O ápice da dor, fui sugada, sem fim,
Três tragédias seguidas, um furacão em mim.
Sem fôlego, sem chão, perdida no abismo,
Mas a dor vira virada, transcende o cisma.
A transformação, renascimento da alma,
Compreender o caminho, buscar a calma.
Olhei para trás, o ponto de partida,
Nada é por acaso, tudo tem sua medida.
Revisitar a história sem julgamento,
Difícil tarefa, que exige discernimento.
O certo e o errado, moldados pela visão,
Cada escolha, uma lição, cada passo, um chão.
A moralidade, essa barreira a desfazer,
Pontos de vista a se entender.
Maturidade, nem sempre perfeita,
Mas fui fazendo o melhor com a alma sujeita.
E agora compartilho, não para justificar,
Mas para explicar e, talvez, confortar.
Não para ser absolvida, mas para ser vista,
Com olhos sem preconceito, alma descomprometida.
Memórias de infância, liberdade no ar,
Correndo na praia, no vento a dançar.
Mas o puxão no braço, a confusão no olhar,
Mãe ou pai? O reflexo de um lar.
A casa simples, cheia de lembranças,
A caixa de bananas, as primeiras andanças.
Cenas desconexas, mas reais, vivas,
Que formam quem somos, intensas, altivas.
O cheiro da maresia, a água no pé,
Correndo atrás dos siris, o sol a aquecer.
A sensação de pertencimento, a alma a brilhar,
Completude, algo raro a se encontrar.
Era simples, era pura, sem ontem ou amanhã,
Buscava a simplicidade, a vida que é irmã
Da natureza, do invisível, do divino,
Brincava com amigos, seres de destino.
E, então, a frase que ecoa no peito,
Do caos ao belo, um novo efeito.
Se o universo cria galáxias, nós também,
Transformamos a dor em algo além.
Porque a dor, amiga, não é fim,
É início, é curva, é salto no abismo.
Criar beleza a partir do sofrimento,
É o caminho que encontro no meu alento.
A "morte" de minha mãe, não física, mas emocional,
Uma desconexão lenta, uma dor sem igual.
A busca pelo amor em arquétipos divinos,
Mas a verdade é que o abandono está nos destinos.
Nanã e Hécate, mães que não vieram,
Substituindo o vazio, que lentamente cresceram.
Mas com o tempo, aprendi a lição,
A dor da origem é parte da criação.
E agora, com olhos de quem vê mais longe,
Entendo que é preciso honrar o que nos forge.
A mãe, com suas falhas e dores a curar,
Faz parte de mim, e não posso negar.
Hoje, escolho incluir, não apagar,
Honrar a história, não mais tentar fugir.
O perdão, não para o outro, mas para a alma,
Libertando o coração da dor que acalma.
Ser mãe, ser humana, dualidade viva,
Rosa que encanta, mas guarda a sua ofensiva.
Pétalas suaves, caule espinhoso,
A vida nos desbrava, com seu amor doloroso.