A noite havia se tornado silenciosa novamente, mas ninguém naquele acampamento compreendia o que havia acontecido e nem acreditava que o perigo tivesse passado. As criaturas estavam mortas, os feridos haviam sido tratados e as carroças permaneciam firmes, porém, existia uma tensão impossível de ignorar, como se a própria floresta estivesse esperando que todos baixassem a guarda para voltar a se mover.
Os cavalos ainda se agitavam de tempos em tempos, batendo os cascos contra o chão, enquanto alguns comerciantes permaneciam acordados em pequenos grupos, cochichando sobre o ataque. Ninguém queria admitir em voz alta, mas todos haviam chegado à mesma conclusão: aquilo não havia sido um ataque comum.
Daiquiri continuava sentado perto da fogueira quando Marina se aproximou devagar, ela não trazia o grimório nas mãos dessa vez, apenas segurava uma pequena pedra azulada entre os dedos, uma espécie de cristal que brilhava sempre que ela passava o polegar sobre sua superfície. Sentou-se ao lado dele, e por alguns instantes os dois ficaram em silêncio, observando as brasas.
— Eu pesquisei sobre a palavra — ela disse sem o encarar.
— Morvath? — Ele virou o rosto e viu ela assentir.
— Não encontrei muita coisa, mas encontrei o suficiente para entender porque aquela criatura olhou para você e te chamou daquilo — Marina pensou internamente se deveria continuar dizendo aquelas coisas para Daiquiri, mas decidiu prosseguir. — Morvath não é um raça ou uma criatura específica, ela vem de alguns registros antigos, na verdade alguns sugerem que ela é uma classificação. O significado mais próximo seria... "Vastidão da Morte".
— Parece acolhedor. — Daiquiri sentiu um arrepio.
— Eu não estou tentando assustador você — Ela olhou para ele e viu que o mesmo havia voltado a encarar as brasas da fogueira. — A palavra aparece em textos anteriores à fundação de Valdora. — Ela puxou sua bolsa e a abriu, emanando uma leve luz verde, ela colocou sua mão e enfiou até quase a altura de seu ombro, o que era fisicamente impossível para uma bolsa tão pequena, e retirou dele um livro velho e de páginas amareladas pelo tempo. — Morvath é mencionada em relatos sobre guerras muito antigas, quando diferentes povos ainda não tinham sequer os mesmos nomes que usam hoje, o problema é que os textos são contraditórios. — Abriu o livro e começou a folheá-lo.
— Continue.
— Em alguns, Morvath é descrito como uma entidade ancestral, mas em outros, como uma força vital do planeta, mas nesse livro aqui, ele é descrito como uma pessoa.
— E como você tem acesso a ess— Daiquiri não havia percebido que Marina estava com um enorme livro em suas mãos. — Espera, você trouxe como? Eu nem vi você carregando ele.
— Ah, eu carrego aqui. — Ela mostrou sua bolsa para e a abriu, não era possível ver o fundo da bolsa, apenas o brilho verde que ela emanava. — Foi um artefato que meu pai encontrou enquanto ainda era aventureiro, eu consigo guardar qualquer coisa aqui dentro, mas somente coisas sem vida, então peguei todos os livros da biblioteca da minha mãe e vou lendo sempre que posso.
— Entendi — ele não havia entendido. — Você disse que ele é descrito como—
— Uma pessoa, sim — ela o interrompeu. — Um ser capaz de carregar um nome chamado de "Vastidão da Morte", eu ainda não sei exatamente o que isso significa, mas pelo visto seu pai sabia e os meus também.
— A capitã também, eles faziam parte da mesma equipe — Daiquiri colocou a mão sobre o rosto. — E eu não sei de nada.
— Olha — Marina demorou um pouco antes de responder. — Talvez seu pai tenha passado a vida tentando manter você longe disso.
— Ou talvez tenha passado a vida mentindo para mim.
Ela não respondeu imediatamente, Marina tinha o hábito de pensar demais antes de falar, e Daiquiri já havia aprendido que, quando ela demorava, quase sempre era porque estava procurando uma resposta que não fosse apenas confortável.
