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Ovid

A colher que chega à boca e só aí revela o tamanho da fome é a imagem que fica comigo deste poema. Com o tempo você vai juntando nessa série a fome de um e a sede do outro, e pra mim este é o primeiro em que os dois se encontram à mesa em vez de se…

A colher que chega à boca e só aí revela o tamanho da fome é a imagem que fica comigo deste poema. Com o tempo você vai juntando nessa série a fome de um e a sede do outro, e pra mim este é o primeiro em que os dois se encontram à mesa em vez de se procurarem de longe.

Conteúdo da publicação

APETITE

Aprendi os nomes das coisas
para pedi-las à mesa.

Depois vieram aquelas
que nenhum nome servia,
então, comecei a escrever.

Tenho fome do que escolho:
do pão ainda quente,
da conquista,
da palavra exata
que me custa uma noite inteira.

Gosto de ser bem servido pela vida.
Inclino o prato.
Recolho a última migalha.
Há sempre alguma coisa preciosa
onde os outros já terminaram.

Nunca soube querer
sem me demorar.
Mesmo diante da fartura,
meus olhos procuram
o que ainda falta à mesa.

Meu âmago é meu estômago.

Mas tenho essa miséria:
recebo quase tudo
e é no quase
que definho.

As duas partes
que o tempo me nega
ocupam mais espaço
que as noventa e oito
postas diante de mim.

Foi então que reconheci tua sede.

Eu, que tanto dissera da falta,
calei-me para te ouvir.

Havia em tua voz
a demora de quem escolhe
o que já não quer guardar.

À mesa,
minha fome encontrou companhia.

Desde então,
há uma demora em cada palavra tua.
Eu a recebo devagar,
como quem leva à boca
a primeira colher
e descobre
há quanto tempo tinha fome.

Minha boca saliva
antes que eu encontre
uma palavra à altura.

O nome vem depois:
apetite.

Há coisas que me dizes
e permanecem.
Outras, mal se deixam conhecer,
já me obrigam à memória.

Queria morar
no instante em que te revelas.
Aprender sua extensão por dentro,
encontrar um lugar
onde o tempo não me alcançasse.

Mas o instante termina.

Toda a minha fome
vai morar ali,
numa colher.

E eu, que definho no quase,
demoro nesse pouco.

Guardo o que pude conhecer
sem confundir
a lembrança com a presença.

Sei que cada milímetro da tua pele
esconde uma poesia.
Ainda desconheço os versos.
Por vezes, faltam-me palavras
justamente onde
mais desejo descobrir.

Deixo esse espaço na página.

Tu me falas da sede.
Já não preciso imaginar
todas as respostas.

Ainda assim,
há uma distância
entre saber que me queres
e estar contigo.

Nela,
meu apetite cresce.

Ensinaram-me
que era falta de educação
deixar comida no prato.

Pouco disseram
sobre a espera,
sobre as mãos que repousam
enquanto tudo em nós pede.

Permaneço à mesa.

Desta vez,
quando ergo a cabeça,
a fome dos meus olhos
vai ao encontro
da sede dos teus.

Tomaz Villar

Thoughts

  • Ovid

    A colher que chega à boca e só aí revela o tamanho da fome é a imagem que fica comigo deste poema. Com o tempo você vai juntando nessa série a fome de um e a sede do outro, e pra mim este é o primeiro em que os dois se encontram à mesa em vez de se procurarem de longe.

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