui evitar um aperto no peito.

Quanto tempo alguém precisaria passar sozinho para reagir daquela maneira a um simples abraço?

Não perguntei.

Apenas continuei ali.

O tempo pareceu desacelerar.

Por alguns instantes, o enorme salão, as correntes e os símbolos deixaram de importar.

Havia apenas nós dois.

Quando finalmente se afastou, seus olhos estavam úmidos.

Ele desviou o rosto.

Fingi não perceber.

— Certo! — anunciei, tentando recuperar a naturalidade. — Vamos embora.

Ele me encarou.

— Embora?

— Para minha casa.

— Sua… casa?

— Sim. É um lugar muito melhor do que este.

Olhei ao redor.

— O que, convenhamos, não é exatamente difícil.

O jovem permaneceu em silêncio.

— Você pode descansar, comer alguma coisa e me contar sua história quando estiver pronto.

— Não sabe quem eu sou.

— Verdade.

— Não sabe o que fiz.

— Também é verdade.

— E ainda assim pretende me levar com você?

Coloquei as mãos na cintura.

— Você sempre faz tantas perguntas?

Ele pareceu surpreso.

Depois abaixou a cabeça, sorrindo discretamente.

— Não.

— Ótimo. Então podemos começar com algo simples.

Aproximei-me e ajeitei uma mecha de seus cabelos.

— Qual é seu nome?

Ele ergueu os olhos.

— Meu… nome?

— Sim. Eu já conversei com você, libertei você e até ofereci minha casa. Acho justo saber como devo chamá-lo.

O jovem ficou pensativo.

Por um momento, sua expressão pareceu distante.

Como se aquela pergunta o obrigasse a recordar algo que havia permanecido enterrado durante muito tempo.

— Nome… — repetiu.

Esperei pacientemente.

Ele levou uma das mãos ao peito.

— Sim… meu nome…

Seus lábios começaram a se mover.

— Meu nome é—

BOOOOM!

Um estrondo colossal atravessou o salão.

O chão tremeu sob nossos pés.

Instintivamente, segurei o braço do jovem.

— O que foi isso?!

Ele não respondeu.

Seus olhos estavam fixos na entrada.

O sorriso havia desaparecido completamente.

Outro estrondo ecoou.

Dessa vez, mais próximo.

Pequenos fragmentos de pedra começaram a cair do teto.

As tochas oscilaram violentamente.

O jovem apertou minha mão.

— Precisamos sair daqui.

Sua voz havia mudado.

Já não parecia a de alguém exausto e indefeso.

Havia uma firmeza inesperada nela.

— Agora.

Olhei para a porta distante.

— Você consegue correr?

Ele tentou dar um passo.

Vacilou.

Segurei-o antes que caísse.

— Certo. Péssima pergunta.

Passei novamente seu braço sobre meus ombros.

— Vamos juntos.

— Você precisa me deixar.

Parei.

— O quê?

— Se ficar comigo…

— Nem termine essa frase.

Ele me encarou.

— Você não entende o que está acontecendo.

— Então me explique enquanto caminhamos.

Outro tremor sacudiu o salão.

Dessa vez, uma das colunas apresentou uma rachadura.

O jovem olhou para o teto.

Depois para mim.

— Você realmente não pretende me abandonar?

— Não.

A resposta saiu sem hesitação.

Ele permaneceu imóvel por uma fração de segundo.

Então apertou minha mão.

— Nesse caso…

Seus olhos vermelhos brilharam discretamente.

— Eu vou proteger você.

Sorri.

— Está vendo? Eu sabia que podia confiar em você.

Começamos a caminhar.

As correntes espalhadas pelo chão estremeceram.

Símbolos nas paredes se apagavam um após o outro, enquanto um ruído profundo parecia nascer das próprias fundações do labirinto.

Não sabia o que nos aguardava do lado de fora.

Talvez a criatura responsável por aprisioná-lo.

Talvez algo ainda pior.

Mas uma coisa era certa.

Eu não o deixaria naquele lugar.

E, pela maneira como ele segurava minha mão, tive a impressão de que também não pretendia me deixar para trás.

O salão voltou a tremer.

Uma luz intensa surgiu ao longe.

Fechei os olhos instintivamente.

E então…

— Azrael!!

Abri os olhos com dificuldade.

Por alguns instantes, tudo pareceu distante.

O salão.

As correntes.

Aquela mulher.

Sua voz.

Seu sorriso.

A imagem desapareceu lentamente, substituída pelo teto familiar acima de mim.

Pisquei algumas vezes.

— Azrael!

Virei o rosto na direção da voz.

Uma criança de aproximadamente seis anos estava ao meu lado, observando-me com evidente impaciência.

Seus lábios se moviam, mas demorei alguns segundos para compreender o que dizia.

Meu corpo estava imóvel.

Não por correntes.

Apenas pela estranha sensação que permanecia depois de despertar.

Levei uma das mãos ao rosto.

A lembrança ainda parecia viva.

O toque daquela mulher.

O calor de seu abraço.

E a promessa que eu fizera.

Fechei os olhos por um breve instante.

Seria… apenas um sonho?

Ou uma lembrança que eu jamais conseguira esquecer?


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  • Petronilha

    Quem tirou o Azrael das correntes nem sabia o nome dele, minha filha, e depois é uma criança de seis anos que grita esse nome ao lado da cama. Aposto que a mulher do salão veio antes da Eriel, uma avó talvez, e quem vai cobrar a promessa é a neta.

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