— As duas coisas podem ser falsas ou verdadeira ao mesmo tempo — disse ela finalmente. — Seu pai pode ter escondido algo de você porque acreditava estar protegendo você, isso não torna a mentira menos importante, mas também não significa que ele tenha feito isso por crueldade.
— Você fala como se conhecesse meu pai.
— Não conheço, mas conheço o filho dele! E sei que está tentando decidir agora se deve odiar um homem que não está mais vivo para se defender das acusações.
— Sabe, Marina. Você deveria falar mais — ele soltou uma risada sem humor. — Quando você fala, consegue ser assustadoramente precisa.
— Na verdade, eu prefiro quando as coisas são simples demais para resolver — ela olhou novamente para a floresta.
— Assustador, vindo de alguém que estuda magia antiga e não tira um dia de folga da leitura.
Antes que Daiquiri pudesse terminar, um ruído pesado veio do outro lado do acampamento, algo havia caído. Os dois se levantaram ao mesmo tempo e quando chegaram ao local, encontraram Alexander ajoelhado ao lado de um dos corpos das criaturas. As escamas azuladas que cobriam o rosto e os braços do guerreiro brilhavam sob a luz da lua, e seus olhos estreitos acompanhavam atentamente os ferimentos encontrados no monstros. Por ser um homem-lagarto, Alexander sempre foi tratado como alguém impulso e extremamente agressivo, porém, naquele momento, ele não demonstrava nenhuma agressiva, apenas seguia concentrado.
— Eu gostaria de registrar oficialmente que acho uma péssima ideia ficar examinando cadáveres de monstros no meio da noite. — João estava atrás dele, segurando uma tocha.
— Então vá dormir — Alexander grunhiu.
— Eu também gostaria de registrar que gosto menos ainda da ideia de dormir enquanto você quer ficar examinando cadáveres de monstro no meio da noite.
Alexander ergueu lentamente a cabeça e encarou o garoto, seu rosto reptiliano permanecia inexpressivo, mas João sabia reconhecer quando aquela expressão significava impaciência.
— Seu cérebro funciona desse jeito o tempo todo? — Alexander baforou um ar gelado.
— Nem sempre, às vezes funciona pior, mas depende do momento. — João brincou enquanto desviava de um tapa dado por Alexander.
— Encontrou alguma coisa? — Marina se abaixou do outro lado do corpo.
— Sim. — Ele apontou para o peito da criatura maior. — Esse aqui foi morto pelo João e pelo Daiquiri, mas parece que ele já estava morto antes disso — ele passou uma garra pela carne escura que havia ficado exposta. — Não há sangue suficiente, o coração praticamente já não batia antes do golpe final e os músculos estão rígidos demais, e veja isso.
Marina pegou a tocha da mão de João e aproximou da criatura, havia uma marca escura no pescoço, quase como uma cicatriz que atravessava a pele de um lado ao outro, não parecia um ferimento de arma, era mais parecida com uma queimadura antiga
— Magia? — Ela perguntou.
— Não sei — Alexander balançou a cabeça.
— Primeiro monstros estranhos atacando a caravana, depois uma palavra misteriosa sendo dita pro filho do herói. — João agachou. — E agora temos cadáveres com marcas que ninguém compreende, eu daria uma nota quatro para a viagem até agora.
— A criatura falou: Morvath — Daiquiri soltou.
— Acho que precisamos voltar para Veldora. — Disse Alexander e todos os três olharam para ele no mesmo instante com uma reação de surpresa. — O que foi?
— Você realmente falou isso? — João brincou.
— Não gosto quando as coisas que eu não entendo aparecem do nada e tentam matar o grupo.
— Tecnicamente, coisas que você entende aparecem do nada tentando matar o grupo e mesmo assim você nunca recua de uma possível batalha. — João se aproximou e colocou a mão sobre o ombro de Alexander. — Às vezes você é inexplicável.
— Não, não vamos voltar — Marina permaneceu olhando para o corpo. — Não vamos mesmo.
— Por quê? — Alexander a encarou.
