Você pode me dizer quem sou?
Há uma mesa posta de expectativas
e um prato que se enche
com o peso dos meus cadernos.
Dizem que eu preciso continuar.
Que cada nota alta
é uma ponte que não pode ser quebrada.
Que cada página estudada
mantém alguma coisa de pé.
Então eu estudo.
Ou pelo menos tento.
Mas é estranho caminhar
quando o chão parece ter sido escolhido por outras mãos.
Dizem:
"Seja alguém."
E eu me pergunto,
como alguém se torna alguém
se nunca lhe perguntaram quem queria ser?
Há uma estrada desenhada para mim.
Nela existe uma faculdade,
um diploma,
um jaleco branco,
um futuro já decidido.
Só esqueceram de me entregar
o desejo de segui-la.
Porque eu não sei.
Não sei quem sou
por baixo de todas as expectativas.
Não sei de onde vêm meus próprios sonhos,
nem se algum deles se parece
com os sonhos que colocaram em minhas mãos.
Sou uma bússola que nunca apontou para si mesma.
E às vezes penso
que talvez eu não esteja perdida.
Talvez eu apenas tenha passado a vida inteira
carregando mapas de outras pessoas,
enquanto procuro, pela primeira vez,
o direito de desenhar o meu.
Dizem que preciso estudar.
Não porque meus olhos brilham ao aprender,
não porque encontrei um sonho escondido em algum livro,
mas porque é algo que querem para mim.
Nunca pararam para perguntar.
Nem sequer me deixaram pensar,
Eu quero isso?
Minha mãe não trabalha,
Não porque não teve opção, ela sempre teve.
Por isso insiste:
"Estude."
"Fique inteligente."
"Seja alguém."
Mas o que é ser alguém?
Ninguém me explicou.
Desde o princípio,
escolheram minhas roupas,
minhas respostas,
meus caminhos,
meus deveres.
Escolheram tanto por mim
que, quando me perguntam quem eu sou,
o silêncio responde antes de mim.
Não sei o que quero.
Não sei quem sou.
Não sei por que sou.
Onde vou?
Onde estou?
De onde vim?
Dizem que devo fazer faculdade.
Talvez.
Mas qual?
Não sei.
Dizem que devo ser médica.
Não porque eu ame a medicina,
não porque meu coração acelere ao pensar em hospitais,
mas porque assim o dinheiro durará mais tempo.
E eu me pergunto:
Como estudar por um sonho que não é meu?
Como correr por uma linha de chegada
que nunca escolhi?
Como dedicar anos da minha vida
a uma pessoa que talvez eu não queira ser?
Todos me dizem para construir um futuro,
mas ninguém percebe
que ainda estou procurando um presente.
Sou um mapa cheio de setas
apontando para todos os lados,
exceto para mim mesma.
Talvez eu estude.
Talvez eu faça uma faculdade.
Talvez eu descubra um sonho.
Mas, antes de me pedirem para ser alguém,
eu queria ter o direito
de descobrir quem sou.