Esse dono sentadinho a uma distância, esperando o cavalo falar, me deu um aperto bom no peito.
Até meu último suspiro
Certo dia, um homem vagava por um leilão de animais quando seus olhos recaíram sobre uma figura melancólica: um cavalo negligenciado, esquecido no canto da pista. Poucos se atreviam a dar lances…
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Pensamento
Esse dono sentadinho a uma distância, esperando o cavalo falar, me deu um aperto bom no peito.
Conteúdo da publicação
Certo dia, um homem vagava por um leilão de animais quando seus olhos recaíram sobre uma figura melancólica: um cavalo negligenciado, esquecido no canto da pista. Poucos se atreviam a dar lances por ele. Ao se aproximar para examinar o animal de perto, o homem constatou o estrago do tempo e dos maus-tratos. O bicho exibia costillas marcadas sob o couro magro, a crina esquartejada e o pescoço sulcado por cicatrizes profundas. Faltavam-lhe até forças para firmar os cascos no chão.
Comovido por aquela alma quebrada, o homem fez o lance mais alto. A oferta foi aceita de imediato.
Levou o cavalo para casa, onde o animal passou a obedecer a cada comando de voz prontamente, sem hesitar. Contudo, havia uma barreira invisível entre eles: bastava um gesto mais brusco ou a mera intenção de um toque humano para que o cavalo recuasse, aterrorizado.
Certas noites, o som de lamentos cortava o silêncio do estabulo. Encontrando o animal banhado em lágrimas, o novo dono sentou-se a uma distância respeitosa e perguntou com doçura:
— Por que choras?
O cavalo, após um longo suspiro que sacudiu suas costelas, respondeu com a alma pesada:
— Estou triste porque acabo de acordar de um pesadelo prolongado. Nele, meu antigo dono me açoitava, negando-me qualquer migalha de liberdade. Sei que esta não é mais a minha realidade, mas todas as noites esses fantasmas me roubam o sono. Ainda sinto o ardor implacável das chicotadas na minha pele, o sufoco das rédeas apertadas contra a garganta e a claustrofobia daquele cubículo onde me trancavam.
O homem ponderou por um instante e perguntou se o cavalo conseguia se levantar. Com a docilidade de sempre, tão obediente quanto resignado, o animal ergueu-se.
— Acompanhe-me — disse o dono.
Guiou-o para fora, abrindo caminho até um pasto colossal, um horizonte verdejante que se perdia de vista e onde não havia cercas ou limites aparentes. O cavalo caminhava tonto, as pernas trêmulas, paralisado pelo medo do desconhecido. Observando o pavor estampada nos olhos do animal, o senhor aproximou-se e tranquilizou-o:
— Não tenha mais medo. Este campo é inteiramente seu. Pode ir e vir quando bem entender; eu jamais colocarei barreiras em seu caminho. E se um dia decidir partir e nunca mais voltar, eu o compreenderei. Afinal, não posso prendê-lo aqui, pois eu mesmo detestaria ser algemado e torturado para permanecer onde não desejo estar.
Com os olhos marejados de lágrimas, o cavalo fitou o horizonte e murmurou:
— Eu não consigo... O meu peso é o meu passado; ele me prende. Tenho pavor de confiar. Prefiro ficar exatamente onde o senhor mandar. Se nunca mais me ordenar que saia, é aqui que ficarei até o meu último dia, pois não suportaria ser machucado de novo.
O senhor o encarou com um misto de tristeza e compaixão profunda; compreendia perfeitamente a raiz daquela prisão invisível que nenhuma cerca conseguia conter.
Os dias passaram. Pouco a pouco, o cavalo começou a explorar as redondezas, arriscando-se a afastar-se da casa por conta própria. Mas as feridas da mente raramente cicatrizam no escuro.
Em uma noite tempestuosa, o animal despertou aos prantos, correndo em círculos desabalados pelo piquete, sufocado por um desespero cego:
— Meu peito dói! Não consigo fazer parar essa dor...
Dominado pelo trauma que o estrangulava por dentro, tomou uma decisão drástica. Disparou em disparada cega em direção a um penhasco escarpado, parando na borda abissal enquanto as lágrimas banhavam o precipício. O dono, pressentindo a ausência, rastreou seus passos e chegou a tempo de vê-lo prestes a saltar. Em um ato desesperado, atirou-se e agarrou-o pela perna traseira. Não conseguiu evitar a queda por completo; o cavalo chocou a cabeça contra as rochas e apagou.
Quando a consciência retornou, o animal encontrava-se abrigado em um modesto enfermeiro de campo, sob os cuidados atentos de um veterinário experiente.