— Porque isso não começou agora, a capitã Serah disse que os ataques já haviam acontecido antes, e meu pai... — Daiquiri parou por um instante, corrigindo-se. — O Ezekiel já havia pedido para ninguém usar magia perto da floresta, se voltarmos agora, vamos perder a única oportunidade de descobrir o por quê.
— Hm — Alexander não pareceu convencido. — Descobrir alguma coisa não vale a vida de todos.
— Concordo — respondeu Marina. — Por isso devemos seguir até Arken, mas não pela estrada principal, existe uma rota antiga passando ao sul da floresta. É mais longa, porém evita a área onde esses animais estão se escondendo.
— Quanto tempo? — Alexander questionou rapidamente.
— Um dia a mais.
— E os mantimentos?
— Temos mantimentos suficientes para realizar esse desvio.
— E a caravana?
— Pode acompanhar, a estrada não é tão esburacada, então as carroças não devem ter tanto problema.
— E você garoto? Concorda? — Alexander virou pra Daiquiri e viu ele assentindo. — Então vamos.
— Só isso? — João arregalou os olhos. — Pelos deuses, Alexander! Você não vai discutir? Não vai dizer que a ideia é ruim? Não vai ameaçar abandonar todo mundo?
— Não.
— Eu estou começando a ficar com medo desse plano.
Na manhã seguinte, a caravana deixou a estrada principal, o céu estava coberto por nuvens espessas, e uma névoa baixa se espalhava sobre a relva. A floresta permanecia ao norte, gigantesca e escura, enquanto a nova rota levava o grupo por uma região de colinas rochosas onde quase nenhuma construção podia ser vista, o ataque da noite anterior havia deixados todos mais cautelosos, mas pouco a pouco o medo deu lugar ao cansaço.
Foi durante a segunda hora da caminhada que Daiquiri percebeu que Alexander estava tentando acompanhar o ritmo dele.
— Você pode ir na frente — disse.
— Eu sei.
— Então por que está reduzindo a velocidade dos seus passos?
— Porque ontem aquela criatura chamou você de alguma coisa que ainda não sabemos o que pode ser. — Alexander olhou pra ele. — Se outra criatura aparecer, eu prefiro estar perto pra garantir que vamos perguntar do que se trata.
Daiquiri ficou alguns segundos em silêncio.
— Por acaso está achando que eu sou perigoso?
— Ainda não.
— "Ainda" é uma palavra reconfortante vinda de alguém como você — Daiquiri sorriu
— Você prefere que eu minta? — Alexander notou que Daiquiri não o respondeu e continuou por alguns passos antes de acrescentar. — Você não é responsável pelo que a criatura disse, mas isso não significa que devemos ignorá-la.
— Às vezes eu esqueço que existe cérebro nessa montanha de músculos. — Daiquiri assentiu e viu Alexander mostrar os dentes, num sorriso que em um homem-lagarto parecia mais uma ameaça.
— E às vezes eu esqueço que você é engraçado, mas não se acostume com meus elogios — para Alexander, ser engraçado era um elogio.
Mais atrás, João estava conversando com Marina, ambos estando caminhando a curtos passos, observando como Alexander iria interagir com Daiquiri, João seguia com o arco em mãos e Marina estava com seu grimório aberto, ambos estavam preparados para qualquer movimento hostil.
— Você percebeu que eles parecem estar se dando bem? Isso tá me incomodando — João disse.
— E isso é um problema?
— Sim, se os dois começarem a se dar bem, eu perderei a única pessoa que consegue aguentar meu bom humor, aí vou ter que voltar a ser assim com você, irmã.
— Então eu espero que eles comecem a brigar logo — ela quase sorriu.
A estrada continuou por algumas horas até que a paisagem começou a mudar. As colinas deram lugar a construções antigas de pedra, quase completamente tomadas por raízes e musgo, eram ruínas de uma estrada muito antiga, com pilares quebrados dos dois lados e símbolos gravados em algumas pedras, Marina correu à frente da caravana e a fez parar.
Ela se aproximou de um dos pilares e passou os dedos sobre as inscrições.
— Tem alguma coisa errada, isso não deveria estar aqui.
— Aconteceu alguma coisa, irmã? — João se aproximou. — O que é isso?
