O som do sinal explodiu pelas paredes de uma vez, cortando o ar como um aviso duro e claro. Ele parou imediatamente, mas não se afastou de uma vez. Ficou ali, de testa encostada na minha, os olhos fechados, respirando fundo e devagar, como se estivesse lutando consigo mesmo pra me soltar. As mãos ainda permaneciam na minha cintura, firmes e quentes, sem apertar demais, mas com uma força quieta que deixava claro o quanto lhe custava me afastar dali.
— Precisa ir. — disse baixo, a voz rouca e pesada, soando quase como um gemido contido. — Agora. Antes que alguém resolva aparecer e nos encontre assim. Não temos um minuto a mais.
Desci da mesa com as pernas tão fracas que pensei que não conseguiria me manter de pé. Apressada, puxei a blusa pra cima, mas meus dedos tremiam tanto que eu mesma não conseguia ajeitar direito. Ele me ajudou em silêncio, rápido e cuidadoso, puxando o tecido com delicadeza, ajustando sem demora, sem aproveitar o momento — porque sabia que cada segundo que passava era um risco maior. Os olhos dele percorreram o meu rosto uma última vez, carregados de tudo o que não podia ser dito em voz alta, pesados de um querer que precisava ficar escondido.
— Amanhã. — repetiu, bem baixinho, enquanto eu já segurava a maçaneta da porta. — Chegue bem cedo. Antes de o pátio encher, antes de qualquer um chegar. Vem até aqui. E não fale nada pra ninguém. Nem um gesto, nem um olhar que possa denunciar.
— E se não der tempo? — perguntei, olhando o corredor vazio e de volta pra ele, com o coração batendo tão forte que doía. — E se alguém aparecer antes?
Ele segurou minha mão por um instante curto, apertou devagar, como se quisesse deixar ali toda a sua força, e soltou de uma vez.
— A gente faz tempo. — respondeu, firme e direto. — Agora vai. E não olha pra trás, não importa o que ouça.
Saí da sala e fechei a porta devagar, quase sem fazer barulho. O corredor parecia mais comprido do que nunca. Cada passo que eu dava ecoava de um jeito que me fazia prender a respiração, com medo de que o som atraísse alguém. A cada som de porta abrindo, a cada voz que vinha de longe, eu parava por um instante, o peito gelado, convencida de que alguém ia aparecer e descobrir tudo. Parecia que todos já sabiam — como se eu carregasse nos olhos, na pele, em cada movimento, o rastro dos beijos dele, o toque das mãos dele, o gosto que ainda tinha nos lábios.
Atravessei o pátio com a cabeça erguida, tentando parecer normal, tentando disfarçar, mas sentia que qualquer um que olhasse direito ia perceber. Ia perceber que eu não era mais a mesma. Que tinha aprendido ali, naquela sala pequena e escondida, o que era ser desejada de verdade.
Cheguei ao portão sem cruzar com ninguém, sem ser parada, sem ter que explicar nada a ninguém. Mas não me senti aliviada. Ao contrário — senti um vazio imediato, uma falta que doía de verdade, como se tivesse deixado ali a melhor parte de mim. Cada segundo que passamos juntos tinha sido contado, apertado, roubado entre um minuto e outro. Não houve declarações longas, não houve palavras bonitas. Houve o olhar dele em mim, o toque que tentava ser breve e não conseguia, o medo constante de alguém aparecer, a consciência de que qualquer gesto a mais podia acabar com tudo.
E foi assim que segui meu caminho pra casa: sem saber se iria dar certo, sem saber se conseguiria esconder o que sentia, sem saber se amanhã realmente teríamos tempo. Mas sabia, com toda a certeza, de uma coisa: eu ia voltar. Cedo. Antes de todos. Porque o risco era grande, o medo estava ali o tempo todo… mas o que tinha começado a crescer entre nós parecia maior do que qualquer medo. E não dava mais pra voltar atrás.