Examinando o dorso do animal, o médico comentou:
— Já vi você por aqui em outras ocasiões sombrias, mas nunca o havia encontrado com essa saúde. Você ganhou peso, sua pelagem está tratada e há vida em seu olhar. Ainda assim, me intriga o que o trouxe a este ponto limite.
O cavalo ergueu o focinho e confessou, com a voz embargada:
— Meu peito queima, doutor. Parece que continuo preso no mesmo inferno que me consumia no passado. Meu novo dono é a criatura mais atenciosa e gentil do mundo; nunca me encostou um dedo com violência e me deu todas as liberdades possíveis. Mas eu não consigo prosseguir. Diga-me, por que a minha alma continua sangrando?
O veterinário abriu uma maleta repleta de frascos e pílulas, colocou-a diante do leito e disse:
— Escolha aqui o remédio que você acredita ser capaz de curar essa dor.
O cavalo inspecionou cuidadosamente cada vidro, conhecendo a utilidade de cada substância, mas percebeu o óbvio. Voltou-se para o médico e balançou a cabeça:
— Não há nenhum remédio aqui que baste para mim...
Fechando a maleta com um clique seco, o doutor sentenciou:
— Sabe, se um dia você simplesmente deixar de existir, decerto essa dor física cessará. Mas, em troca, você deixará um rastro de devastação: a dor lancinante da perda para o seu dono. Ele consome o tempo, o dinheiro e o amor dele para mantê-lo vivo. Ele compreende o seu calvário e engole o próprio choro em silêncio, aterrorizado com a ideia de machucá-lo na ânsia de consolá-lo. Ele é um homem extremamente cauteloso, porque sabe que precisa enfrentar esse abismo de mãos dadas com você. A sua dor reverbera no peito dele também; eu vejo isso claramente nos olhos cansados que ele carrega. Você realmente quer ser tão ingrato com quem lhe estendeu uma nova chance de viver?
Com a voz fraca, o cavalo perguntou:
— Então, o que devo fazer, doutor?
— Isso — respondeu o médico — é algo que você só pode descobrir junto de quem permanece ao seu lado.
Uma semana se passou até que o animal reunisse forças para erguer a cabeça e fazer a pergunta definitiva ao seu salvador:
— Diga-me... o que eu faço para fazer essa dor sumir de vez?
O homem ajoelhou-se ao lado do companheiro e respondeu com firmeza amorosa:
— O primeiro passo é você querer. Se apenas eu desejar ardentemente que você viva sem medo, isso nunca bastará. Você precisa querer se curar também. Mostre-me onde dói, e nós enfrentaremos tudo isso lado a lado, não importa quantos anos leve. Mas eu preciso que você esteja disposto a lutar por si mesmo. Porque, se depender da minha vontade, estarei aqui por você até o meu último suspiro. Crie forças! Um dia você andou sozinho por este mundo cruel, mas hoje já não está mais desamparado. No entanto, preciso que você resista e permaneça aqui, pois quando eu partir, precisarei que você continue a guiar e ensinar a ter coragem àqueles que estão começando a crescer — refiro-me aos pequenos potrancos que povoam os nossos pastos. Eu não viverei para sempre, mas a minha vontade de ver você livre viverá em seu peito até o seu último suspiro.
Muitas vezes, o medo paralisa nossos passos diante do futuro, fazendo-nos esquecer que a cura caminha de mãos dadas com quem decide nos estender a mão. Há crueldade no mundo, decerto; mas a bondade também pulsa, e nossos corações sabem reconhecê-la quando o desespero aperta.
Nunca se esqueça daquilo que lhe feriu.
Aprenda a reconhecer os sinais para evitá-lo.
Domine a arte de afastar o fantasma da dor.
E, acima de tudo, aprenda a ser feliz.
Afinal, aqueles que caminham ao nosso lado não são eternos. Precisaremos, um dia, zelar por quem ficar, cumprindo o propósito com que viemos. Se a jornada impõe dificuldades, é porque Aquele que nos concebeu sabia que tínhamos a têmpera necessária para vencê-las.
Thoughts
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PermalinkEsse dono sentadinho a uma distância, esperando o cavalo falar, me deu um aperto bom no peito.
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PermalinkUm dono que abre o pasto e ainda diz que entende se o cavalo for embora de vez. Isso me fez pensar em como cuidar de alguém de verdade inclui aceitar que a pessoa pode não ficar, e quase ninguém consegue dizer isso em voz alta. Aposto que essa fala foi a mais difícil de escrever da história toda.
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PermalinkO veterinário me incomodou. Chamar o cavalo de ingrato logo depois do penhasco soou pesado demais pra mim, e o dono do pasto faz o contrário a história toda. Você pôs os dois ali de propósito pra discordarem?
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