— A escrita revela ser uma marca de fronteira — Marina limpou a pedra com a mão e notou um símbolo circular dividido por uma linha vertical e abaixo dele, letras de uma língua que nenhum dos outros reconhecia. — Parece ser de um reino antigo.
— Excelente, agora estamos andando por um reino fantasma, por acaso não sabiam dele quando optaram vir por aqui? — João colocou as mãos na cintura.
— Você prefere continuar na estrada? Prefiro me deparar com fantasmas que não podem nos tocar, do que ser ataca por monstros selvagens.
— Quando você pontua desse jeito, me faz parecer um grande idiota.
Marina ignorou a piada e começou a investigar os pilares, enquanto Daiquiri e Alexander se aproximavam.
— Essa região faz parte do antigo território de Aster, território dos homens-fera antes da Grande União das Nações — disse Alexander. — Só não entendo por que uma fronteira antiga estaria tão longe da atual.
— Talvez seja porque as fronteiras sempre mudam após grandes guerras. — Daiquiri se aproximou da inscrição. — Reinos derrotados perdem território, será que não pode ser isso? Estamos em um território de um reino já extinto, essas inscrições não deveriam estar pela estrada. Por que estão na estrada?
— Que desenho maneiro! — João apontou para a parte inferior do pilar e havia outro símbolo, era quase idêntico ao primeiro, mas cercado por linhas semelhantes a chamas.
Marina ficou pálida — Eu já vi isso em um dos livros do seu pai — e olhou para Daiquiri.
— Você lembra qual? — Ele sentiu o coração acelerar.
— Eu não lembro do livro inteiro, eu lembro vagamente do símbolo, Ezekiel desenhou isso várias vezes nas margens das páginas, eu nunca soube o que significava — ela se aproximou e tocou o símbolo. — Eu nunca mencionei porque achei que era só alguma brincadeira dele.
Ela olhou para Daiquiri como se estivesse prestes a falar alguma coisa, mas não falou, em vez disso virou-se para a caravana e correu.
— Precisamos continuar!
Dessa vez, até João percebeu que alguma coisa havia mudado na expressão da irmã.
A viagem prosseguiu até o fim da tarde, com Marina sentada atrás de uma das carroças enquanto lia diversos livros tirados de sua bolsa mágica. O grupo montou acampamento próximo às ruínas de uma pequena torre. A construção provavelmente servira como posto de observação séculos atrás, mas restavam apenas três paredes e parte do teto, era melhor do que ficar completamente exposto.
Depois que os comerciantes se instalaram, Marina chamou os três para dentro da ruína.
— Nós precisamos conversar — Ela dizia repetidamente.
— Sabe irmã, eu gostaria de registrar que essa frase no começo de uma conversa nunca é boa, me faz questionar se fiz algo errado durante a minha vida inteira — João olhou ao redor esperando ver algum sorriso, mas todos estavam com uma expressão séria.
Marina abriu sua bolsa mágica, puxou um mapa antigo e o abriu sobre uma pedra.
— As inscrições da estrada, o símbolo, os ataques e o que a criatura disse ontem estão relacionados e eu tenho certeza disso!
— E como sabe disso? — Alexander inclinou-se para a frente.
— Porque eu encontrei o mesmo símbolo nos registros de Ezekiel — ela olhou rapidamente para Daiquiri, mas ele estava olhando o mapa, então continuou. — O registro dele não fala sobre a Grande Guerra, o registro dele fala sobre alguma coisa chamada: Morvath.
O nome parece ter ficado pairando entre os quatro, por alguns segundos, ninguém disse palavra alguma.
— Nas páginas marcadas pelo desenho do Ezekiel, se pegarmos a primeira palavra e a última, invertermos começando pela última e formos unindo com as próximas, teremos as anotações criptografadas por ele — continuou ela. — Morvath aparece como uma força associada à destruição de civilizações inteiras. O termo "Vastidão da Morte" não é apenas uma tradução, é o significado literal de um título dado àquilo que, segundo as anotações, poderia consumir a energia vital de um território inteiro, eu não entendi se isso simplesmente pode matar pessoas, mas entendi que pode deixar uma região sem vida, sem magia e sem nada que possa voltar a crescer.
