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Capítulo 1 — O Gato de Olhos Prateados

SamanthaBruxa

Conteúdo da publicação

A chuva começou pouco depois das onze da noite.

Helena estava sentada perto da janela, observando as gotas escorrerem pelo vidro enquanto os trovões iluminavam o quarto por alguns segundos.

Ela não conseguia dormir.

Havia alguma coisa naquela noite que a deixava inquieta.

Não era medo.

Era uma sensação estranha de que alguém estava esperando por ela.

Helena fechou os olhos e tentou ignorar aquela impressão.

Então ouviu um miado.

— Miau...

Ela abriu os olhos.

Outro miado veio da rua.

Helena se levantou e caminhou até a janela.

Do outro lado do vidro havia um gato preto.

Completamente imóvel.

Ele estava sentado no meio da calçada, debaixo da chuva, olhando diretamente para ela.

Mas havia algo diferente naquele animal.

Seus olhos eram prateados.

Helena franziu a testa.

— O que você está fazendo aí?

O gato não se mexeu.

Um relâmpago iluminou a rua.

Por um instante, Helena teve a impressão de que o gato estava sorrindo.

Ela afastou o pensamento.

— Estou ficando maluca...

Helena pegou um casaco e saiu de casa.

Quando chegou à calçada, o gato já estava alguns metros adiante.

Ele olhou para trás.

Depois caminhou.

Helena ficou parada.

— Ei! Volta aqui!

O gato continuou andando.

Ela o seguiu.

Não sabia por quê.

Talvez fosse apenas curiosidade.

Ou talvez alguma coisa dentro dela soubesse que aquela noite seria diferente de todas as outras.

As ruas ficaram cada vez mais vazias.

As casas desapareceram.

Depois vieram as árvores.

Helena parou.

— Espera...

Ela olhou para trás.

A cidade havia desaparecido completamente.

À sua frente havia apenas uma estrada estreita cercada por uma floresta escura.

O gato estava parado no início do caminho.

— Como eu vim parar aqui?

Ele miou.

Helena respirou fundo.

— Você realmente quer que eu te siga, não é?

O gato virou-se e entrou na floresta.

Helena o acompanhou.

A cada passo, o som da chuva parecia ficar mais distante.

As árvores eram enormes e antigas. Algumas tinham marcas estranhas no tronco, semelhantes a luas crescentes.

Helena passou a mão por uma delas.

No instante em que tocou a marca, uma dor atravessou sua cabeça.

Ela viu uma mulher.

Vestido branco.

Cabelos longos.

Sangue escorrendo pelo rosto.

A mulher estava parada diante de uma enorme porta de madeira.

E atrás dela...

Havia sete luas no céu.

Helena soltou a árvore.

— Ah!

A visão desapareceu.

Ela caiu de joelhos.

O gato estava olhando para ela.

Seus olhos prateados pareciam ainda mais brilhantes.

— Quem é você?

O gato finalmente respondeu.

— Nox.

Helena congelou.

Seu coração disparou.

Ela olhou ao redor.

— Você... falou?

Nox inclinou a cabeça.

— Finalmente você voltou.

Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo.

— Voltou?

O gato começou a caminhar novamente.

— Espere!

Helena se levantou e correu atrás dele.

— O que você quis dizer com "voltei"?

Nox não respondeu.

Depois de alguns minutos, as árvores começaram a desaparecer.

Helena parou.

Diante dela havia uma enorme mansão.

Era antiga.

Muito antiga.

As paredes estavam cobertas por trepadeiras. As janelas eram altas e estreitas. O telhado parecia prestes a desabar.

Mas havia algo ainda mais estranho.

Todas as janelas estavam iluminadas.

Como se alguém estivesse esperando por ela.

Helena olhou para Nox.

— Quem mora aqui?

Nox encarou a mansão.

— As sete.

— Sete quem?

O gato respondeu:

— As Sete Luas.

Um trovão explodiu no céu.

A porta principal da mansão se abriu sozinha.

Devagar.

Creeeeec...

Helena ficou imóvel.

— Eu acho que isso é o momento em que uma pessoa normal deveria ir embora.

Nox passou por ela.

— Você nunca foi uma pessoa normal.

Helena arregalou os olhos.

— O quê?

Mas Nox já havia entrado.

Ela respirou fundo.

E entrou atrás dele.

O interior da mansão era ainda mais assustador.

Havia um enorme corredor coberto por retratos antigos.

Helena caminhou lentamente.

Então parou.

Um retrato chamou sua atenção.

Era o de uma mulher jovem.

Cabelos escuros.

Olhos claros.

E uma pequena lua crescente desenhada no pescoço.

Helena se aproximou.

Seu coração começou a bater mais rápido.

Ela conhecia aquele rosto.

Não sabia de onde.

Mas conhecia.

— Nox...

O gato estava parado alguns metros atrás dela.

— Quem é essa mulher?

Silêncio.

Helena olhou novamente para o retrato.

A mulher pintada parecia estar olhando diretamente para ela.

Então aconteceu.

Os olhos do retrato se moveram.

Helena deu um passo para trás.

— Meu Deus...

A mulher sorriu.

E uma voz sussurrou dentro da cabeça de Helena:

— Você demorou.

Helena ficou sem respirar.

— Quem é você?

A mulher respondeu:

— Amara. A Primeira Lua.

As luzes da mansão se apagaram.

Tudo ficou escuro.

Então, no final do corredor, uma segunda voz surgiu.

Mais baixa.

Mais fria.

— Ela não deveria ter voltado.

Helena virou-se.

Uma sombra estava parada no corredor.

Alta.

Humana.

Mas sem rosto.

Nox mostrou os dentes.

Pela primeira vez, Helena percebeu que o gato estava assustado.

A sombra deu um passo.

Depois outro.

E uma terceira voz ecoou pela mansão:

— A Sétima Lua despertou.

Helena sentiu uma pressão na cabeça.

O chão pareceu desaparecer.

Antes de desmaiar, ela viu algo pela última vez.

No céu, através da janela quebrada da mansão...

Havia uma lua.

Depois outra.

Depois outra.

Sete luas brilhavam sobre a floresta.

E uma delas estava coberta de sangue.

Naquele instante, Helena entendeu uma coisa.

Ela não havia encontrado a mansão por acaso.

A mansão estava esperando por ela.

Thoughts

  • Oliviamar

    A Amara a sorrir no retrato e a dizer que a Helena demorou, a mim soou mais a cobrança do que a boas-vindas.

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  • Simao

    Gato preto parado no meio da calçada à chuva, a olhar para a janela dela, e eu já estava do lado da Helena a fechar a cortina. Aposto que aquela sombra sem rosto no fim do corredor é alguém que ela já conheceu, e que o medo do Nox vem precisamente daí.

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