CACANO – O Rei das Sombras
Capítulo 1 – O Menino Sem Medo
A lua cheia pairava sobre o Reino de Lunaris como um grande farol prateado. Seu brilho iluminava montanhas, rios e a imensa Floresta Sombria, um lugar evitado por todos os habitantes da região. Os anciãos diziam que aquela floresta existia desde antes da criação dos reinos e que, em suas profundezas, dormia um guardião capaz de decidir o destino do mundo.
Para os moradores, eram apenas lendas.
Para um garoto chamado Cacano, era o lugar mais bonito que existia.
Todas as noites, depois que terminava de ajudar sua mãe a fechar a pequena padaria da família, ele caminhava até a borda da floresta e observava as árvores balançando ao vento.
— Você não tem medo? — perguntou certa vez seu pai.
Cacano sorriu.
— Não.
— Todo mundo tem medo daquele lugar.
— Eu não sinto medo...
Seu pai suspirou.
— Então um dia esse lugar vai mudar sua vida.
O garoto não respondeu.
Apenas olhou novamente para a floresta.
Sentia que havia algo ali.
Algo vivo.
Algo que o observava.
Na manhã seguinte, Lunaris despertou movimentada. Mercadores chegavam de cidades vizinhas trazendo especiarias, tecidos e armas. Ferreiros martelavam espadas enquanto crianças corriam pela praça central.
Entre elas estava Cacano.
Ele carregava um saco de farinha para a padaria quando ouviu um estrondo vindo do templo.
CLANG!
Curioso, aproximou-se.
No pátio, dezenas de jovens treinavam com espadas de madeira.
No centro deles estava uma garota de cabelos longos e prateados.
Cada golpe era rápido e preciso.
Seu nome era Lysara.
A mestra caminhava entre os alunos.
— Mais força!
Lysara girou o corpo e atingiu o boneco de treinamento.
A madeira partiu ao meio.
Os outros alunos ficaram impressionados.
— Ela é incrível... — comentou um garoto.
Cacano também observava.
Sem querer, deu um passo para trás e esbarrou em um balde de água.
O balde caiu.
SPLASH!
A água molhou parte do pátio.
Todos olharam para ele.
Lysara cruzou os braços.
— Você sempre faz bagunça?
Cacano coçou a cabeça.
— Foi sem querer.
Ela deu um pequeno sorriso de canto.
— Então tente olhar por onde anda da próxima vez.
Antes que ele respondesse, um vento frio atravessou a vila.
As nuvens cobriram a lua, mesmo sendo pleno dia.
Os pássaros silenciaram.
Os cães começaram a latir.
A mestra do templo fechou os olhos.
Seu rosto perdeu a cor.
— Todos para dentro! Agora!
Os alunos não entenderam.
Então o sino da torre começou a tocar.
DONG! DONG! DONG!
Era o alarme de emergência.
Os guardas correram para os portões.
No horizonte, uma fumaça negra subia da floresta.
— Monstros! — gritou um soldado.
Os portões foram fechados.
Arqueiros assumiram posição nas muralhas.
Cacano correu para encontrar seus pais.
Ao chegar à padaria, viu sua mãe colocando as últimas crianças para dentro.
Seu pai pegava uma velha espada pendurada na parede.
— Fiquem aqui — disse ele.
— Pai... — murmurou Cacano.
— Não importa o que aconteça...
Proteja sua mãe.
Foi a última vez que o garoto viu o pai sorrir.
Do lado de fora, um rugido atravessou toda a vila.
As árvores da floresta começaram a cair.
Algo gigantesco se aproximava.
No alto da montanha, invisível aos olhos humanos, Fenrakar abriu lentamente os olhos.
— Finalmente...
O tempo da profecia começou.
Fim da Parte 1 do Capítulo 1.