tem uma forma de desespero que parece muito real. que pena, cara. que tristeza mesmo
Caim o cruel
Talvez certas tragédias reconheçam seus donos antes mesmo do primeiro toque.
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Pensamento
tem uma forma de desespero que parece muito real. que pena, cara. que tristeza mesmo
Conteúdo da publicação
Eu a encontrei meio enterrada na areia.
O sol castigava a terra com violência naquele fim de tarde, e por um instante pensei que o brilho entre os grãos fosse apenas reflexo de vidro quebrado.
Mas não era vidro.
Era metal.
Escuro.
Frio.
Silencioso.
Brilhava como a escama de um peixe morto preso ao anzol de um pescador cruel.
Abaixei-me sem saber exatamente por quê.
Talvez curiosidade.
Talvez destino.
Talvez certas tragédias reconheçam seus donos antes mesmo do primeiro toque.
Quando meus dedos encostaram nela, senti um arrepio subir pelo braço como veneno entrando na corrente sanguínea.
Era pesada.
Mais pesada do que deveria.
Como se carregasse algo além de aço e pólvora.
Limpei a poeira acumulada no cano.
Havia um nome gravado na lateral.
Uma única palavra.
Caim.
Meu estômago revirou.
Ainda assim, continuei.
Girei lentamente o tambor.
O clique seco ecoou no silêncio como um aviso.
Foi então que percebi.
Ela já estava carregada.
Todas as balas em seus lugares.
Como se estivesse apenas esperando.
Paciente.
Faminta.
Esperando a mão certa.
Esperando por mim.
Naquela noite, tentei deixá-la sobre a mesa.
Mas era impossível ignorá-la.
Eu podia senti-la.
Mesmo do outro lado do quarto.
Como se respirasse.
Como se observasse cada movimento meu.
Então ouvi o sussurro.
Baixo.
Quase carinhoso.
Quase íntimo.
Ela falava comigo.
Prometia alívio.
Prometia silêncio.
Prometia paz em troca de sangue.
Dia após dia.
Noite após noite.
Sua voz ficou mais forte.
Mais difícil de ignorar.
Até que certa madrugada, fiquei diante do espelho segurando o revólver.
Apontei o cano para meu reflexo.
Minha mão não tremia.
E aquilo me aterrorizou mais do que qualquer outra coisa.
Porque percebi que o controle já não era meu.
Meu dedo repousava no gatilho...
mas quem comandava aquele movimento não era mais eu.
Havia algo vivo naquele metal.
Algo antigo.
Algo cruel.
Meu dedo coçava.
A bala parecia implorar para nascer.
Eu tentava resistir.
Tentava largá-la.
Tentava gritar.
Mas a arma me conduzia como um mestre conduz um servo obediente.
E eu obedecia.
O revólver de Caim nunca errava.
Ele sempre sabia onde apontar.
Um tiro para um estranho na rua.
Um homem que jamais havia me feito mal.
Jamais sequer olhou em minha direção.
Ainda assim, o cano se ergueu.
O disparo rasgou a noite.
O fogo saiu da arma como se ela respirasse pela primeira vez.
E alguém caiu.
Enquanto eu permanecia em pé...
sem entender por que minhas mãos haviam obedecido.
Eu não tinha inimigos.
Não tinha vingança.
Não tinha motivo.
Havia apenas a fome insaciável daquele ferro amaldiçoado.
Tentei me livrar dela.
Joguei no rio.
Ela voltou.
Enterrei na terra.
Ela reapareceu na gaveta.
Tranquei em cofres.
Despertava com ela no bolso.
Sempre perto.
Sempre esperando.
Como uma sentença impossível de escapar.
Agora vivo aterrorizado pelo som do próprio gatilho.
Durmo com as mãos amarradas.
Evito multidões.
Evito espelhos.
Evito qualquer momento de silêncio.
Porque é no silêncio que ela fala mais alto.
E toda noite, antes de fechar os olhos, eu imploro em voz baixa:
— Por favor...
Minhas mãos tremem.
— Para de atirar...
As lágrimas descem sem que eu perceba.
— Me deixa em paz...
Olho para meus dedos como se eles pertencessem a outra pessoa.
E sussurro a última verdade que ainda me resta:
— Eu não aguento matar mais ninguém.
Após alguns dias.
Thoughts
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Permalinktem umas coisas que a gente encontra sem procurar. e nunca sabe o que elas vêm fazer na vida
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Permalinktem uma forma de desespero que parece muito real. que pena, cara. que tristeza mesmo
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Permalinkmas você tá escrevendo isso daqui de onde? ainda tá vivo ou tá narrando de outro lugar?
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Permalinkalgumas coisas achadas na areia trazem rotas muito antigas. esse revólver parece vir de um lugar que não deveria ter sido encontrado
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Permalinkquando a arma começou a falar, você tentou de verdade se livrar dela ou no fundo queria que ela ficasse?
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Permalinkdescobriu que acho melhor ser assombrado do que ser a coisa que mata. pelo menos você sabe que nao é culpado
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Permalinkvocê realmente perdeu o controle ou só tava procurando uma desculpa pra fazer o que queria?
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