— Uau, você é realmente uma traça de livros — João perdeu o sorriso. — E isso é bem pior do que eu esperava.
— Sim — Marina assentiu. — Em determinado período, alguns povos acreditaram que poderia controlar essa força, então criaram rituais para concentrá-la em indivíduos.
— Indivíduos? — Daiquiri sentiu um arrepio. — No plural?
— Sim — ela respondeu.
— Então quer dizer, que isso poderia ser aprisionado dentro de seres inteligentes como eu e você, Marina? — Alexander parecia sério, por isso não notou o rosto de João mudando ao notar que ele se achava inteligente.
— Não exatamente, eu ainda não tenho certeza do que isso significa, não sei se a palavra que a criatura está relacionada a você, Daiquiri, ou a alguma outra coisa.
— Mas ela olhou pra mim.
— Eu sei.
— Então não é coincidência — Daiquiri se afastou do mapa.
— Ei amigo — João se aproximou. — Calma, você não precisa tomar decisões precipitadas, não importa o que seu pai sabia, ou escondia, nós vamos descobrir.
— Você fala como se isso fosse simples — Daiquiri se afastou dele.
— Não é simples — Alexander cruzou os braços. — Eu só acho melhor descobrir com três pessoas ao seu lado do que sair e descobrir sozinho, nós somos quatro, isso basta.
Marina recolheu o mapa.
— Amanhã vamos continuar até Arken, lá existe uma biblioteca antiga ligada ao Templo Central, se houver registros sobre Morvath que ainda não tenham sido destruídos, estarão lá — ela viu a expressão cabisbaixa de Daiquiri. — Se não houver vamos procurar em outro lugar, tá bom?
Daiquiri olhou para os três, ele não sabia o que existia depois daquela estrada, não sabia por que seu pai escondera aquela palavra durante tantos anos, não sabia por que criaturas desconhecidas estavam aparecendo na estra, nem por que uma delas havia o olhado como se finalmente tivesse encontrado alguém que procurava há muito tempo. A única coisa que ele tinha certeza, era de que não estava mais sozinho.
Naquela noite, enquanto os outros dormiam, ele saiu das ruínas e caminhou alguns metros até a entrada de um grande salão, o vento estava frio, pelas janelas a floresta podia ser vista ao longe, escura contra o céu sem estrelas. Ele se lembrou da voz de seu pai que ouviu na noite anterior e ficou esperando que ela retornasse, mas não retornou.
Porém, o que apareceu foi outra coisa, uma figura encostada distante, era impossível enxergar detalhes daquela distância, mas havia algo naquela silhueta que parecia familiar: aparentava ser um homem pálido, alta, magro e com vestes negras e rasgadas. Daiquiri deu um passo à frente e a figura não se moveu, então, lentamente, ergueu uma das mãos e apontou diretamente para ele.
Daiquiri levou a mão à espada, no instante seguinte, a figura desapareceu, mas ele permaneceu imóvel por alguns minutos, tentando entender o que acabara de acontecer, olhou ao redor buscando alguma movimentação, mas não havia nada.
Quando voltou para o acampamento, encontrou Marina acordada, ela estava encostada em uma das paredes, observando-o.
— Você viu alguma coisa, não é? — disse ela, não era bem uma pergunta, era uma afirmação.
— Sim. — ele hesitou. — Parecia ser uma pessoa.
— Onde?
Ele apontou para as ruínas de um grande salão, ela caminhou até a entrada, mas não encontrou nada.
— Você conseguiu ver o rosto? Parecia humano?
— Parecia — Ele disse, e notou que ela permaneceu em silêncio. — O que foi?
— Nada — Ela olhou para o céu.
Daiquiri sabia que ela estava mentindo, mas antes que pudesse insistir, Marina voltou para dentro de sua barraca.
Muito distante dali, além das montanhas e da estrada, alguém observava as ruínas, e, em algum lugar que nenhum mapa conhecia, uma voz pronunciou uma palavra que não era ouvida havia séculos: Moru-Va-Arth.